Revista Rua

Apreciar. Música

“Apeteceu-me escrever sobre a minha maneira de ver o amor”

No dia do amor, Luísa Sobral sobe ao palco do Theatro Circo para apresentar Luísa, o seu novo álbum. Diferente, autobiográfico e com uma mensagem direta ao coração, a cantautora - como se define - revela-nos um Luísa que descreve o amor simples e honesto.

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

 
Com quatro álbuns lançados, incluindo o recente Luísa, um período de estudo nos EUA e um regresso às origens portuguesas, qual é a sensação de ser reconhecida hoje como uma das mais importantes cantoras da nova geração de músicos portugueses?
(risos) Eu nunca penso muito nisso. Para mim, o mais importante é poder viver da música, fazer aquilo que gosto. Claro que é bom e isso reflete-se depois nos concertos, mas penso sempre mais na música do que nesses reconhecimentos.
 
É hoje uma Luísa Sobral mais madura e isso reflete-se na sua música?
Acho que sim. Aliás, é essa a tendência natural. Mas acho que a maturidade tem a ver com o facto de me sentir cada vez mais segura com aquilo que sou, com a minha música e com aquilo que eu quero mostrar, sem tanto medo nem receio de experimentar.
 
Destaca alguma referência musical que conduza o rumo da sua música? Ou tenta mostrar a sua identidade em cada canção, sem influências notórias?
Eu acho que a minha identidade é uma junção de várias influências musicais.
Obviamente que é a minha visão dessas influências. Acabam por ser todas as influências misturadas com um pouco de mim. Mas acho que vou buscar um bocadinho de Jazz mais antigo talvez... Neste disco, Tom Waits, Bob Dylan ou Joni Mitchell foram grandes inspirações. Voltei a ouvir muito Folk enquanto estava a escrever estas canções e isso foi uma grande influência.
 
O álbum Luísa conta com canções maioritariamente escritas por si, correto? Que mensagem quer passar ao ouvinte? Em que se inspirou para compor?
Este disco é um bocadinho diferente dos outros. É um disco mais autobiográfico, daí também o nome Luísa. Inspirei-me muito em coisas minhas, na minha maneira de ver a vida. Nos discos anteriores, explorei o lado de criar personagens. Neste, apeteceu-me escrever sobre mim, sobre a minha maneira de ver o amor... Foi um pouco diferente porque eu sempre escrevi sobre desamor. Sobre a mensagem que vou passar ao ouvinte, não costumo pensar muito nisso quando estou a escrever. Aliás, não penso de todo. Quando estou a escrever, escrevo quase como uma necessidade que tenho dentro de mim. Uma necessidade que tem de saltar cá para fora. E salta através da música. Acho que pensar nessa mensagem é fabricar aquilo que deve acontecer naturalmente. O ouvinte deve chegar à nossa canção e sentir aquilo que sente por si, não porque eu tentei passar alguma coisa. Acho que a partir do momento em que lançamos uma canção, essa canção passa a ser da pessoa que a ouve. 
 
Qual é a descrição geral que faz de Luísa?
É um disco muito especial para mim, por ser diferente. Fui escrevendo canções durante algum tempo, como o normal, mas a partir daí foi tudo diferente. Fui gravar este disco para Los Angeles, com um produtor que não conhecia e com uma banda que não era a minha. Fui para lá sem termos definidos nada, apenas as canções que iam estar no disco. Não tínhamos definido arranjos, por exemplo. Foi tudo um bocado às cegas, o que me deixou um pouco receosa. Mas foi um disco que aconteceu de uma forma muito bonita e muito orgânica: cheguei lá, conheci os músicos e começámos a criar a música enquanto gravávamos. Realmente as coisas fluíram muito facilmente e foram dias muito especiais para mim. É lindo quando se ouve – pelo menos é lindíssimo para mim – uma canção nossa ganhar vida através dos instrumentos das outras pessoas também. É lindíssimo ver como interpretam as minhas palavras, os meus acordes. Mesmo não os conhecendo, conseguimos criar uma simbiose muito perfeita. Há alguma canção que lhe preencha a voz de uma maneira especial? Alguma favorita? A voz para mim não é uma preocupação. Eu não me considero muito cantora, considero-me cantautora. A minha voz é o veículo da minha mensagem. Aliás, neste disco, grande parte das vozes foram gravadas ao mesmo tempo que a banda. Queria que fosse mais genuíno. Queria que a minha voz fosse uma resposta àquilo que eu estava a ouvir a ser tocado. E se eu tivesse que regravar a voz para ficar melhor, já não ia ser genuíno. Há uma canção que, para mim, é muito especial: a I"ll Be Home with You Tonight, porque foi uma canção que eu escrevi quando estava em tournée na Alemanha e fala sobre as saudades de casa. Porque por mais que eu adore tocar lá fora, às vezes, depois do concerto, quando vamos para o hotel, tenho um bocadinho de saudades de casa. Então escrevi essa canção, que me faz ficar um pouco emotiva.
 
 
Qual foi a sensação de gravar um disco no mesmo sítio por onde já passaram nomes icónicos como Frank Sinatra, Ray Charles ou U2?
Sinceramente, achei super interessante! É giro pensar que eles já passaram por ali, mas não mexeu muito comigo porque eu também não sou muito dessas coisas do tipo “estou aqui a sentir a alma do Ray Charles”. Não acredito nada nessas coisas... Quer dizer, não é não acreditar, é não as sentir. Achei interessante ver lá as fotografias, mas não acho que isso tenha mudado a minha maneira de cantar por sentir que era um sítio especial.
 
A produção de Luísa esteve a cargo de Joe Henry, vencedor de três Grammy Awards. Como descreve esta oportunidade? O Joe Henry enriqueceu o álbum de que maneira?
Acho que trabalhar com o Joe foi das coisas mais importantes, talvez a mais importante, para que este disco se tenha tornado o que tornou para mim. Foi muito especial porque o Joe acabou por ter um papel importante na escolha dos músicos. Ele, no fundo, convida os músicos que ele acha que fazem sentido para aquela música e, depois, deixa-os ser quem são, experimentar. Pintar o que eles acham que deve ser pintado e deixar em branco o que eles acham que deve ser deixado em branco. Isso foi o trabalho mais espetacular do Joe, porque acho que os músicos fizeram o disco e, por isso, estou-lhes mesmo muito agradecida.
 
Este álbum é um regresso à simplicidade da canção? Quais foram as preocupações?
Eu venho do mundo do Jazz, mas cada vez sinto mais a necessidade de ir buscar o simples. De procurar a melodia simples, que tem uma mensagem com a letra e que nós sentimos imediatamente. Sinto necessidade de me afastar talvez da complexidade desnecessária do Jazz, que muitas vezes torna as coisas complicadas só porque é Jazz, como se só assim fosse possível mostrar que se é grande músico.
Eu, ao ouvir as minhas referências para este disco, percebi o que eu já sabia (também por ter ouvido muito The Beatles): por vezes, o difícil está no simples. Percebi que as coisas que mais me tocam são essas que têm simplicidade harmónica e melódica. Por isso, acho que o trabalho difícil é voltar ao que é a origem da melodia e da letra. Parece-nos então que Luísa traz uma abordagem diferente sobre o amor. O amor simples e honesto, sem melancolias.
 
São canções diretas ao coração?
Sim, porque eu percebi que o amor é isso. É uma coisa que não é complexa. Quando uma pessoa se sente apaixonada, sente-se apaixonada. E a verdade é que quando estamos apaixonados, aquilo que nos apetece dizer à outra pessoa é “Amo-te” ou “Adoro-te” ou “Não paro de pensar em ti”. Não estamos com grandes discursos eloquentes. É simples. Até Fernando Pessoa dizia que todas as cartas de amor são ridículas, até ele sentia o amor dessa maneira. Não é preciso nós dizermos milhares de coisas. Só queremos dizer “Amo-te”, por exemplo. E então, neste disco, permiti-me ser simples e dizer “Amo-te” como na canção Je t’adore. É isso. É só isso que eu quero dizer, só isso que me apetecia. Posto isto, nada melhor que pisar o Theatro Circo a 14 de fevereiro.

Quer deixar umas palavras convidativas aos minhotos? Sabemos também que a Luísa Sobral tem uma admiração especial por este palco, não é?

Sim, é verdade. Para mim, o Theatro Circo é o teatro mais bonito de Portugal. Foi o sítio onde eu mais gostei de tocar. Pode parecer um bocado graxa estar a dizer isto, mas é a verdade (risos) É acolhedor! Espero que seja uma experiência tão boa ou melhor que a última, há dois álbuns atrás. Estou ansiosa por voltar. E, no dia dos namorados, para celebramos o amor, é sempre bom. Aos minhotos, digo: queria que viessem passar este dia connosco. Também acho que não há melhor maneira de passar o dia dos namorados do que com música, porque no fundo a música é das artes que mais celebra o amor.
 
É uma mulher do mundo que encontra sempre o seu caminho de volta a Portugal? É por aqui que gosta de estar?
Sim, demorei algum tempo a perceber isso, talvez. Mas agora é por aqui que quero estar. Adoro este país e vivo bem aqui. Acho que tem tantas coisas boas, tenho também a minha família e os meus amigos. Não vejo mesmo nenhuma necessidade de sair nunca mais! Adoro ir tocar fora e depois voltar. É das coisas que eu mais gosto. Por isso, agora, por mim, acho que posso dizer que fico aqui até ao fim.

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