Revista Rua

Saber. Refugiados

“Não estou otimista”

“Os ricos só dão conta que os pobres existem quando estes lhes batem à porta”, afirmou António Guterres, ex-alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados no encontro “À conversa com…”, no Centro Académico de Braga (CAB) ao final da tarde de hoje.

Luís Leite

Texto: Luís Leite |

“Os ricos só dão conta que os pobres existem quando estes lhes batem à porta”, afirmou António Guterres, ex-alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados no encontro “À conversa com…”, no Centro Académico de Braga (CAB) ao final da tarde de hoje.

O candidato a secretário-geral das Nações Unidas confessa-se pouco otimista com a situação atual da Europa e explicou que existiram várias razões que levaram à exponente procura de abrigo na Europa por parte das vítimas deste conflito. “O detonador de toda esta situação foi o corte na ajuda ao Programa Alimentar Mundial. Houve um corte de 30% na ajuda alimentar aos Sírios”. Mas porque é que só nesta altura é que se fala dos refugiados? “A resposta não é agradável. Os refugiados passaram a ser um tema central, não por que eles existem, mas porque eles chegaram à Europa”, disse António Guterres.

Esta crise não começou em 2015, muitos sírios já se encontravam deslocados e refugiados nos países vizinhos. O antigo primeiro-ministro descreveu a grande afluência de refugiados, sentida pela Europa em 2015: “No momento em que chegam à Europa, um tema que era esquecido passou a ser falado.” 

Segundo António Guterres, o impacto das imagens de sírios a chegar em segurança a países europeus, como a Alemanha, deu esperança àqueles que se encontravam ainda na Síria ou refugiados noutros países. No entanto, com a crescente entrada de pessoas na Europa, “cada país tratou de si e isso traduziu-se num caos. Houve alguma ingenuidade como os países ocidentais olharam para o despertar árabe”. 


Estas guerras ninguém ganha, eternizam-se. 


O candidato a secretário-geral das Nações Unidas afirmou que há várias coisas que deviam ter sido feitas por parte da Europa. Referiu a ajuda humanitária insuficiente para a Síria, Líbia, Líbano. “Na Líbia existe um refugiado para cada três líbios. A ajuda humanitária é insuficiente, é metade do mínimo que se exige”. Referindo o atual cessar-fogo na Síria, diz que “Estas guerras ninguém ganha, eternizam-se”. 

Quem gere este movimento não são os estados, são os contrabandistas. 


Falando de soluções para a resolução desta crise humanitária, o antigo primeiro-ministro diz que “tem de se criar um mecanismo de receção e registos para depois distribuir os refugiados. Um sítio onde é preciso registar e contactar as pessoas. Isso não existe, não há sítio onde este trabalho possa ser feito”. 
Diz-se “muito preocupado com a situação” da Europa e afirmou que “o bastião dos direitos humanos pode colapsar. O sistema de asilo na Europa pode colapsar. Schengen pode ser posto em causa e isso poderá ter consequências muito graves”. 


António Guterres encontra-se com os ex-ministros da Justiça e Educação, Laborinho Lúcio e Eduardo Marçal Grilo, para um debate promovido pela Igreja Católica. A iniciativa da arquidiocese minhota, intitulada "Olhares sobre a Educação", está a decorrer no Grande Auditório do Parque de Exposições de Braga, com moderação da jornalista Fátima Campos Ferreira. O CAB, onde decorreu este encontro, tem ligação com a Comunidade Pedro Arrupe, que vai acolher uma família de seis pessoas, ao abrigo do programa da Plataforma de Apoio aos Refugiados.


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