Revista Rua

Saber. Entrevista

“Não se lembrem dos bombeiros só na hora da aflição”

O Capitão António Ferreira é o Presidente dos Bombeiros Voluntários de Braga

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

O bombeiro é “uma gente estranha, que muitas vezes troca o seu aconchego familiar por uma noite de piquete e prevenção, no quartel dos bombeiros voluntários. Gente que não hesita quando chega um pedido de socorro, que corre acelerada para a ambulância e parte silenciosa e confiante, mesmo sem saber bem o que lhe vai aparecer pela frente. Gente estranha esta, que quando ouve o eco repetido da sirene anunciando o fogo, corre a equipar-se, grita para esconder a ansiedade e não se esquece de acarinhar e motivar os mais novos, que vão pela primeira vez em missão. E vão, mesmo não sabendo se voltarão”. É com este texto que escreve no prefácio do livro Ser Bombeiro, uma coletânea de depoimentos de bombeiros disponível para aquisição no quartel no Largo Paulo Orósio, em Braga, que apresentamos o Capitão António Ferreira, presidente dos Bombeiros Voluntários de Braga desde maio de 2016. Numa conversa sobre o que leva um Homem a ser bombeiro, este militar natural de Estremoz falou-nos das principais dificuldades que o corpo de bombeiros enfrenta, todos os dias. 

Apresente-nos este corpo voluntário de bombeiros de Braga.

Este é um corpo misto, muito equilibrado em termos de sexo masculino e feminino. Temos à volta de 150 bombeiros, com cerca de 75 bombeiros no quadro ativo, outros tantos no quadro de reserva e mais uma dúzia no quadro de honra. São bombeiros que têm a sua vida, têm os seus empregos, mas que gostam do trabalho de bombeiro. É um número razoável e suficiente para o que pretendemos. Quando mais tarde tivermos um novo quartel - esse que é o nosso maior sonho -, esperamos duplicar esse número. Neste momento, estamos perante uma associação de bombeiros que está todos os dias a rejuvenescer, que está a caminhar num bom sentido e, em termos de quartel, vamos entrar nos próximos meses em grandes obras. Vamos brevemente deslocar-nos para o antigo quartel dos bombeiros sapadores para que este faça obras.

 

Como descreve o apoio a esta corporação em termos de sócios?

Numa cidade tão grande é de estranhar termos tão poucos sócios. Temos cerca de 2000 sócios, mas este número está muito aquém das minhas expetativas. Pensei que as pessoas da cidade, vendo o trabalho que está a ser feito, vendo o esforço que temos vindo a fazer para a credibilização desta instituição – que é uma instituição sem fins lucrativos, mas com prejuízos garantidos -, nos iriam ajudar mais. Prestar socorro às pessoas, ir combater incêndios custa dinheiro e o Estado e a autarquia auxilia muito pouco os seus bombeiros voluntários. A nossa mais valia são os sócios, que por um euro por mês nos podem ajudar. As pessoas têm é de ter vontade de ajudar e ter consciência de que não se devem lembrar dos bombeiros só na hora da aflição. Por exemplo, no fim de semana em que fomos afetados pela tempestade Ana, tivemos de nos preparar com mais gente no quartel e tivemos de facto inúmeras chamadas, mas com pedidos que não faziam sentido! “Tenho a varanda cheia de água”, “a minha lâmpada partiu”, etc. As pessoas desatam a ligar aos bombeiros por coisas absolutamente incríveis. Nós estamos cá para o socorro, para a catástrofe, para acudir aqueles que estão verdadeiramente aflitos e que sozinhos não conseguem remediar as suas coisas. Nesse dia, toda a gente se lembrava dos bombeiros, mas quando nós pedimos para que se façam sócios ninguém nos liga. Por isso, convém sempre mencionar: não se lembrem dos bombeiros só na hora da aflição.

 

Como define um bombeiro?

Nesta sociedade egoísta, em que os jovens convivem pouco, mas mandam muitas mensagens, um bombeiro é uma estranha gente. Tenho-me interrogado sobre o que leva um jovem a dizer que quer ser bombeiro, a querer fazer um curso e estar sujeito a uma quantidade enorme de horas de formação para, depois, ao toque da sirene, ao telefonema ou à mensagem, deixar a sua casa e vir a correr. Não encontro uma verdadeira razão a não ser a generosidade que, apesar de tudo, é apanágio de quem é jovem. Apesar do que disse inicialmente, acho que a generosidade não deixou de ser uma característica dos jovens. Também podemos pensar que há quem procure alguma adrenalina, mas no fundo acho que é generosidade, descoberta, vício de família às vezes.

 

Tivemos em outubro um dos maiores incêndios de que há memória em Braga. Como é que uma corporação se prepara para um combate deste tipo?

Nunca estaremos preparados para um incêndio dessa dimensão. Naquele dia, a sensação que me invadiu foi de impotência e raiva. As pessoas ficaram mais focadas no incêndio que iniciou em Leitões (Guimarães) e veio a caminho do Bom Jesus e Sameiro com uma rapidez estonteante, mas a verdade é que há 36 horas que o grande incêndio tinha começado na encosta da Póvoa de Lanhoso e a descer para Amares, Adaúfe, Crespos, Santa Lucrécia... Os nossos bombeiros, voluntários, sapadores e até de outras corporações vizinhas, já estavam em esforço, de noite e de dia. Era aí que estavam concentradas a maioria das forças. Quando, de repente, o incêndio de Leitões começou a progredir a caminho da Falperra, houve até alguma dificuldade em fazer balançar as forças. Constatámos um vento fortíssimo, que levou as chamas até à Falperra num ápice. Senti impotência e raiva porque, nesse dia, tínhamos uma quantidade suficiente de bombeiros voluntários a querer ir ajudar a combater o fogo e não tínhamos mais viaturas. Tínhamos as viaturas todas na rua e, portanto, todos os meios foram poucos para socorrer a cidade naquele dia. Todos terão feito o seu melhor, mas a sensação que eu tive foi que nós somos muito impotentes quando nos deparamos com a força da natureza, uma natureza que de vez em quando se revolta com tantos maus tratos, tanta ignorância e tanta asneira que nós fazemos. Esta é a grande verdade. E quando a natureza se zanga, nós somos pequeninos e não temos possibilidades nenhumas.

Para além disso, o governo já tinha retirado os meios aéreos daqui de Braga (e de outros sítios), porque se eles cá estivessem teriam sido uma preciosíssima ajuda. Também é verdade que nesse fim de semana existiam fogos por todo o lado e, portanto, as fantásticas corporações vizinhas estavam também ocupadas. Restamos nós e alguma ajuda de poucas corporações e, de facto, fomos impotentes perante vento, chamas, floresta desordenada e nada limpa. Recordar esse dia é recordar com muita tristeza, mas pensando que nós temos de ser melhores, estar melhor equipados, ter mais gente e preparar-nos. Porque isto pode não ter sido a última vez. Eu tenho algum receio que o ano de 2018 possa ser um ano parecido com 2017. Há medidas que estão a ser implementadas, o governo teve algumas comissões a trabalhar, mas as medidas referentes ao património de cada um, aos proprietários das matas, vão demorar tempo a pôr em ordem. A recomendação que deixo é que a proteção civil temos de ser todos nós!

 

E como podemos ajudar?

Quando nós vemos que 80% dos fogos começam com o sol da meia-noite, quando nós sabemos que há pequenos focos de incêndio que as pessoas encontram, olham e, se calhar, com um pé ou uma giesta rapidamente apagavam, mas não o fazem, quando as pessoas não respeitam as épocas das queimadas, quando os autarcas das juntas de freguesia não têm meios para tentar apagar um pequeno incêndio, quando os proprietários das matas não fazem rigorosamente nada e deixam o mato alcançar quase a altura das árvores, quando o próprio Estado não trata daquilo que é de todos nós, como aconteceu no pinhal de Leiria, fica uma dor e uma raiva muito grande. A prevenção é importante. Temos de começar por ensinar aos nossos pequeninos, nas escolas, como se devem comportar perante a natureza, para futuramente serem eles os grandes agentes da proteção civil, para incentivarem os pais a fazerem-se sócios dos bombeiros, até. Os anos que aí vêm podem ser dramáticos: a água vai faltando, tudo vai ficando mais seco e isso vai ser um problema muito grande.

 

Há quem possa pensar que incêndio apagado, problema resolvido. Mas o trabalho de um bombeiro nunca acaba, pois não?

Nós somos bombeiros muito para além dos incêndios. Nós somos bombeiros 365 dias por ano. O nosso trabalho começa e acaba a cada 24h. Desde que estou aqui como presidente já transportámos 34 mil pessoas de acidentes, doenças súbitas e outros problemas a clínicas e hospitais. As nossas viaturas do INEM não param. Ou seja, somos bombeiros sempre.

O país precisa muito dos seus bombeiros. E como ter bombeiros bem equipados e capazes custa algum dinheiro, eu acho que os municípios e os governos têm ignorado os seus bombeiros para não gastar esse dinheiro e viver do nosso trabalho, da nossa disponibilidade, daquilo que nós fazemos voluntariamente. Mas chegou a hora de governo e autarquias pensarem duas vezes no trabalho que os bombeiros possam vir a ter neste país, da necessidade que têm de ter bombeiros devidamente equipados e perceberem que algum dinheiro que gastem na ajuda às corporações, na formação de bombeiros, no reequipamento das suas frotas automóveis e de combate a incêndios, é dinheiro muito bem gasto. 


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