Revista Rua

Saber. Reportagem

“Não sou herói, nem quero que me agradeçam. Quero que me ajudem”

O Bombeiro é a nossa figura do ano 2017

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Pedro Ribeiro é bombeiro voluntário. Apenas um dos tantos que, nos quentes dias de 2017, combateram as chamas enraivecidas que destruíram terrenos, casas, vidas. Pedro não é herói nem tem superpoderes. Pedro é, simplesmente, bombeiro. 

Com um passo acelerado, Pedro Ribeiro chega ao quartel dos Bombeiros Voluntários de Braga, no Largo Paulo Osório. Vinha da sua pausa de almoço, após passar a manhã a tratar da tarefa de manutenção das viaturas. “Há sempre coisas a fazer no quartel”, diz-nos. Pedro é um homem alto, magro, com um olhar focado e um sorriso envergonhado, que se esconde por baixo do bigode. É bombeiro voluntário há 16 anos e hoje vive 100% compenetrado no trabalho que realiza na categoria de subchefe. “Entrei oficialmente para os Bombeiros Voluntários de Braga em 2001, mas desde sempre me lembro do meu pai vir ajudar os bombeiros na manutenção das antenas, das comunicações”, conta-nos. “A minha vontade, quando me inscrevi, era combater os incêndios, fazer salvamentos, ajudar as pessoas. Porque eu achava que tinha de fazer alguma coisa pela sociedade, não podia ser só trabalhar para mim e esperar por receber algo. Sempre pensei que temos de dar alguma coisa”, afirma. Fez então a recruta, começou como bombeiro de terceira, passou a bombeiro de segunda, bombeiro de primeira e finalmente a subchefe. “Como voluntário, nunca esqueço de fazer o meu piquete, de fazer as minhas horas quando me ligam e não aceito que me gratifiquem ou subsidiem por isso. Faço esse trabalho voluntariamente e consciente que é esse o meu princípio. Não é para andar com medalhas ao peito”, assume Pedro. Admitindo que não é nada fácil conjugar a vida pessoal com o trabalho voluntário, Pedro relembra que, para ser bombeiro, “não é só querer, é também poder”, uma vez que só nos momentos de socorro é que grande parte dos Homens percebem se estão preparados para abraçar esta causa ou não. “Temos de ter noção que para servir os outros, temos de estar à altura”, assevera, enumerando a quantidade de horas de formação que já tem, incluindo aquela que procurou fora dos bombeiros.

Com um espírito de missão e uma lealdade à casa de que veste a farda, Pedro apela à consciência das pessoas, num momento em que o trabalho do bombeiro é vangloriado. “As pessoas têm que saber que hoje em dia, em Portugal, ainda funciona a disponibilidade do bombeiro voluntário, que não deixa de ser, em termos de carreira, um profissional, porque lhe são exigidas horas, formação, prontidão”, comenta. “A mente humana é muito fraca hoje em dia. As pessoas hoje estão despertas para a causa dos bombeiros e, mais tarde, esquecem-se. Não fazem nada em termos de prevenção junto às casas. Depois, não descarreguem em nós a culpa por tarefas que não são nossas. É necessário respeitar os bombeiros”, alerta Pedro.

 

 

“Mas o que é que eu ando aqui a fazer?”

Na encosta da Falperra, entre os vestígios de madeira queimada, Pedro conta-nos algumas das peripécias daquele inesperado dia quente de outubro. Já não havia memória de um incêndio tão grande a assombrar Braga. Foram cerca de 1200 hectares consumidos em 24 horas e uma casa destruída pela força das chamas. Rapidamente, Braga ficou órfã de floresta, vendo a sua paisagem, outrora verde, pintada a cinza. “Nunca pensei que este seria o pior incêndio de Braga”, diz Pedro, explicando que já conhecia bem aquelas zonas, porque, de quatro em quatro anos, mais coisa menos coisa, a área era vítima do fogo. “E semanas antes nós tínhamos estado naquela zona da Santa Marta, de Morreira, Nogueiró...”, acrescenta. Com a certeza de que o fogo teve mão criminosa, este bombeiro voluntário recorda aquele domingo como um momento de agonia. “Mas o que é que eu ando aqui a fazer?”, perguntou-se a ele próprio, várias vezes. “Nós esforçamo-nos, empenhamo-nos, mas há um limite – não só para a condição física, mas também para os equipamentos e para o nível de operacionalidade. Naquele dia, antes de me deslocar para a Santa Marta com a minha equipa, já tínhamos estado em São Mamede, Crespos, São Paio de Pousada, Santa Lucrécia... Tentámos segurar o fogo que ameaçava casas, porque, sinceramente, não tínhamos hipóteses para mais. Todos os nossos carros estavam fora do quartel, todo o nosso pessoal estava já com bastantes horas de serviço. É normal que num momento como aquele não haja um manual ou um sistema informático que diga que é necessário fazer substituições na equipa. É aí que eu salvaguardo o nosso sacrifício e o nosso espírito. Mas, se alguma coisa corre mal, vão perguntar-nos imediatamente por que estávamos há tantas horas num incêndio ou por que é que o carro não fez uma paragem”, explica, angustiado, Pedro. “Fui fazendo o que pude. Basicamente, essa tarde não foi muito má. Pensávamos que ia ser só aquele incêndio e já dizíamos que aquilo era uma repetição do ano 2005, mas que apenas iria durar uma tarde. Para nossa surpresa, fomos chamados para uma casa a arder em Morreira. Fomos no nosso veículo, que era o mais rápido, fizemos a estrada de dia e verificámos que a Santa Marta ainda não estava afetada. Começámos então a combater o incêndio em Morreira, com a ajuda dos colegas das Taipas. No entanto, no espaço de uma hora e tal, quando sou mobilizado para Esporões, é que vejo que a situação já está muito mais problemática no lado de Braga”, recorda. “Caiu a noite e, à medida que íamos esgotando a água, íamos fazendo o reabastecimento à estrada nacional, vendo daí que havia zonas que não eram compatíveis com a evolução do incêndio. Havia ali mão humana claramente”, acrescenta.

Mas a pergunta retórica ecoava na cabeça de Pedro. “O que é que eu ando aqui a fazer?”, pensava o bombeiro de cada vez que era abordado por locais, dizendo-lhe “deixe arder. Isto agora vai servir para limpar tudo”. Pedro sentia-se incomodado com estes diálogos, começando a aliar o cansaço ao nervosismo. “Já durante a tarde uma senhora tinha sido mal-educada connosco, chamando-nos incompetentes por termos deixado queimar um pouco junto à casa dela. Também tivemos um indivíduo, de cerveja na mão, a exigir que abandonássemos o trabalho numa casa para ir tratar do terreno dele. Tivemos ainda de chamar a GNR, porque tínhamos pessoas a fazer queimadas, para aproveitar a presença dos bombeiros”, conta, Pedro, aproveitando para mencionar: “Há pessoas que nos tratam como o Zé Bombeiro, incultos e sem qualificações. Nós tentamos respirar fundo, tentamos ignorar, mas é difícil porque não somos uma máquina. Naqueles momentos, todos são treinadores de bancada, todos percebem de incêndios e todos põem em causa as nossas decisões de estar num sítio e não no outro que também está a arder. Esquecem-se que todos nós temos centenas de horas de formação”.

Pedro já tinha visto grandes incêndios. Mas nenhum como este. “Impossível. Se as pessoas querem isto, se querem este índice de destruição, não sei o que ando aqui a fazer. Se Deus não apaga fogos, nós não fazemos milagres”.

 

 

“A minha motivação é fazer as coisas bem, evitar que este mundo fique cada vez mais perdido. Herói só existe numa banda desenhada”

Homenageando a ajuda dos colegas voluntários de corporações vizinhas, de Guimarães, Barcelos ou Famalicenses, Pedro sabe bem que as queimaduras nas suas pernas são motivo de memórias tristes. Também os três dias que passou na urgência devido à inalação de fumos lhe recordam o porquê da dificuldade de ser bombeiro e o fazem questionar, por vezes, o porquê de as pessoas não ajudarem mais os seus soldados da paz. Mas este é o seu trabalho e, por isso, rejeita o título de herói. “Pelos meus feitos, já fui reconhecido, já recebi uma medalha, que fica guardada lá em casa. No dia a dia, basta-me olhar para uma pessoa e ver que ela ficou satisfeita com o meu trabalho. Ver que resgatei alguém, saber que apaguei um incêndio bem, esse já é o meu obrigado. A minha motivação é fazer as coisas bem, evitar que este mundo fique cada vez mais perdido. Herói só existe numa banda desenhada. Não sou herói, nem quero que me agradeçam. Quero que me ajudem”, assegura Pedro, repetindo: “Não nos têm que agradecer, não têm que fazer grandes alaridos. A única coisa que nós pedimos são as condições para estarmos cá”, afirma, fazendo uma referência à banda desenhada, relembrando que, aos olhos da sociedade, muito rapidamente um herói passa a vilão. “Nós costumamos perguntar às pessoas se a farda dos bombeiros tem botões para pendurar a capa de super-homem. Não, não tem! Nós trabalhamos em equipa, estamos aqui porque queremos. Esta é a minha casa. Claro que gostava de ter outras condições, outros carros, mas estou aqui para ajudá-la a crescer. Para isso, precisamos de despertar as pessoas para algo que é humano, que é válido. Se eu não consigo servir melhor é porque não tenho melhores condições. É por isso que peço para que não se esqueçam de nós!”.

 


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