Revista Rua

Saber. Entrevista

“O Vinho Verde é hoje uma marca à escala global”

Manuel Pinheiro é o Presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes.

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Há 17 anos que Manuel Pinheiro é o rosto da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), um organismo interprofissional que tem por objetivo a representação dos interesses das profissões envolvidas na produção e comércio de Vinho Verde. Acompanhando de perto a evolução do reconhecimento do potencial dos Vinhos Verdes, Manuel fala-nos da excecionalidade dos vinhos da Região, da promoção crescente nos mercados externos e do que ainda há a fazer para continuar a afirmar a unicidade dos vinhos por cá produzidos.

Fotografia: D.R.

Em primeiro lugar, a seu ver, Vinho Verde é sinónimo de quê? Que descrição faz dos Vinhos Verdes neste momento? Podemos dizer, em jeito de elogio convencido, que o Vinho Verde é mesmo único no mundo?

Não é aplicável dizê-lo em jeito de elogio convencido porque o Vinho Verde é mesmo único no mundo. À semelhança do que acontece com outros terroirs de exceção, o Vinho Verde é exclusivamente produzido na Região Demarcada dos Vinhos Verdes, no Noroeste de Portugal, a partir das castas autóctones que garantem a preservação de uma tipicidade de aromas e sabores que são assumida e reconhecidamente diferenciadores a nível mundial.

A meu ver, o Vinho Verde é uma tendência crescente. É um vinho que se desvenda numa frescura vibrante, com elegância e leveza, assumindo uma expressão aromática e gustativa com destaque para as notas frutadas e florais.

Vinho Verde é sinónimo de convívio, de alegria, de descontração, de harmonização e até de alguma emoção associada. É um vinho tipicamente português que faz jus à História: partiu à conquista do mundo com grande sucesso.

 

O Manuel é o rosto principal da CVRVV há 17 anos. Como tem acompanhado o crescimento do reconhecimento da Região dos Vinhos Verdes?

O crescimento dos Vinhos Verdes tem sido notável. De facto, ao longo da última década, conseguimos reposicionar-nos de uma forma fabulosa: os produtores e enólogos têm feito um trabalho de crescimento no sentido de aumentar a qualidade e o valor dos seus vinhos, de ampliar a sua presença no exterior, participando em ações externas que são promovidas nos mercados estratégicos pelo nosso Departamento de Marketing e, para além disso, lideramos as exportações ao mesmo tempo que consolidamos a nossa posição no mercado nacional.

É com muito orgulho que somo 17 anos de CVRVV com a consciência de que fizemos muito e de que fizemos bem. O Vinho Verde é hoje uma marca à escala global. Com características que o destacam em diferentes mercados como uma referência.

 

O Manuel considerou anteriormente que foram feitas grandes apostas em termos de viticultura, resultando daí melhores uvas. Será esse um dos principais motivos da evolução?

A evolução deve-se a um conjunto de fatores, que vai desde os enumerados anteriormente – mais promoção, mais criação de valor, mais amplitude de ação – às evoluções introduzidas na viticultura que, naturalmente, melhoram processos, conferem maior produtividade e melhores uvas que originam também melhores vinhos.

 

Destaca mudanças visíveis em termos do vinho produzido na Região?

Os nossos produtores e enólogos têm adotado um conjunto de medidas que garantem mudanças significativas no que respeita à produção de vinho. Têm sido introduzidos novos métodos que são mais eficazes, que melhoram a rentabilidade e que permitem explorar o potencial das uvas que produzimos e dos vinhos que somos capazes de criar na Região.

 

É claro que uma das mudanças se vê a nível comercial, com uma maior predisposição dos produtores para comunicar os seus próprios projetos. Há mais feiras, mais eventos internacionais a captarem a atenção dos produtores portugueses. Acha que, de certa forma, a mentalidade do produtor de vinho alterou-se?

Obviamente que sim. Como já referi, os produtores tornaram-se mais participativos ao longo dos últimos anos, fruto de alterações do sector, mas também de um arrojo que o nosso Departamento de Marketing foi capaz de perseguir no sentido de vincar um posicionamento de exceção.

Quando vamos às feiras no exterior, existimos como marca forte - Vinho Verde - que agrega diferentes produtores e esse motor de promoção vai fomentando maior envolvimento, mais ambição e resultados cada vez mais satisfatórios para cada produtor em particular e para a nossa marca como um todo. Somos uma Região que comunica de forma coesa e que explora o seu potencial sempre com o objetivo de chegar mais além.

 

Falando dos mercados, o Manuel disse há uns meses que o potencial dos mercados internacionais, sobretudo EUA, era importante para os Vinhos Verdes. A aposta continua a ser a exportação? E o que torna os nossos vinhos apreciados? Ainda: o que nos falta para aumentar o nosso potencial nesses mercados?

O Vinho Verde exporta para mais de 107 países e prevê encerrar o ano de 2017 com um crescimento de 7% nas exportações, o que equivale a um novo recorde: 60 milhões de euros. Entre os principais mercados estão, naturalmente, os Estados Unidos – o principal importador de Vinho Verde – e, atualmente, também a Alemanha em destaque. Seguem-se a França, Canadá, Brasil e Suíça, mas poderíamos enunciar outros tantos mercados onde continuamos a registar crescimento.

O que torna o Vinho Verde tão apreciado já foi várias vezes referido: o seu carácter único e versátil. Quanto ao que ainda podemos fazer, basta que nos foquemos em continuar a produzir vinhos de qualidade como temos feito e a promover uma Região que tem ainda muito potencial por explorar.

 

Então e o mercado nacional? Qual é o ponto de situação a nível interno?

No mercado nacional temos ainda muito que conquistar. Apesar de liderarmos as tendências de consumo nos meses de verão - à frente do Alentejo -, o Vinho Verde ainda não é reconhecido pelo consumidor nacional como um produto para o ano todo. Os números têm vindo a subir a cada ano, mas sabemos que temos que reforçar a nossa aposta no mercado interno para conquistar mais Vinho Verde Wine Lovers.

O posicionamento do Vinho Verde é claro: é um vinho gastronómico, versátil e perfeitamente adequado a todo o ano. A verdade é que o perfil dos nossos vinhos também tem evoluído. Temos, por exemplo, cada vez mais Vinhos Verdes de guarda, que podem ser consumidos ao fim de alguns anos em garrafa, mais evoluídos e capazes de conquistar os consumidores mais exigentes.

A Rota dos Vinhos Verdes, o crescente interesse por parte das pessoas relativamente às experiências de enoturismo têm ajudado a impulsionar a nossa Região e os nossos vinhos?

Naturalmente que sim. Portugal está a viver um momento próspero do ponto de vista turístico e, em paralelo, tem registado uma cada vez maior atenção ao sector dos vinhos – fundamental para a economia nacional e cartão-de-visita para quem chega ao nosso país. As duas variáveis associadas têm um potencial fortíssimo que vai tendo também cada vez mais procura.

O público quer mais experiências, mais conhecimento do território e dos produtos associados e, nessa perspetiva, a Rota dos Vinhos Verdes é um bom roteiro para esses apreciadores e, obviamente, cumpre o propósito de promover a Região e os vinhos que cá se produzem.

 

Podemos falar um pouco das nossas castas? Loureiro, Alvarinho, blends... Somos uma Região em constante crescimento, com matéria-prima de qualidade? Num curto-médio prazo assistiremos a um impulso de determinada casta? Ou o maior impulso estará exatamente nos blends?

Muitas das castas produzidas na Região dos Vinhos Verdes são consideradas autóctones à custa da sua antiguidade na Região e pelo facto de terem surgido apenas no Noroeste Ibérico, o que é também um dos fatores que traduz com maior intensidade a especificidade do Vinho Verde.

Nas castas brancas temos o Alvarinho, o Arinto, o Avesso, o Azal, o Loureiro, a Trajadura e, nas tintas, o Espadeiro, o Padeiro e o Vinhão.

É incontornável referir o Alvarinho da sub-Região de Monção e Melgaço como produto estrela da Região, mas seria injusto não mencionar a crescente afirmação do Loureiro ou do Avesso. Falando de blends, é certo que os enólogos da nossa Região têm vindo a assumir cada vez mais essa tendência sem nunca descurar o potencial da monocasta.

 

Durante as reportagens que temos vindo a desenvolver, uma das questões que sobressaem é o preço médio. O preço médio é demasiado alto relativamente a outras regiões nacionais? Qual é a sua visão relativamente a esta questão?

O Vinho Verde conheceu, na última década, uma imensa evolução quer em volume quer em valor. Exportamos cada vez mais, temos um posicionamento cada vez mais valorizado pelo consumidor, pagamos a uva a um preço superior à maioria das Regiões, mas temos ainda muito que trabalhar no sentido de valorizar o Vinho Verde através do preço. Essa percepão de valor ainda não é totalmente clara para a maioria dos consumidores.

 

Temos pequenos produtores na nossa Região que fazem grandes vinhos. Como se apoiam esses produtores e os fazemos crescer?

A Região dos Vinhos Verdes é historicamente marcada por pequenas parcelas de produção onde cada viticultor dedica o máximo de empenho e investimento às suas uvas. Temos, de facto, pequenos produtores que fazem grandes vinhos - como, de resto, acredito que aconteça em todas as Regiões Demarcadas. O papel da Comissão de Viticultura é apoiar todos os produtores e, naturalmente, ajudar a impulsionar os projetos que ambicionem crescer e afirmar-se quer em território nacional quer nos mercados externos.

 

É verdade que o Vinho Alvarinho, após a nova lei que entrou em vigor em 2015, abrindo as fronteiras do Alvarinho a toda a Região e não apenas a Monção e Melgaço, aumentou as vendas e fez surgir novos projetos? Tem sido um crescimento sustentado?

O Vinho Verde Alvarinho é um produto sobejamente apreciado e cuja origem é, inegavelmente, a sub-Região de Monção e Melgaço, terroir de exceção para a produção desta casta. Contudo, a casta é também produzida noutros pontos da Região com bastante qualidade e, cumprindo os requisitos que a lei impõe, o alargamento da produção e rotulagem de Alvarinho a toda a Região foi pensado numa lógica de equilíbrio e de crescimento, como é óbvio.

 

Como presidente, acreditamos que haja sempre aspetos importantes a ter em conta. O Manuel já destacou anteriormente que quando assumiu o cargo tinha como principal preocupação a parte comercial e enológica. Hoje, que preocupações destacaria?

A Região mudou muito e, inevitavelmente, as preocupações beneficiam dessa mesma mutação. As preocupações atuais são mais serenas e alinhadas com o caminho consistente que temos vindo a percorrer. Mantêm-se as atenções à enologia e ao comércio com a mesma seriedade, mas acrescenta-se uma atenção redobrada à promoção, à evolução do Vinho Verde enquanto produto, mas também enquanto marca e enquanto experiência.

 

Aguarda um feedback positivo das colheitas deste ano?

Será um ano fabuloso em que prevemos aumentar a produção em cerca de 15%, apesar de termos começado a vindima mais cedo – em finais de agosto – devido às condições climatéricas. Foi um ano mais seco, mas nem por isso prejudicial. Esperamos, portanto, mais um ano de colheitas excecionais.

 

Quer deixar um convite aos não-apreciadores de Vinho Verde a experimentarem os vinhos da nossa Região?

O Vinho Verde é tão versátil e apresenta um perfil tão vasto - quer pelas castas, quer pelo trabalho fabuloso que os enólogos da nossa Região têm vindo a desenvolver - que acreditamos que qualquer apreciador de vinho seja capaz de encontrar um Vinho Verde que lhe agrade e que o surpreenda. 


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