Revista Rua

Etc. Especial | Theatro Circo

“O futuro do Theatro é agora”

Paulo Brandão aposta numa abordagem mais mainstream dentro de uma programação eclética e especialmente dedicada ao público do minho.

Luís Leite e Cátia Faísco

Texto: Luís Leite e Cátia Faísco |

Fotografia: Nuno Sampaio

Paulo Brandão aposta numa abordagem mais mainstream dentro de uma programação eclética e especialmente dedicada ao público do minho.

Luís Leite - Como é que vai funcionar o encerramento do centenário?

Vamos ter um espetáculo do João Paulo Santos, que se chama Abril. O João Paulo Santos é uma das figuras mais importantes do chamado novo circo, o nosso embaixador lá fora do mastro chinês. Resolvemos escolher um espetáculo do novo circo por ter essa carga simbólica. No dia 21 de abril, juntam-se vários imaginários. Um é precisamente um novo circo que é algo que nós vamos apostar em 2016 e 2017. Junta também a dança que é algo que nós vamos apostar ainda mais em 2017 e 2018. 

Durante os primeiros dez anos o circo foi uma grande influência no Theatro Circo. Com o aparecimento do cinema cada vez se foi afastando mais. Como as coisas mudaram imenso nós temos essa obrigação de juntar o entretenimento com um lado mais artístico, mais sério, não tanto entretenimento. Por isso se chama novo circo. 

A linguagem da performance no novo circo é uma linguagem que não é muito usual na programação do Theatro Circo, portanto vamos conquistando outras áreas e outras faixas de público. 

Luís Leite - O novo circo também traz um público que está mais ligado às artes performativas. 

Sim, também tentamos conquistar os diferentes públicos. Ir às várias franjas de público e por isso não era muito tradicional termos a dança. Estamos com dois ciclos de dança: a dança dança-se com os dois pés e a dança dança-se com a voz. Pretendemos continuar no próximo ano, com a mesma ideia de que a dança se dança com algo mais do que com o corpo. 

 

Luís Leite - Isso mostra que o Theatro Circo não está fechado numa programação. 

Não, nunca tivemos uma programação cíclica, tivemos sempre uma programação muito orgânica. Embora tenhamos alguns eventos que são absolutamente centrais na programação do Theatro Circo, estou-me a lembrar por exemplo do Semibreve, e do Festival para Gente Sentada que passou a ser feito em Braga. O Theatro Circo também tem uma programação muito orgânica, para também perceber como é que o público funciona. Por exemplo, trouxemos espetáculos de dança que não são tão habituais noutras estruturas. Tentamos fugir um pouco àquilo que é a oferta regular em termos de coreógrafos.

Cátia Faísco - Sinto que existe uma lacuna muito grande na parte do teatro e isso faz-me alguma confusão na abrangência artística que o Paulo demonstra ter nas outras vertentes. 

Sim, está certa, e eu posso arranjar uma explicação. É preciso não esquecer que nós temos uma companhia de teatro em Braga que é a companhia residente. Digamos que ocupa cerca de 70% da programação na área do teatro e sobra-nos muito pouco para oferecer.  Temos a obrigação, para com a companhia, de oferecer cerca de 90 espetáculos por ano, que são muitos espetáculos, e portanto isso também acaba por ser limitativo. Também acaba por ser uma forma do Theatro Circo apresentar a importância do teatro com todas as contingências que isso pode ter. Não sou responsável pela programação nem pelos nomes escolhidos.

Cátia Faísco - Mas parece-me um bocadinho distante o tipo de programação que o Paulo faz com a programação que fazem em relação ao teatro, porque estamos na vanguarda da dança e de outros tipos de espetáculos, depois reparamos que existe um pouco de retrocesso. 

No teatro as coisas são um pouco diferentes, essa é uma das razões. Outra das razões é o facto de nós estarmos perto de alguns centros urbanos, por exemplo o Porto, Guimarães e Vila Nova de Famalicão que acabam por cumprir essa função de ter áreas de teatro mais distintas. Não é uma preocupação nossa, não quer dizer que no futuro não possa surgir, mas estaria a ser injusto senão valorizasse alguma da programação que nós fizemos antes de 2015 e em 2015 também. Por exemplo com o teatro mosca, onde trouxemos vários espetáculos. 

Se repararem, eu praticamente não contrato companhias do Porto na área do teatro, porque não faz sentido. Trago de Lisboa ou de outros locais mais distantes. Estou a pensar no teatro bruto ou noutras companhias que trabalham no Porto, praticamente não as programo porque elas têm o seu lugar no Porto e quem gosta de teatro tem essa capacidade de se deslocar e ir ver fora. 

Luís Leite - Voltando agora um bocadinho ao centenário, este ano tiveram um problema no Tribunal de Contas, está resolvido?

Espero bem que sim. Em Março foi aprovado no âmbito do orçamento de estado, agora vai a especialidade e só depois é que passa para Diário da República.

Luís Leite - Como é que lida com essa situação?

No primeiro ano que tivemos essa notícia relativamente ao Tribunal de Contas ficámos apreensivos mas conseguimo-nos adaptar em relação àquilo que era possível e usamos todos os meios internos para conseguir clarificar as coisas com o Tribunal de Contas. Depois julgo que também foi importante o papel do presidente da Câmara, Ricardo Rio, no sentido de resolver a questão. O atual governo também teve sensibilidade para a questão. Quando acontece três anos seguidos há um risco das estruturas terem mesmo que encerrar, ou pelo menos terem que se adaptar ou serem absorvidas pela Câmara ou ser criada uma outra estrutura. O Theatro Circo nunca esteve em risco de encerrar. 

Luís Leite - Falando um bocadinho de si, como é que é programar uma casa repleta de acontecimentos, tem algum peso especial?

Não há só o peso dos 100 anos, não há só o peso do Theatro Circo, não há só o peso da cidade de Braga, há muitas coisas e no fundo aquilo que o diretor faz é ler isso e traduzir isso na programação que vai construindo. Claro que tentamos sempre fazer o nosso melhor e ir ao encontro daquilo que o público deseja.

Luís Leite - Entra nesta sala com 100 anos e pensa como será daqui a 100 anos?

Nisso não penso. O futuro do teatro é agora, pensar no futuro é pensar no agora, é tentar antecipar as coisas de alguma forma. Estive fora do dois ou três anos e o facto de ter estado afastado também permitiu, quando voltei, ter uma visão diferente da cidade de Braga.

 

Luís Leite - Está a dizer que não programa para si próprio?

Eu acho que isso antes poderia existir, mas hoje em dia é muito difícil. Então na área da música é impossível, porque entretanto houve um crescimento gigante de festivais que trazem nomes que toda a gente conhece ou que não se conhece e que depois se passa a conhecer. 

Luís Leite - Enquanto programador fala-se um bocadinho da autoria de programação. É mais difícil criar uma autoria?

A autoria é aquilo que nós vamos fazendo. Claro que o António Pinto Ribeiro, o Miguel Lobo Antunes, o José Bastos ou o Álvaro Silva, programam de forma diferente. Eu tenho a minha maneira de ver as coisas. Tento que ela se traduza e seja visível mas sempre com a camisola da casa. 

Luís Leite - Como é o público de Braga?

O que é interessente numa cidade como Braga é que há sempre público para conquistar. Primeiro porque existe uma população flutuante e nós temos que fazer chegar a nossa programação a essas pessoas.

Luís Leite - Quem é que não vem ao Theatro Circo?

Gostava de ter mais estudantes, seja da área da música, do cinema, teatro, estudantes em geral. Também de ter público que está mais afastado a nível geográfico. Seria preciso criar alternativas para que essas pessoas viessem cá. Trabalhamos muito com escolas. Gostava de fixar e ter esse público. 

Luís Leite - Aqui, no Theatro, qual foi o espetáculo que mais gostou de ver? 

Gostei muito do Benjamim, acho que foi um excelente espetáculo. 

Luís Leite - Como foi ver parte dos 100 anos expostos? 

Estas exposições foram importantes porque tentaram traduzir a ideia de um adiantamento ao que não existia. Ainda hoje descobrimos que existia mais uma foto, um cartoon, mais uma planta de um estudante de 1930. 

Luís Leite - Quando começou a perceber que gostava de arte, foi no cine teatro Augusto Correia. 

Sim, sim. 

Luís Leite - O que significou esse teatro para si

Gosto muito de cinema e foi precisamente no Augusto Correia que eu adquiri esse gosto, pelos atores, que ainda tenho, e continuarei a ter. Em termos pessoais, eu acho que é mais importante ser público do que ser artista. Um artista tem uma vida sempre muito limitada, está focado no seu trabalho. Ser público ou ser programador é um privilégio grande porque temos uma imensidão de pessoas, de gente criativa, e vamos construindo o nosso saber ao longo daquilo que vamos vendo e esse constructo mental é muito importante. 

Luís Leite - Estive a ver uma entrevista sua e falava que era um espetador invertido. 

Às vezes pervertido também, depende. É como se eu me colocasse no lugar do coreógrafo nesse sentido. No fundo acabo por ser criador por simpatia, porque admiro o trabalho do artista, gosto do trabalho dele, ou porque me identifico com o trabalho dele e isso acontece com os livros que lemos e com os filmes que vemos.

 

 


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