Revista Rua

Saber. Entrevista

“Sonho voltar a dar vida a todo este complexo”

Dedicou a sua vida às causas sociais e, aos 82 anos, Bernardo Reis ainda sonha. Vila Galé Braga vai reabilitar complexo do antigo hospital de São Marcos, desocupado desde 2011.

Luís Leite

Texto: Luís Leite |

Bernardo reis, Provedor da Santa Casa da Misericórdia, diz que deseja dar vida a todo o complexo do antigo Hospital de São Marcos. Depois da regeneração do Palácio do Raio será a vez de nascer o Hotel Vila Galé Braga.

 

 

Há cerca de um ano, o Palácio do Raio — um dos edifícios mais emblemáticos desenhados pelo arquitecto André Soares — foi devolvido à cidade bracarense pela Santa Casa da Misericórdia tendo até recebido o Prémio Nacional de Reabilitação Urbana. Com um investimento superior a 6 milhões de euros, irá nascer uma nova unidade hoteleira que criará 40 postos de trabalho. Conversámos com Bernardo Reis, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Braga (SCMB), sobre o futuro, a solidariedade e os seus sonhos.

Inaugurado há cerca de um ano, o Palácio do Raio é hoje motivo de orgulho para a Santa Casa da Misericórdia de Braga?
 
O Palácio do Raio e o Centro Interpretativo das Memórias das Misericórdias de Braga tem sido uma referência e tem tido uma série de actividades e uma apetência para ser visitada. A entrada é gratuita até atingirmos o objectivo de 47.000 visitantes em 5 anos e desde 28 de Dezembro de 2015 já temos 28.000 visitantes.
 
O Palácio do Raio estava integrado dentro do Hospital de São Marcos, o qual foi fundado pelo Arcebispo e Senhor de Braga D. Diogo de Sousa em 1508 e foi administrado pela Câmara Municipal entre 1508 e 1559. A partir de 1559, o Beato Bartolomeu dos Mártires entregou a administração do hospital à Santa Casa da Misericórdia de Braga, a qual a administrou até 1974. Em 1974/75 foi intervencionado pelo Estado como consequência do movimento de Abril passando a ser administrado pelo Ministério da Saúde. Em 31 de maio de 2011 os serviços hospitalares de São Marcos foram transferidos para o novo Hospital Distrital de Braga, numa parceria público-privada, deixando a Misericórdia de receber rendas deste complexo, pois ficou completamente desocupado. A saída do Hospital de Braga das instalações da Misericórdia para novas instalações gerou um problema grave: a instituição precisou de encontrar solução para os 6 edifícios que constituem o complexo edificado do Hospital de São Marcos, cuja área construtiva é de 47.177 m2, em cerca de 16.000 m2 de área. Uma das primeiras unidades que conseguimos recuperar foi o Palácio do Raio que estava também integrado dentro do complexo hospitalar de São Marcos. As obras começaram em 2015 e o Palácio do Raio foi inaugurado a 28 de Dezembro de 2015 pelo então ministro da Cultura, João Soares. O Palácio do Raio é um edifício emblemático dentro do barroco rococó, quer na fachada, que é considerada monumento imóvel de interesse público, assim como a escadaria, e enquadra-se dentro de um conjunto de edifícios em Braga do grande arquitecto bracarense André Soares.
 

O Palácio do Raio venceu o Prémio SOS Azulejo e também o Prémio Nacional de Reabilitação Urbana…

Ficámos realmente satisfeitos. Primeiro, o Prémio SOS Azulejo é instituido pela Polícia Judiciária (que tem um serviço para controle dos azulejos a nível nacional), o que significa que este Palácio tem características muito especiais ligadas ao período barroco. Em relação à reabilitação, isto estava num estado absolutamente caótico, o Estado entregou isto num estado absolutamente caótico. Recuperámos tudo que havia para recuperar, desde o azulejo, os tetos, o escaiolado… recuperámos tudo o que era possível e na sequência disso foi-nos atribuído o Prémio Nacional de Reabilitação Urbana que recebemos na Sala D. Luís do Palácio da Ajuda.

A Santa Casa da Misericórdia de Braga e o Grupo Vila Galé apresentaram o projeto de um novo hotel que vai surgir no complexo do antigo hospital de S. Marcos…

O hotel resultará do aproveitamento de três edifícios do antigo complexo hospitalar, nomeadamente o edifício onde está a Igreja de S. Marcos e a Farmácia, o bloco de Pediatria e o do Centro de Reabilitação Ortopédica.

No pavilhão sul, por trás do bloco operatório, cujo projeto está concluído e aprovado pela Câmara de Braga, há um projecto direcionado para a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados. Também vamos utilizá-lo para centralizar as nossas cozinhas no sentido de criar sinergias e reduzir despesas. Vamos também reservar dois andares dirigidos para as demências. Estamos à espera de ter fundos para lhe dar seguimento, uma vez que o investimento é relativamente avultado, na ordem dos seis/sete milhões. Fica-nos apenas o antigo Bloco Operatório que se encontra também em negociações. Embora não tenha surgido nenhuma proposta concreta temos alguns contactos para um eventual aluguer.

O edifício do antigo Hospital S. Marcos irá sofrer alterações ou há a preocupação de manter uma reabilitação responsável?

O edifício voltado para o Largo Carlos Amarante tem de se conservar quer por dentro quer por fora, os outros não. Primeiro, os edifícios já não estão adequados às novas directivas de segurança. As fachadas não podemos mexer mas no interior terá de se fazer o necessário.

Já referiu que considera a reabilitação dos centros urbanos “um imperativo moral e ético”. Porquê?

Durante seis anos, entre 2010 e 2015, a minha responsabilidade na Direção Nacional da União das Misericórdias era precisamente o Património Cultural. Eu dava apoio à reabilitação do património a nível nacional e sempre gostei imenso da regeneração e da recuperação. Eu acho que se construiu excessivamente, principalmente aqui na cidade de Braga, construção de prédios em excesso, poucas zonas verdes. Por outro lado, devia-se pensar em regenerar os edifícios do centro histórico. Não só as fachadas mas também o interior. Inclusivé ceder rendas para trazer jovens e jovens empreendedores para o centro para desenvolver o comércio local conservador. Porque o que está a acontecer? Está tudo a correr para os centros comerciais e o comércio tradicional está a ser descaracterizado. Eu acho que o doutor Ricardo Rio [Presidente da Câmara de Braga] está a seguir uma boa política em relação à regeneração e pelo que tenho visto, a vida no centro histórico tem aumentado substancialmente.

Quais são os desafios mais difíceis que lhe são colocados pelo tempo presente na gestão da Misericórdia?

Temos actividades que são grandes e temos de procurar receitas uma vez que as receitas que recebemos do Estado são na ordem dos 30%. Nós acolhemos dentro das 14 obras da Misericórdia pessoas com fracos recursos financeiros e temos de procurar receitas. A Farmácia da Misericórdia, que é hoje considerada uma das melhores farmácias de Braga, é um dos pontos que mais nos está a ajudar para conseguir suportar as despesas.

Como sabe, a maior actividade da SCMB era na área da Saúde com o Hospital de São Marcos, que entretanto foi intervencionado pelo Estado. A partir daí tivemos de construir outra vez e partimos para o apoio às crianças e aos idosos. Actualmente, a Santa Casa tem uma grande actividade com 3 lares, o centro de dia e o apoio domiciliário, tem ainda 2 creches e também 2 cantinas sociais. Em parceria com Câmara de Braga, Santo Adrião e a Cáritas temos o Eixo 3, 1 GIP (Gabinete de Inserção Profissional), um SAS (Serviço de Acção Social). Ainda temos duas igrejas com missas diárias e em todos os lares temos as capelas. Na parte cultural temos uma revista anual, promovemos exposições, conferências, concertos e criamos também um grupo coral. A SCMB integra as Solenidades da Quaresma e da Semana Santa e organiza a procissão do Senhor “Ecce Homo” que é de nossa inteira responsabilidade. A Semana Santa atingiu um grande prestígio e é muito importante para nós. Calcula-se que nesses dias venham à cidade cerca de 150.000 pessoas. Estamos a trabalhar no intuito de fazer uma candidatura a Património Imaterial da Unesco.

Por outro lado, a Santa Casa, devido à sua projecção na cidade, faz parte do Conselho de Desenvolvimento e Sustentabilidade do Hospital Distrital de Braga, faz parte do Conselho Cultural da Câmara da Cidade de Braga, faz parte do Conselho de Reabilitação e Regeneração da Câmara Municipal de Braga, faz parte do Conselho Domus Fraternitas.

O doutor Bernardo tem 82 anos e dedicou toda a sua vida às questões sociais.

Sim. Primeiro de tudo fui um dos primeiros hidrogeólogos portugueses. Trabalhei entre 58/60 no ministério que se chamava das Obras Públicas, na divisão da urbanização e saneamento. Eu estava instalado no Porto e dava apoio a todas as câmaras do norte na pesquisa e captação de água. A partir de março de 1960 parti para Angola onde fui trabalhar na área de [prospecção de] diamantes. Mantive-me em Angola até 3 de dezembro de 1977,  a trabalhar na Companhia de Diamantes de Angola, tendo sido o último director geral e administrador da Companhia de Angola. Depois regressei a Portugal, e como remanescente da Companhia de Angola foi intervencionado pelo Estado. Depois formou-se a Sociedade Portuguesa de Empreendimentos S.A, em Lisboa, da qual passei a fazer parte, e trabalhei lá até 2003.

Mas tem uma particularidade na minha vida. Fui presidente da Juventude Católica do Liceu, fiz parte do Orfeão, fiz parte das direções da congregação de S. Luís, fiz parte da Associação Académica de Coimbra e da Assembleia Magna com o professor Mota Pinto. No exterior de Portugal, sempre trabalhei junto das missões católicas, dando-lhes bastante apoio uma vez que a companhia tinha bastantes possibilidades financeiras. Sempre gostei de trabalhar na área social. E noutros sítios onde passei, quer na Venezuela,  quer na Colômbia e em diversos países de África tive sempre a particularidade de me dedicar à área social. Quando me reformei, podia ter seguido a área da consultadoria, ganhando muito dinheiro na área dos diamantes, mas optei pela área social onde estou a trabalhar desde 1999 sem qualquer remuneração. Estive à frente  do conselho fiscal da Cooperativa de Barcelos, que é a maior cooperativa a nível nacional, durante 9 anos. Trabalhei no Projecto Homem, nos invisuais da Póvoa de Lanhoso, na APPACDM…

O que o motiva a estar ligado à área social, desde sempre?

Talvez porque a minha família… Todos os irmãos do lado da minha mãe eram famílias muito numerosas e isso levou-me a trabalhar, a pensar e ajudar muito os outros. Eu entendo que o melhor que pode ter uma empresa são os recursos humanos. Por outro lado, defendo a filosofia de que uma empresa — como faz a Primavera aqui em Braga — tem de ter um carácter social. Como trabalhei grande parte da minha vida com ingleses sou de uma forma geral muito pragmático. Por isso, tenho uma grande apetência por realizar. Tenho 82 anos e ainda trabalho 8 a 10 horas por dia e sinto-me feliz. Portanto, é o espírito de uma família grande em que temos de nos inter-ajudar. É uma maneira de ser minha, ponho em primeiro lugar o Ser Humano e o que posso fazer pelos outros.

Aos 82 anos, que outros sonhos ainda tem?

O meu sonho era terminar a minha vida na Misericórdia. Mas só irei ficar aqui enquanto sentir que estou bem e em condições intelectuais e físicas capazes. Sonho voltar a dar vida a todo este complexo. Quando sair quero deixar isto completamente com vida, isto é um sonho meu que é muito importante. Por outro lado, sonho que as Misericórdias, a nível  nacional, continuem a fazer aquele trabalho que têm feito porque se não fossem as Misericórdias, as IPSS e as Mutualistas, Portugal teria passado por momento muito difíceis. Também tenho outro sonho, gostaria que alguns hospitais das Misericórdias voltassem às Misericórdias porque trabalham melhor com humanismo e solidariedade e a um valor muito mais baixo que o sector público. Como sabe, há já três que regressaram, que é Fafe, Mealhada e Serpa.

    Se tivesse tempo — como tenho uma experiência de vida muito grande a nível mundial — gostaria de deixar as minhas memórias. Não por vaidade mas porque são memórias muito importantes que se passaram na minha vida, quer de natureza social, quer de natureza empresarial. Porque há factos muito importantes que se passaram em Angola e que podem contribuir para a história de Angola e também de Portugal pós independência. Não deixarei de me dedicar ao próximo, com todo o carinho, com todo o amor, que sempre foi um meu lema. Mas servir e não servir-se.

O que espera de 2017?

Espero que Portugal venha a ter um crescimento económico e principalmente na área empresarial um crescimento com sustentabilidade. Ao mesmo tempo o empreendedorismo aumenta, também gostaria que aumentasse o emprego. Muitas vezes, diz-se que as pessoas fogem de Portugal. Eu também fui obrigado a sair de Portugal em 1960. Não é fugir, é procurar melhor. É natural que depois também voltem. Então, gostaria que muitas das pessoas que estão lá fora, com grande capacidade, voltassem a Portugal e seria uma mais valia para o país. Temos hoje potencialidades enormes. As nossas comunidades espalhadas por todos os cantos do mundo são referências. Gostaria que houvesse dentro da área social um maior apoio do Governo, tendo em atenção que as Misericórdias não são empresas. Por outro lado, é necessário que as instituições de solidariedade tenham empresas de economia social para gerar recursos que vão permitir dar assistência às pessoas que não têm dinheiro.


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