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:Papercutz

“Acho que os :papercutz são um produto da globalização”

Miguel Estima

Texto: Miguel Estima |

:PAPERCUTZ é uma banda de pop eletrónica da cidade do Porto, formada e liderada por Bruno Miguel. Numa viagem pelo percurso da banda, antevendo o concerto de dia 7 de dezembro, no Cave Avenida, em Viana do Castelo, a RUA esteve à conversa com Bruno Miguel, conhecendo um pouco da essência deste projeto. 

Fotografia: Maria Louceiro e Miguel Estima

Como começou o projeto :papercutz?

O projeto começou como um trabalho a solo de música eletrónica instrumental em paralelo com uma banda em que participava, de nome Oxygen, e que chegou a editar um álbum, uma aprendizagem que se veio a realizar importante porque todo o processo de estúdio passou pelas minhas mãos. Queria explorar outro tipo de sonoridades e fugir de arranjos criados para serem tocados numa formação, tipicamente associados a um grupo, embora eventualmente voltei ao formato canção porque é um lugar que me é querido. Com o tempo, o projeto :papercutz evoluiu de forma a incluir a participação de outros músicos e comecei a encará-lo como a minha principal atividade, sobretudo nos últimos anos.

 

Como apareceu o Lylac? Foi um processo normal até à chegada do primeiro álbum?

Lembro-me que um dos primeiros projetos que fiz, e que me deu alguma confiança para começar um trabalho a solo, foi um CD multimédia para os Maus Hábitos, um espaço cultural do Porto. O processo passou pelo uso do computador na gravação, síntese áudio e de trechos de pequenas gravações acústicas e acabou por definir o arranque da escrita dos primeiros temas originais que eventualmente dariam origem a Lylac. Não foi normal de todo, como disse, já tinha experienciado um processo típico de criação de um álbum, com as gravações de cada músico, do papel da mistura e produção, e na altura descartei totalmente esses princípios. Não tinha esses meios, o que acabou por se tornar interessante pois tive que me colocar no papel de cada um desses intervenientes. Engraçado porque o tema do álbum acaba por se inspirar nas condições em que ele é criado e vice-versa, daí muitos críticos, na altura, o terem apelidado de Bedroom Electronica (eletrónica de quarto) pelo seu grau de intimidade.

 

Na promoção de Lylac tocaram mais “lá fora” com apresentações nos EUA e na Europa. Sentem que o mercado português ainda está de ouvido duro?

Tudo aconteceu de uma forma bastante orgânica, não foi de todo pensado. Fazia sentido porque a editora do álbum era do Canadá e logo um dos primeiros concertos foi em Londres. Segui essa deixa porque senti mais interesse vindo de fora. Tenho todo o interesse em chegar a ainda mais pessoas que possam se interessar por nós cá, também, claro. Mas, na altura, a música eletrónica não era muito representativa do que as pessoas podiam ouvir nas rádios nacionais. Talvez isso esteja a mudar aos poucos, mas sempre estivemos um pouco atrasados em relação ao que nos chega do exterior. Acho que os :papercutz são um produto da globalização e esse é o verdadeiro desafio que se apresenta à nossa frente. É um caminho que penso, mais cedo ou mais tarde, quase todas as áreas artísticas, e não só, terão que enfrentar: chegar a possíveis interessados onde quer que eles estejam.

 

Em 2012 surge o segundo álbum The Blur Between Us, fruto de inspiração nova-iorquina. Como aconteceu a colaboração com o produtor Chris Coady?

Tanto o Porto como uma parte de Nova Iorque partilham visuais sombrios que sempre apreciei. O álbum vive do imaginário de ambas cidades porque, na realidade, foi gravado no Porto, mas misturado e produzido em Nova Iorque pelo Chris e por mim, num processo que durou alguns meses. Nunca fui uma pessoa de networking, mas quando tocámos no South By Southwest conheci alguém ligado à indústria da música que gostou muito do concerto e pediu para ouvir uma demo. Disse que se precisasse de trabalhar com algumas pessoas em Nova Iorque nos colocaria em contacto, tendo em conta o potencial do que ouviu. Quando voltei a casa e enquadrei a possibilidade de trabalhar com um produtor externo, a Susana Maia, que divide o management do grupo comigo, mencionou o Chris porque se adequava à sonoridade do álbum, mas nunca pensei que ele fosse estar interessado. Felizmente estava errado porque a demo chegou às mãos dele através do conhecido em comum e, passados uns meses, estávamos em estúdio. Felizmente tivemos apoio de editoras para concretizar essa possibilidade porque acreditaram que ele era a pessoa ideal, e penso que o álbum mostra isso.

 

Esse álbum elevou o vosso projeto a outro patamar, tendo sido apresentado em vários festivais nacionais em 2013. Como foi a aceitação do público?

Sim, em Portugal conseguimos chegar a um público que não nos conhecia antes e sendo que o lado intimista e de eletrónica de "quarto" do Lylac dá lugar a um som mais expansivo, mais negro, que precisa de algum tempo para ser digerido, penso que conseguimos furar algumas barreiras.

 

Houve uma pausa e também uma mudança de vocalista tendo agora a Catarina Miranda assumido a parte vocal. De que modo isso influenciou o processo de criação deste novo disco?

Ao trabalhar com a Catarina ao vivo consegui perceber a facilidade natural que ela tem em criar momentos harmónicos etéreos e, em estúdio, configurei a ideia de que ela se pudesse multiplicar entre o papel de uma cantora a solo e texturas corais, que são um elemento predominante no álbum e representam o sentido de superação que atravessa as letras. Nem sempre é claro, nem pretende ser porque muitas vezes a voz está processada ao ponto de ser tratada com se fosse um instrumento eletrónico, mas a inspiração parte de gravações de cantos tradicionais que fomos descobrindo e cujo contexto espelha esse sentimento.

Foram convidados para integrar a comitiva que foi ao Eurosonic no início deste ano. Essa participação num evento internacional dessa grandeza muda a forma como a banda se apresenta futuramente no mercado artístico quando regressa a Portugal?

O evento foi importante porque foi a primeira vez que apresentámos alguns dos novos temas ao vivo e serviu para perceber que nem todos (gravámos bastante em estúdio) comunicam aquilo que pretendemos do álbum. Aliás, temos usado os concertos precisamente para perceber isso. Invertemos o que até aqui fizemos: começamos por tocar os temas ao vivo e só depois criamos uma seleção do alinhamento final e tem sido uma experiência gratificante porque é, de certa forma, uma nova aprendizagem.  No nosso caso, os concertos estão cada vez mais ligados ao álbum, pretendemos uma transição que possa mostrar ao público a intenção que temos em estúdio, algo que, por exemplo, no Lylac não acontecia de todo. Aliás, nunca foi pensado para ser tocado ao vivo, ao contrário de King Ruiner.

 

O terceiro disco King Ruiner está prestes a sair e até já foi apresentado em alguns palcos nacionais. Como tem sido este novo formato de apresentação ao vivo?

É um concerto bastante dinâmico, um pouco como o álbum, com momentos mais calmos e outros de uma total euforia, de acordo com o estado de espírito que a personagem principal do álbum atravessa, mas tentamos sempre nos ensaios gerais criar um alinhamento que respeite o espaço em que tocamos. Não faz sentido apresentar um formato num teatro igual a um clube e temos tido a sorte em tocar em ambos porque os programadores percebem que temos o potencial para tal. Apesar de sermos um grupo de música eletrónica, tentamos incluir elementos ao vivo que tornam cada concerto uma performance única. E sendo que o trabalho de estúdio é ainda muito meu, a Catarina revela-se um elemento chave ao vivo, aliás diria que ela é a face de :papercutz nestes concertos e é admirável a forma como ela se alimenta e se molda ao espaço em que tocamos.

 

O que podemos esperar deste concerto em Viana do Castelo?

A nossa visita em Viana divide-se em duas fases. Em primeiro lugar, vamos participar num concerto com Ermo. Gostamos muito do seu novo trabalho e é um prazer sermos convidados para fazer parte da apresentação do seu novo álbum. A nossa ideia é tentar sintetizar o alinhamento que temos vindo a apresentar durante o ano, num discurso bastante direto e energético. Penso que o espaço em que vamos tocar, o Cave Avenida, assim o promove e temos essa capacidade de nos transformarmos. Durante a madrugada, após o concerto, rumo ao clube Centro Histórico e vou apresentar em formato alargado um DJ Set com algumas das influências do mais recente trabalho, aquelas que se adequam a uma celebração numa pista de dança. Existe muita boa música eletrónica a ser feita um pouco por todo o mundo, por novos produtores que se inspiram nas suas raízes familiares. Temos isso em Portugal, por exemplo, através da Príncipe Discos, cujo catálogo faz parte dessa seleção.

 

Como imaginam o futuro da banda? O que podemos aguardar de :papercutz?

O futuro passa sobretudo por concertos e queremos criar várias experiências tendo em conta os palcos que pisamos. Por exemplo, em algumas datas contamos com um baterista/percussionista, o André Coelho, que adiciona uma nova dimensão ao concerto. A ideia será revisitar todo o nosso trabalho, recriando alguns arranjos, criando um concerto consistente, porque os álbuns partilham, de uma forma propositada, uma narrativa e elementos instrumentais, e que este possa ilustrar um pouco do que temos feito ao longo destes anos.


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