Revista Rua

Viver. Cozinhar

A Cozinha por António Loureiro

Uma explosão de sabores, num ambiente tradicional

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Fotografia: ©Nuno Sampaio

Com a aura especial de Guimarães a conduzir-nos ao tranquilo número 4 do Largo do Serralho, no coração da cidade berço, chegamos a um recanto tradicional - com uma pitada de inovação -, que faz da experiência gastronómica um convite à descoberta do nosso próprio paladar minhoto. A Cozinha é um projeto do reconhecido chef vimaranense António Loureiro. Com um curriculum vasto, onde se destacam as experiências profissionais nos consagrados Belcanto, The Kitchin ou Azurmendi, António Loureiro voltou às suas origens, criando um conceito que alia a cozinha tradicional nortenha com o toque de inovação que as influências contemporâneas lhe garantem. O resultado? Uma explosão de sabores e aromas, num autêntico laboratório criativo. “O nosso objetivo é levar a gastronomia às pessoas de uma forma leve, divertida, criativa e moderna. Mas o sabor e as ligações às raízes tradicionais estão cá com vários apontamentos”, afirma o chef, explicando-nos que o menu d’A Cozinha é uma aposta nos produtos locais.

Com uma decoração minimalista, deixando todo o esplendor do menu brilhar por si mesmo quando chega à mesa, esta casa conta com uma sala de 28 lugares (e uma sala reservada com dez lugares no piso superior) com uma vista privilegiada para a cozinha, vista essa meramente esbatida pela apetrechada garrafeira que exibe a oferta de vinhos d’A Cozinha, repleta de sugestões portuguesas, principalmente Vinhos Verdes e do Douro. Convém não esquecermos a esplanada, onde é visível a horta vertical de onde são colhidas as ervas aromáticas que compõem as iguarias da casa, inspiradas em todas as vivências do chef.

Com um forte cunho sustentável, visível pelo selo Green Key que nos cumprimenta à entrada do restaurante, numa política rígida que evita os desperdícios, A Cozinha é um conceito, acima de tudo, inovador na cidade de Guimarães, destacando-se das casas tradicionais presentes nas principais praças do centro histórico. “A alma desta casa é mesmo a cozinha”, diz-nos António Loureiro, enquanto o vemos pacientemente a decorar um dos pratos que fazem parte do menu, sempre sazonal, respeitando a periodicidade dos produtos e revelando as dinâmicas possíveis da cozinha do Norte de Portugal. “Como nós sabemos, a cozinha tradicional portuguesa é muito boa, mas também muito pesada. Tem muita proteína, hidratos de carbono, gordura, sal, temperos. Nós aqui tentamos oferecer uma gastronomia assente no receituário tradicional, mas de uma forma mais equilibrada e contemporânea”, descreve o chef, referindo ainda os benefícios da proximidade ao mar e à montanha, permitindo uma vasta carta gastronómica.

E, falando nesta carta diversa, vamos às sugestões do chef! Começamos com um Mergulho no Mar, uma sugestão que potencia o sabor do marisco numa época que, ao contrário do que a maioria possa pensar, está no pico do seu sabor nestes meses frios. Seguimos com uma Garoupa com vegetais, cogumelos da época, trompetas amarelas da região da Serra da Cabreira e outras plantas provenientes da horta da casa: salva-ananás e rebentos de ervilha. Numa sugestão de carne, o Lombo de Porco Ibérico, tenro e suculento graças a ter sido confitado a baixa temperatura, corado com azeite, alho e ervas aromáticas, acompanhado por puré de aipo, trufa e um molho feito à base dos ossos e das aparras da carne é a estrela deste menu. Para terminar, uma sobremesa que é uma homenagem às Tortas de Guimarães, um doce conventual. À base de chila, esta sobremesa é harmonizada com gelado de framboesa e inclui uma sopa de morangos. Com acompanhamento de pistácio e crumble de amêndoa, cremoso, esta sobremesa é apenas uma das propostas d’A Cozinha que lhe trará água à boca.

A quem ainda não conhece est’A Cozinha, que apesar de privilegiar o funcionamento por reserva, recebe de braços abertos quem surge sem avisar, o chef assume, em jeito bem-humorado: “não sabem o que estão a perder!”. “Gosto de receber vimaranenses porque eu também sou de Guimarães e, por isso, decidi investir cá, para poder dar a nossa gastronomia aos vimaranenses. Era um prazer para mim recebê-los a todos”, refere, aproveitando para dizer-nos que, apesar desta ligação próxima à terra onde nasceu, o lema do restaurante é “De Guimarães para o mundo”, enaltecendo o típico paladar minhoto além-fronteiras. Pelo aroma que emana da cozinha, nós podemos confirmar: estamos numa casa portuguesa, com certeza, mas numa janela aberta ao mundo. Que tal aventurar-se nesta viagem?


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