Revista Rua

Observar. Região

A alma de Viana

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Em cada esquina há forasteiros. Olhares que discretamente fitam as belas moças, requintadamente aperaltadas como manda a tradição. São aos milhares aqueles que rumam a Viana do Castelo nos dias 17, 18, 19 e 20 de agosto para sentir a alma de uma gente que não esmorece. Nem pelo calor que o traje carrega, nem pelo peso dos bombos que ecoam por toda a cidade. Viana, em tempos de romaria, é rainha minhota vestida de ouro. Mas, por muito que o ouro reluza e ofusque os visitantes, é no mar que está a graça. É no mar que está a Agonia que os vianenses celebram como agradecimento de um ano de trabalho duro de pesca. Uma Agonia que é nome santo e padroeiro, para quem os pescadores olham nas horas de aflição. A romaria em honra de Nossa Senhora da Agonia vangloria Viana no seu esplendor, envolvendo todas as freguesias do concelho numa autêntica saga de desfiles, cortejos etnográficos e procissões solenes. 

 

Nos belos jardins da Casa do Ameal, uma casa minhota dos finais do século XVII que hoje funciona como refúgio de turismo rural, Sandra Costa, Sara Carvalhido e Matilde Sobreiro posam para a nossa fotografia. O calor daquela tarde de julho era intenso, mas, segundo elas, nada comparado com as altas temperaturas que as acompanham no dia do Desfile da Mordomia, na manhã de 18 de agosto. “É um amor muito grande à tradição. Está-nos no sangue”, explica-nos Sandra, a mais velha das três, envergando um traje de dó da freguesia de Meadela, com tons azulados, amarelos e verdes. Com o ouro da família a avivar o peito de cada uma das jovens, com uma minúcia de pormenor que respeita a herança dos antepassados, as três vianenses são rosto de uma tradição que conta séculos de história. Com elas está Inês Parente, vestida com o traje de noiva, ricamente ornamentado, com o véu rendado e o ramo amparado pelo lenço bordado à mão. É nela que Laurinda Figueiras, a nossa anfitriã principal, se concentra. Tudo tem de estar no seu devido lugar, o ouro tem de estar minuciosamente alinhado e nunca com nenhuma peça virado ao contrário. Laurinda é senhora da ronda, é inspiração de juventude e atenção de profissional. O respeito pela Romaria da Senhora d’Agonia é comum a quem nasce naquelas terras, por muito que a zona ribeirinha se sobressaia no louvor, vendo os barcos que a galgam encher-se em dia de Procissão ao Mar (dia 20 de agosto, ao início da tarde). Contudo, os trajes típicos de Viana carregam a alma de um povo que vê em cada bordado uma simbologia diferente. Das lavradeiras às varinas, passando pelas mordomas, a ‘chieira’ (ou vaidade) invade as principais artérias da cidade, evidenciando uma pomposidade já reconhecida além-fronteiras. Mera curiosidade: numa das últimas contagens feitas pela organização do Desfile da Mordomia, o ouro carregado ao peito pelas cerca de 400 mulheres alcançava um valor estimado de 14 milhões de euros. Mas, como quem gosta vai e quem ama fica, Viana não vive só de elegância dourada. Vamos aos sons!

[ Fotografia: Jaime Pereira ]

A alvorada acorda a Praça da República sempre às 8h30, espalhando o som por todas as ruas da cidade até alcançar a ribeira. São grupos de bombos e tarolas com incansáveis tocadores que despertam o orgulho vianense entre suor e lágrimas. Suor de quem, com perseverança, espanca – literalmente – o bombo; lágrimas de quem, entre todas as adversidades da vida, chegou ao momento em que pode ouvir, uma vez mais, o som das suas raízes. O ruído pode ser ensurdecedor, principalmente quando, ao meio-dia, o ritmo ganha mais poder, seja pela batida mais forte que resulta do despique entre grupos, seja pelos doze morteiros que parecem chamar à ação os Cabeçudos e Gigantones. O secular chafariz da praça é o ponto de encontro para alguns minutos de festa, instigada pelas reações efusivas dos presentes, que aumentam a rivalidade entre grupos de Zés Pereiras. “Dá-lhe!”, costuma ouvir-se, quase como sinal desajeitado para que a festa não pare. Mais uma curiosidade? A revista de Gigantones e Cabeçudos pode juntar mais de 200 tocadores e duas dezenas de figuras na praça. No auge do despique, um tocador de bombo pode perder entre 800 a mil calorias, sendo que um bombo grande pode pesar 12 quilos. Entre as pancadas, lá se ouvem as concertinas e uma ou outra gaita de foles. É esta a banda sonora em dias de romaria. Melodias que todo o Minho reconhece e respeita, desde tempos que já lá vão. E por falar no passado, o cortejo histórico e etnográfico, na tarde de 19 de agosto, é uma das melhores formas de conhecer Viana e a sua herança.

[ Fotografia: Vitor Roriz ]

Mas, se a história é a herança que nos ficou, a fé é a vontade que nos move. Na noite de 19 para 20 de agosto, as ruas que cumprimentam a ribeira, ali ao pé do rio Lima, enchem-se de vida. Sem rivalidades ou competições desleais, os moradores juntam-se para decorar a calçada com elementos de maresia, do sal às redes dos pescadores, desenhando verdadeiras obras de arte que serão contempladas pela manhã e apenas pisadas no momento da passagem da santa, durante a procissão que pode durar várias horas, já que esta procissão é de mar e de terra. “Cada rua tem uma ideia, que constroem em comunidade. Tem também alguns ajudantes, para além dos moradores, porque aquilo é cansativo. Cria-se o desenho e ninguém copia. Se o sal de uma rua acabar, vai pedir-se mais à outra, sem problemas. Não há competição nem rivalidades. É tudo feito para agradar à santa. Senão, a santa começa a fazer bem a uns e mal a outros”, conta-nos Adão de Castro “Gordinho”, um pescador reformado, sempre bem-disposto, mesmo que o brilho do seu olhar desvaneça um pouco quando lhe perguntamos sobre a sua vida de pescador. “Uma vida terrível, que eu não desejo a ninguém. Os meus filhos já nem foram pescadores porque eu quis que eles estudassem. Eu não tive essa opção. O meu pai era pescador, o meu avô era pescador. A vida foi dura para mim, mas não vai ser dura para os meus filhos. Era um ano inteiro de sustos. As pessoas que estão em casa a dormir não imaginam aquilo que um pescador passa. Às vezes para não ganharmos um tostão! Felizmente, de 50 anos que tive de mar, desenrasquei-me sempre. Tive os meus perigos, mas ver a morte à frente dos olhos nunca”, recorda Adão, relembrando os tempos em que era o mestre da embarcação Eva Maria e acompanhava a santa no percurso pelo mar. “Sou um homem puro da ribeira. Nos meus tempos áureos, no dia da procissão, cheguei a levar 110 pessoas num barco pequenino, de 12 metros. Era um risco terrível, as pessoas pareciam malucas ao quererem atirar-se para dentro do barco para acompanhar a procissão e chegar mais perto da santa. Hoje já é diferente. Já existem gradeamentos, é necessária uma licença para as pessoas irem. Há sete anos, era tudo à balda”, relata Adão, enquanto ajuda a esposa que ainda se dedica à venda do peixe.

Na verdade, a afluência de visitantes por altura de Procissão ao Mar, um dos indiscutíveis pontos altos das tradições em honra da Senhora da Agonia, não desfazendo as celebrações solenes eucarísticas ou a festa do traje, é de bradar aos céus pedindo proteção. O sentimento de devoção é difícil de ser colocado em palavras, mas a romaria traz a vida do mar às gentes e leva as gentes a olhar para o mar. “Ó Senhora da Agonia, do cimo do teu altar, olhai pelos pescadores, não os deixes naufragar...” Entre a incerteza do que o futuro trará e do que o mar levará, o pensamento é só um: havemos de ir a Viana! 

[ Fotografia: Jaime Pereira ]


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