Revista Rua

Saber. Reportagem

A minha máscara é melhor que a tua!

Os foliões chegam de todo o lado, vestidos com toda a pompa e circunstância que a noite exige. No corpo trazem o disfarce e toda a vontade de dançar até ao dia raiar.

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

À medida que as horas vão passando e a noite cai, Famalicão vai vendo as suas ruas ganharem cor, seja pelas luzes intermitentes montadas nas árvores que costumam sombrear a entrada dos bares
mais conhecidos da cidade, seja pelos primeiros transeuntes que se deslocam, apressados, em busca do local perfeito para jantar antes de colocarem a sua máscara no rosto. Aos poucos, o centro da cidade vai sentindo as batidas da música a ficarem mais fortes, como quem chama pelos foliões, para que deem início à festa. Nos restaurantes, o eco desse convite vai fazendo ultimar os pormenores: há que retocar maquilhagens, arranjar perucas que se desengonçaram enquanto se comia, colocar mais um casaco por debaixo do disfarce. Quando tudo parece estar perfeito, a folia sai à rua, repleta de promessas de animação até a primeira luz do dia surgir. Não há frio que destrone o desejo de contribuir para a noite mais longa do ano, no Carnaval de rua mais famoso do país... E, se o tempo não chegou para aperfeiçoar o dress code, não há mal que prevaleça: as roupas velhas dos avós são a solução! 

 

Na noite que antecede o Carnaval, de segunda para terça-feira, são muitos os amantes da folia carnavalesca que encontram o seu caminho para Famalicão.

Não há escolas de samba, nem público que pague bilhete para verem beldades a desfilar, há apenas a certeza de que este é o Carnaval mais genuíno das nossas fronteiras. Grupos de amigos juntam-se para conceber disfarces temáticos, indivíduos mais arrojados esmeram-se para surgir irreconhecíveis, como se a sua vida dependesse do sucesso que a sua máscara trará junto dos restantes foliões. Parece tudo organizado ao mais ínfimo pormenor, mas a verdade é que Famalicão viu esta festa tomar proporções gigantescas graças à alma festeira dos seus habitantes. A Câmara Municipal, focada em conseguir garantir toda a segurança na noite de Carnaval, apenas tornou possível que a festa fosse crescendo ao longo do tempo, assegurando infraestruturas para concertos, criando parcerias que beneficiam a deslocação até à cidade e organizando o concurso de máscaras aberto a quem quiser participar (bastando uma inscrição, na própria noite). Tudo o resto, é fruto da intensa dedicação dos verdadeiros amantes do Carnaval. Tartarugas Ninja, peças de Tetris, frascos de Nutella, marinheiros, cowboys, super-heróis ou fantasias que funcionam como sátira social, o limite é a imaginação. Com milhares de pessoas a procurarem a festa famalicense todos os anos, é fácil de perceber que todos os recantos da cidade se tornam numa verdadeira pista de dança a céu aberto. Pensar que tudo começou com uma conversa entre amigos, numa mesa de café, demonstra claramente que a determinação é o mote necessário para criar um evento que, de forma descomplicada, rompe as fronteiras do concelho, captando a atenção de pessoas provenientes de Braga, Guimarães, Barcelos, Porto e até Vigo.

MÃOS À OBRA

Atarefada, encontrámos Carmo Leitão recolhida na sua pequena confeção, em Santiago da Cruz, uma das freguesias do concelho de Famalicão. Em cima da sua mesa de trabalho, desenhos, tecidos e fitas métricas fazem antever que o trabalho começa a surgir e é necessário meter mãos à obra. Filomena é o braço direito de Carmo e, atenta a cada corrida da linha na sua máquina, vai finalizando algumas peças. Na parede atrás dela, fotografias encarreiram-se como álbum comemorativo daquilo que mais engraçado já fizeram... e vestiram! Sim, porque estas costureiras não se ficam por realizar os desejos mais extravagantes de quem as procuram, acabam também por desenvolver os seus próprios fatos de Carnaval, nem que isso signifique ir para a festa com os disfarces imperfeitos. “Como são os últimos fatos que fazemos, por vezes ficam inacabados. Mas não importa. O engraçado é ir para o centro da cidade, passarmos por amigos e nem eles nos reconhecerem”, contam, acrescentando que já têm uma ideia para o disfarce de Carnaval deste ano – mas, tal como todas as tentativas que fomos fazendo durante o desenvolvimento desta reportagem, nenhuma se descoseu. “Começámos por participar no Carnaval quando a festa se cingia a meia dúzia de pessoas. Com o passar dos anos, começámos a empenhar-nos mais a sério na confeção dos disfarces. Fantasias de Miss Piggy, membros da Rua Sésamo, Soldadinhos de Chumbo, esfregonas Vileda, Shrek e Fiona e, aquela que foi mesmo espetacular, Branca de Neve e os Sete Anões. Juntámos filhos, maridos e amigos e criámos um grupo que representava na perfeição o conto”, recordam as costureiras. 
Pendurados numa pequena trave, os fatos já finalizados para a noite de Carnaval de 2017 apresentam-se coloridos e... aprimorados. Galo de Barcelos com uma crista bem ornamentada, Ovelha Choné com uma cabeça a preceito, cenoura com a sua rama farfalhuda, Bola de Berlim com a barriga rechonchuda... parece mentira, mas a criatividade dos pedidos feitos a Carmo Leitão faz o delírio do seu dia. “Passo o dia a experimentar os acessórios que irão compor os fatos. E já fiz tanta coisa que perdi a conta. Só para crianças, faço cerca de 50 fatos anualmente”, afirma. “Já me fizeram pedidos tão divertidos! Uma vez fiz uma Popota fantástica. Ou uma Rainha de Copas que, até hoje, acho que foi o meu melhor trabalho. Demorei quatro dias a torná-lo perfeito”, relembra Carmo, uma verdadeira representante do espírito de Carnaval famalicense.
 
 
RIR COM A VIDA QUE TEMOS
 
Apesar de nem todos terem jeitinho para a agulha, há cada vez mais grupos de mascarados que optam por confecionar, pelas próprias mãos, os fatos que vão exibir na noite de Carnaval. Manuel Faria e o seu grupo de Vale de São Martinho, outra freguesia do concelho, são um exemplo disso. Também eles não se descaíram quando lhes perguntámos qual o tema que vão levar ao desfile deste ano. Teremos então que recorrer à imaginação do ano passado, imaginação essa que lhes valeu o primeiro prémio do concurso de máscaras desenvolvido pela Câmara Municipal, na passerelle montada no decorrer do palco erguido na rua Luís Barroso. Manuel, senhor dos seus 58 anos e apaixonado pela tradição carnavalesca, juntou alguns dos seus amigos que compõem a Orquestra Pentágono (responsável pelo espetáculo musical que vai decorrer este ano no palco da Câmara Municipal) para dar vida a um tema que assinalou a atualidade de 2016: as vespas asiáticas. “Gostamos de brincar com coisas sérias, histórias que achamos que se enquadrem no espírito do Carnaval. Os fatos foram inteiramente confecionados por nós. Eu trabalho na área dos estofos e fui adaptando espumas, tecidos, malhas para criar um disfarce engraçado”, conta Manuel, que, de forma extrovertida, assume: “enquanto Deus me der saúde, vou participar no Carnaval de Famalicão, que para mim é o mais original de todos!”
 
 AMIGOS, AMIGOS... FATOS À PARTE!
 
Quando a música sobe de tom e a bebida causa desinibição, os derradeiros duelos de máscaras começam. Não há pancadarias (esperemos) nem palavras feias (q.b.), apenas comentários silenciosos. “Que máscara espetacular” ou “Podias ter trazido qualquer coisinha decente” são alguns dos pensamentos que a mente arremessa. Ai se um olhar tivesse legendas em tempo real! Mas, no final de contas, o que importa é participar, seja com o fato mais elaborado
de sempre ou com um farrapo encontrado na mala de roupas que as meninas rotulam com ‘nunca mais usar’.
João Fernandes, de 26 anos e natural da cidade de Famalicão, pode muito bem descrever, na primeira pessoa, o que é ser visto como detentor da máscara mais original da noite. Não foi necessário subir à passerelle para que
os olhares focassem cada detalhe, cada capricho dos fatos de Carnaval que, ao longo dos anos, foi vestindo. Acompanhado pelo seu grupo de amigos, João começou por recriar o jogo do Pac-Man, passou por flechar os corações com
a sua seta de cupido e terminou encarnando um espantalho. “Somos famalicenses e achamos engraçado contribuir para um dos maiores eventos da nossa cidade. Normalmente, juntamos 15 a 20 pessoas, de todas as idades e, em
conversa, pensamos em algo divertido para vestir”, relata o jovem.
 
 
 CARNAVAL NÃO TEM IDADE
 
Apesar da noite de segunda-feira ser o ponto alto do Carnaval em Famalicão, a verdade é que a festa começa muito antes. As escolas primárias e infantários, por exemplo, desfilam pelas ruas da cidade na sexta-feira anterior, caso a meteorologia assim o permita. Os idosos, cuja mentalidade jovem recusa a abandonar o corpo já cansado, juntam-se no pavilhão municipal na segunda-feira à tarde, num típico baile de Carnaval Sénior. E, falando em Carnaval Sénior, é impossível não mencionarmos a paixão com que homens e mulheres, não importados com as rugas que lhes preenchem o rosto, preparam as suas ‘caretas’ para celebrar um dia diferente. “Convidamos todas as pessoas que integram o projeto Mais e Melhores Anos a participar na festa do Carnaval Sénior. Estamos à espera de cerca de 800 idosos, que competirão para o prémio ‘melhor folião’, ‘melhor fantasia’ ou ‘melhor grupo’. Mas é tudo uma brincadeira!”, refere Bruno Gomes, coordenador do projeto Mais e Melhores Anos da área de Desporto Sénior.
Se Famalicão fosse rei, a noite de Carnaval seria a sua festa de coroação. Uma festa que não tem hora de terminar, nem limite de folia. A única regra é despir a pele da normalidade dos dias e encarnar a personagem que melhor se assenta na personalidade que se quer ter. Tudo porque é Carnaval e ninguém vai levar mal se mostrarmos quem nós não somos.

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