Revista Rua

Etc. Especial | Theatro Circo

A ternura do primeiro olhar na Fila L

O primeiro olhar aconteceu no Theatro Circo.

Sofia Moleiro

Texto: Sofia Moleiro |

Conheceram-se há 63 anos e estão casados há 61. Manuela e Francisco Trigueiros regressaram ao Theatro Circo o local onde a sua história de amor começou.

 

A sala principal do Theatro Circo está escura. Está a decorrer a preparação de espetáculos para uma semana atarefada. Luzes, som, palco, tudo está a ser montado e experimentado. Numa breve frecha de tempo, quando o silêncio habita a sala, Manuela e Francisco Trigueiros dirigem-se para a porta principal. Emocionados, entram na sala procurando as cadeiras que testemunharam o primeiro encontro. “É mais para o lado.” refere Manuela. “Acho que era esta!” diz Francisco. Quando finalmente as encontram, ficam por um momento em silêncio, olhando um para o outro. “Os meus olhos fixaram-se nos dela. Ela tinha e tem uns olhos bonitos. Fixei os olhos e de facto ela não retirou os dela dos meus. Isso foi significativo”, relembra Francisco.

Estávamos em 1953 e Manuela tinha 16 anos. “Numa terça-feira de Carnaval fui ao cinema, à matiné do Theatro Circo, acompanhada da minha avó, da minha tia, de duas primas e de dois tios”. Francisco tinha 18 anos e aproveitava o bilhete a quatro escudos, o bónus. Como era costume, o Sr. Coelho recebeu-o na bilheteira vendendo-lhe o bilhete feito a pensar nos estudantes. “Era hábito, quando se dava o intervalo, as pessoas irem lá fora conversar ou encostarem-se às cadeiras para fumar. E foi no intervalo que eu, encostado à cadeira, vi esta menina. Os meus olhos fixaram-se nos dela.” remata Francisco Trigueiros.

A verdade é que os dois lembram-se claramente daquele momento, mas nenhum consegue precisar qual o filme que tinham ido ver.  “Estávamos tão enternecidos que não me recordo”, diz-nos carinhosamente Manuela. No entanto, ambos recordam filmes que ali viram, principalmente os filmes bíblicos, os de comédia e os documentários (notícias que passavam antes do filme principal).

No salão nobre, Francisco Trigueiros tira do bolso uma larga folha A3, dobrada ao meio, onde se lê Acções do Theatro Circo: “também sou dono disto”, brinca. As ações estão datadas de 1 de Janeiro de 1910 e vão até 2059, previstas para mais de um século.

Este espaço conta já com cem anos de história e dentro destas paredes muitas histórias de amor terão sido escritas. Que o centésimo primeiro ano de vida do Theatro Circo seja o início de muitas mais.

 

 


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