Revista Rua

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Acácio de Brito

“Timor é um país que se está a construir”

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Com um percurso notável no ramo da Educação, tendo exercido funções como professor e como inspetor-geral da Educação e Ciência em Portugal, Acácio de Brito seguiu, de malas e bagagens, para Timor-Leste, em 2015. No rosto levava o ânimo de quem ia ajudar um país a crescer, muito através do sistema educativo e da proliferação da Língua Portuguesa. Assumindo o cargo de diretor da Escola Portuguesa de Díli Ruy Cinatti, uma escola com uma lista de espera extensa, Acácio de Brito é um português de Braga a desenvolver um trabalho de excelência nas terras quentes do Sudeste Asiático.

Fotografia: Nuno Sampaio

Está em Timor-Leste há quase dois anos. Como tem sido essa experiência?

Tem sido muito interessante. Tento dar, nesta comissão em que estou de serviço, o melhor de mim no sentido de desenvolver a língua portuguesa no Sudeste Asiático. Muita gente não sabe, mas Timor foi vítima de uma brutal agressão por parte da Indonésia. E não falo apenas de uma agressão militar. Os timorenses não podiam simplesmente falar outra língua que não fosse o bahasa. As pessoas eram ameaçadas de morte se falassem em português. Depois, o português teve uma importância grande na resistência, como meio de comunicação e de união dos timorenses. Por isso, a cooperação que Portugal tem com Timor é uma cooperação absolutamente exemplar. Por exemplo, na escola que eu dirijo, a Escola Portuguesa de Díli, o Estado Português gasta cerca de cinco milhões de euros por ano. E bem! Porque temos 921 alunos. É bom aterrar no Sudeste Asiático e verificar que se fala português, que se canta em português e que se vibra com os feitos de Portugal.  Recordo que as lágrimas caíam quando foram os jogos do Euro 2016. Só estando lá! Eu não sabia que existiam tantas bandeiras portuguesas em Timor (risos). Foi uma coisa inigualável. Percebe-se uma relação afetiva muito grande a Portugal. São estas experiências que, naturalmente, me enriquecem. Espero que Deus me dê também força e ânimo para continuar, porque eu acho que se está a fazer um bom trabalho. É um trabalho de equipa. É um trabalho que procuramos fazer de forma quotidiana, contribuindo nem que seja um pouco para a melhoria das condições educacionais, culturais, sociais, políticas dum país que é um país irmão.

 

A adaptação a Timor-Leste foi difícil?

Inicialmente custou-me, reconheço. É diferente! Demoro três dias a chegar a Timor e quando venho a Portugal demoro dois dias. Porquê? Por causa dos fusos horários, eu sei. Mas aquilo é muito longe! Nós temos muitos voos por dia da Europa para Singapura, mas a ligação de Singapura para Timor só existe duas vezes por semana. Timor, neste momento, tem um problema de comunicações. Aliás, os próprios poderes timorenses estão a fazer um investimento grande em termos de infraestruturas, designadamente com a construção de um Porto novo em Tibar e com a construção de um aeroporto, que é fundamental para o desenvolvimento de Timor.

 

Nota diferenças em termos de desenvolvimento?

Noto uma diferença muito grande. Eu costumo dizer que, em Timor, todos os dias acontece algo novo. Há, de facto, desenvolvimento. Há uma grande preocupação com a Educação, por exemplo. Timor é um país que se está a construir. É um país recente, a independência foi em 2002, note-se.

 

Em termos de contextualização política, como vê Timor-Leste atualmente?

Vejo como um país com uma tradição já democrática. Verifico que há uma proliferação de forças partidárias, há debates... Percebe-se que, de facto, é um país que se está a construir, após ter passado por momentos traumáticos. Naquela zona da Ásia, é importante para nós termos um país em que a língua oficial também é a Língua Portuguesa. As instituições timorenses, muitas delas, funcionam muito na cópia daquilo que são as nossas próprias instituições... o quadro constitucional é um pouco a cópia do nosso quadro institucional. Claro que também vão buscar aspetos à Austrália, como por exemplo a nível da Segurança Social, ou à Indonésia. Num misto de várias influências, acho que Timor é um país que se está a fazer. Com sofrimento, obviamente, mas eu estou lá há quase dois anos e vejo todos os dias que está melhor. O caminho faz-se caminhando e eles estão a caminhar no sentido de fazer de Timor um país melhor.

 

Falando da Escola Portuguesa de Díli em particular, qual é o universo de alunos e professores que compõe a escola?

São 921 alunos, em que 850 são timorenses. São mais de 70 os portugueses que estão a estudar na Escola Portuguesa. Costumo dizer que é uma escola de Portugal, mas timorense. É uma escola que tem cerca de 61 professores, maioritariamente portugueses.

 

Como funciona o ensino?

A Escola Portuguesa de Díli é uma escola que funciona com o currículo e com os tempos de Portugal. Funcionamos rigorosamente da mesma maneira. O que também tem um problema. Dou um exemplo: os exames realizam-se na hora de Portugal. Ora bem, como há uma diferença de nove horas, um exame que seja realizado em Portugal às 9h é às 18h em Timor. Agora imagine-se um exame que seja realizado às 16h portuguesas, que é à 1h da manhã em Timor. Nesses casos é complicado. Mas os programas são rigorosamente iguais. Aliás, os alunos candidatam-se – e isso para mim é um grande orgulho -, quando terminam o 12º ano, às universidades em Portugal. Este ano, colocámos três alunos na Universidade do Porto, em Medicina, por exemplo. Para os alunos que não quiserem concorrer a Portugal, nós temos um protocolo com, por exemplo, a Universidade Nacional de Timor Lorosa'e, em que os alunos têm entrada no sistema timorense. Temos depois alunos que vão para a Nova Zelândia, para a Indonésia, para a Austrália, para Singapura... Os nossos alunos vão para todo o mundo! Mas, normalmente, a escolha deles é Portugal.

 

É verdade que existe uma lista de espera para entrar na Escola?

Temos uma lista de espera de cerca de 800 famílias, tendo em conta que cada família tem cinco ou seis filhos. Ao nível do pré-escolar e do primeiro ciclo, temos dificuldades em admitir toda a gente. Quando lá cheguei, teríamos cerca de 600 alunos. Hoje temos 921 e as instalações são as mesmas. É evidente que fazemos um esforço grande, os próprios professores e educadores são fundamentais nesse esforço, mas eu pretendia que os alunos estivessem todo o dia na escola. No pré-escolar e no primeiro ciclo isso não é possível. Nós temos um turno da manhã e um turno da tarde.

 

Grande parte dos alunos acabam por ter contacto com a língua portuguesa principalmente através da escola, porque em casa as famílias falam o tétum, correto?

Sim. Mas fazemos uma coisa, que eu penso que é interessante. Temos uma rádio na escola, em que nos intervalos só se fala em português e só passa música portuguesa. Por exemplo, em maio, no dia 5, que é o dia da Língua, nós fazemos sempre uma celebração da Língua e procuramos envolver os alunos através da poesia, do canto, da representação. Nós tentamos sempre incutir o Português. Eu costumo insistir que os alunos devem também sonhar em Português (risos).

 

Um estudo de 2010 dizia que mais de 40% da população timorense era composta por jovens que ainda não tinham feito 14 anos. Ou seja, o fator Educação é de uma importância extrema?

Eu costumo dizer que Timor tem futuro e não precisa de petróleo. Pela alegria das crianças! Aquilo tem futuro. Têm dificuldades? Muitas! Mas essas dificuldades estão a ser colmatadas. Não nos esqueçamos do seguinte: para além da invasão, os indonésios quando se foram embora queimaram aquilo tudo! Timor ainda cheira a fumo em determinados sítios. É um país novo, que se está a fazer. Provavelmente com erros, com certeza. Mas com correções, seguramente. Com um envolvimento muito grande na cultura, por exemplo. Há um investimento grande por parte das famílias. Os nossos alunos, por exemplo, pagam uma propina. São 35 dólares. Claro que se o aluno não tiver possibilidades de pagar está absolutamente isento. Existem apoios. Ninguém deixa de estudar na Escola Portuguesa por falta de dinheiro. Isso seria uma violação dos valores mais elementares que norteiam não só o Estado Português como também as pessoas que lá estão a trabalhar.

 

Fez um balanço muito positivo do apoio do Estado Português. Há alguma dificuldade que queira destacar?

Não, temos tido da parte do Governo Português toda a colaboração. Há, com certeza, dificuldades, mas essas dificuldades são resolvidas. A principal dificuldade está ligada com a incapacidade que nós temos em receber mais alunos. Para isso era preciso fazer obras. Vamos ver se é possível. A segunda dificuldade tem a ver com os horários dos exames. Mas já conseguimos a garantia, por parte do Secretário de Estado, de que, no caso das Provas de Aferição, podemos começar duas horas mais cedo, com o compromisso de que os alunos só saem da prova quando ela começar em Portugal. As coisas vão-se resolvendo. Obviamente que, se eu quiser falar com Portugal, só falo às 18h de Timor. Ou se me telefonam pessoas amigas e me perguntam “então, acordei-te?’, eu respondo muito sinceramente que às 3h da manhã não estou à espera que alguém me ligue (risos). Mas é uma questão de habituação.

 

Timor tem uma grande comunidade portuguesa. Mantém-se perto dos portugueses que, tal como o Acácio, vivem no calor de Timor?

Calor terrível (risos). Nível de humidade de 97%, que é uma coisa complicadíssima.

Tenho uma relação muito estreita com a Embaixada de Portugal. Pelo bom papel que a Escola tem, a embaixada teve a gentileza de me convidar para fazer parte dum conselho para ajudar a perceber os problemas da própria comunidade portuguesa. Nós temos uma comunidade portuguesa de cerca de 800 pessoas de Portugal, mesmo nacionais, e depois existem 200 ou 300 mil luso-timorenses. Temos um ponto de encontro no Hotel Timor ao domingo. Eu digo até que já estou farto de cozido à portuguesa (risos). Mas juntamos a comunidade portuguesa para discutir tudo e até nada. Lá estamos mais juntos porque muitos de nós estamos lá sem a família. Há muitos jovens portugueses, como juristas, engenheiros, arquitetos, fotógrafos... Aliás, nesta experiência, uma das coisas que mais me tem enriquecido é: nós quando vamos a Timor percorremos o mundo e, em cada momento que paramos neste mundo, nós encontramos jovens portugueses a caminhar com entusiasmo, com vontade. Jovens que vão para o Dubai, para a Índia... Se Timor tem futuro, não tenho dúvidas que Portugal, neste sentido de diáspora, também. Um futuro nesta juventude que vai e depois vem mais rica. 


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