Revista Rua

Apreciar. Música

Aline Frazão

“A literatura angolana é a minha maior fonte de inspiração”

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Com uma voz doce, acompanhada pelos acordes do seu violão, Aline Frazão canta as suas influências, com as raízes angolanas e o afeto pelo povo brasileiro como pontos cardeais num percurso marcado pela própria literatura. Cantora, compositora, guitarrista e produtora, Aline Frazão subiu ao palco do Teatro Diogo Bernardes, em Ponte de Lima, com a sua Solo Tour.

Texto com colaboração de Miguel Estima | Fotografia: Fradique

De Luanda, partiu para Lisboa, Barcelona, Madrid e o primeiro disco de originais surge em Santiago de Compostela. Como foi este percurso até ao primeiro disco?

Foi um percurso amador, começando a cantar na escola com pequenas apresentações. Aos 16 anos, comecei a tocar violão e a escrever canções. A escrita sempre fez parte da minha vida e, nessa altura da adolescência, também comecei a ouvir um tipo de música com o qual eu me identificava mais, ligada à poesia e ao Jazz, à Bossa Nova também, e fui, pouco a pouco, construindo uma identidade que sempre circulou nesses triângulos entre a música de Angola, do Brasil e de Cabo Verde.

Depois, fui para a faculdade, em Lisboa, mas continuei a fazer umas pequenas apresentações musicais. Cantei com alguns rappers, fazendo backing vocals durante pouquinho tempo. Quando fui de Erasmus para Barcelona, houve uma grande viragem na minha abordagem, na minha forma de estar na vida, digamos assim. Comecei a pensar que podia fazer da música uma carreira. Fui para Madrid, onde fiz um estágio profissional numa televisão, porque estudei Comunicação, e aí comecei a apresentar-me em vários clubes do circuito madrileno.

Após apresentar-me no festival Cantos na Maré, dedicado à música lusófona e nessa relação com a Galiza, decidi dedicar-me à música. Já tinha algumas canções escritas e foi em Santiago de Compostela que formei a minha primeira banda, com José Manuel Dias e o Carlos Freire, com quem gravei o disco Clave Bantu. Foi um disco autoral, autoproduzido, muito autêntico e muito marcado por aquela fase contextual dos meus 20 anos, das minhas primeiras canções e de tudo aquilo que eu tinha para dizer.

 

O Clave Bantu, disco de 2011, foi apresentado num espaço intimista em Santiago de Compostela. A Aline considera importante esta ligação mais próxima a quem a ouve? A música é, de alguma forma, mais genuína num espaço assim?

A música deve ser genuína em qualquer espaço, seja ele mais intimista, mais próximo do público ou nos grandes palcos, nos grandes festivais. A música não depende do tamanho do palco, do tamanho do público. Depende da forma como nós a tocamos, como nós a sentimos e da nossa verdade, a verdade que levamos na voz, nos nossos acordes, nas nossas palavras. Na verdade, esse meu primeiro disco era um disco muito visceral e, apesar de ter uma garra, algo meio Rock escondido no seu subtexto, era um disco mais acústico, em trio: violão, contrabaixo e a percussão. Normalmente, a música mais acústica tem tendência a casar melhor com paredes mais próximas ou com um espaço acústico mais pequeno. Mas o tamanho do palco, o tamanho da sala onde nós tocamos, não pode nem deve condicionar a forma como nós conseguimos comunicar com o público. Isso é algo que aprendemos pelo caminho e nada melhor do que o palco para nos ensinar a cantar sempre com verdade, apesar de ser quase utópico, mas é um objetivo a cumprir.

 

O seu segundo disco de originais surgiu em 2013 e contou com colaborações de vários poetas angolanos. É importante esta cumplicidade com escritores de Angola?

Sim, a minha ligação com a literatura é uma coisa muito importante para mim. Costumo dizer que a literatura angolana é a minha maior fonte de inspiração ao escrever. Sinto-me muito influenciada pela literatura angolana, especialmente pela poesia. No primeiro disco, tive possibilidade de musicar um poema inédito de Ondjaki e de José Eduardo Agualusa também. Os dois escreveram letras inéditas para eu musicar. No segundo disco, musiquei um poema de Alda Lara, uma poetisa angolana, e do Carlos Ferreira, um poeta angolano também. De certa forma, isto foi uma maneira de eu me manter próxima de uma linguagem angolana, de uma estética, de um contexto com o qual eu me identificava. Na altura não morava em Angola e, muitas vezes, sentia que aquelas palavras poderiam ser minhas - essa magia que acontece quando alguém escreve uma coisa e nós nos identificamos com essa história, com essas palavras, com essas rimas, com esses versos. Foram canções muito importantes na minha forma de me posicionar como compositora e na minha ligação com a palavra.

 

Podemos assumir que essa altura foi um ponto de viragem da sua carreira, tendo pisado palcos pela Europa e por vários países africanos. Como foi a experiência de partilhar música com o mundo?

Sim, o Movimento foi um disco muito generoso para mim. Foi um disco mais profissionalizado, um disco com editora (a Ponto Zurca), que, apesar de ser uma editora independente, era muito trabalhadora e dedicada. O disco teve também alguma distribuição internacional. Nessa altura a minha carreira organizou-se a nível de estrutura, a trabalhar com agências, com management – e, claro, criando essa estrutura, começa a ser mais fácil viajar, estar em tournée. Realmente, com o Movimento, viajei para muitos lugares, comecei a tocar muito na Europa principalmente, mas também em Angola – aliás, esse é o disco que eu acho que teve mais aceitação no mercado angolano e, em Portugal, também foi muito bem-recebido. Estou muito agradecida por tudo o que esse disco me deu.

 

Insular foi gravado numa pequena ilha escocesa. Esse isolamento ajudou-a no processo criativo? Como nos descreveria o processo de criação de Aline Frazão?

Sem dúvida! Na altura da gravação do Insular eu dizia que o contexto afetava muito o resultado e, efetivamente, gravar numa ilha isoladíssima do norte do mundo, a Ilha de Jura, na Escócia, foi uma experiência incrível de imersão absoluta - ou quase absoluta - num estúdio, no processo de gravação em parceria com outros artistas que nos visitavam na ilha. Foi muito bonito! Foi uma mudança de contexto para mim, que era um dos grandes objetivos do Insular: mergulhar um pouco numa sonoridade mais Rock, mais elétrica, com a parceria com o Pedro Geraldes (Linda Martini) e isso tudo foi favorecido pelo próprio contexto da Ilha de Jura.

O meu processo de criação é muito aleatório. Acho que com os anos vou entendendo como são os meus padrões, mas normalmente começo por escrever a letra e depois surge a música. Nesse disco, Insular, eu trabalhei muito com o Pedro Geraldes na parte da pré-produção e da construção dos arranjos e foi um processo de descoberta das canções à medida que os músicos iam chegando ao estúdio. Tivemos músicos incríveis a acompanhar-nos, com instrumentos muito interessantes como a harpa, o clarinete, enfim, uma sonoridade nova também para mim. Ouvir o som dos instrumentos e pensar em como encaixá-los nas músicas também era um grande desafio, um processo muito estimulante, muito bonito. Foi um processo de ver o que a música pedia, deixando que as músicas nos orientassem um pouco e contando com a energia criativa de cada colaborador, de cada músico, de cada artista que ia surgindo. Não posso deixar de enfatizar o trabalho do Giles Perring, que foi produtor do disco.

O novo disco, gravado no Brasil, será editado no final do ano, correto? Será um disco cheio de surpresas também?

Sim, o novo disco foi gravado no Rio de Janeiro, uma cidade que significa muito para mim. É lá que estão as minhas primeiras influências, da minha relação com o violão, das primeiras canções que eu escrevi na minha adolescência ainda. O Rio é parte da minha identidade, da minha geografia familiar e afetiva e, por isso, decidi gravar lá. É um disco mais minimalista, mais de cantautora, mais voz e violão, mas não só: há muitas surpresas, há colaborações muito bonitas com Jaques Morelenbaum, que é um violoncelista incrível, uma personagem incontornável da música brasileira - e da música mundial em geral, eu diria -, e Luedji Luna, que é uma cantora e compositora baiana, que editou Um Corpo no Mundo, um disco com uma ligação muito forte com a música africana – eu digo que ela é a mais africana das cantoras brasileiras ou a mais brasileira das cantoras africanas. Então, foi um grande presente eles terem aceitado participar no disco. Também tenho algumas colaborações com o João Pires e outras mais, que serão reveladas lá para setembro de 2018.

 

Mantém uma ligação com Portugal, atuando cá várias vezes. O que pensa do público português?

Eu adoro tocar em Portugal! Gosto muito mesmo! E sou muito grata ao público português. É um público muito generoso, muito sensível, muito atento. Sem dúvida, Portugal vai sempre fazer parte das minhas rotas ao longo desta vida. Gosto muito de tocar em Portugal, não só nas cidades como Lisboa ou Porto, que são cidades grandes, com grandes audiências de público, mas também nos lugares mais pequenos, mais fora desses eixos demasiadamente centralizados. Acho que as grandes surpresas às vezes surgem nas cidades mais pequenas, nos lugares mais pequenos, com aqueles públicos que têm até menos acesso – porque acaba por haver a centralização das coisas em Lisboa e no Porto – e esse público acaba às vezes por ser mais caloroso e mais generoso. É sempre um encontro bonito.

 

Durante 2018, iremos assistir a uma Aline Frazão mais madura? Qual é o futuro que aguarda para si, como artista?

Eu acho que a cada ano que passa vou fazendo um caminho um pouquinho mais sólido, mas é sempre muito imprevisível. Estou muito grata e cada vez que olho para trás, sempre que sou conduzida a essa reflexão sobre todos os meus discos e todo esse trajeto, sinto-me sempre muito afortunada e muito feliz por ter passado por todos esses lugares, esses pequenos pontinhos que fazem o meu caminho. É muito bom! Sinto-me muito feliz por continuar a ter coisas para dizer, por continuar a sentir-me entusiasmada e motivada para escrever canções, para subir ao palco, para viajar, para estar em contacto com o público. Por continuar com esse desejo e essa ânsia de fazer música e nunca estagnar num lugar confortável. Por não me deixar desanimar pelas dificuldades que vêm pelo caminho.

Não sei o futuro, porque nunca ninguém sabe, mas a verdade é que eu me sinto muito animada para este ano, tanto para esta primeira tournée a solo, como para os concertos que tenho ao longo do ano. E, claro, mais para o final do ano, com o lançamento do disco, que tenho muita vontade de terminar e de partilhar com o público, porque tudo se completa aí. É um grande privilégio, num mundo como este, poder fazer aquilo que se gosta, sem dúvida nenhuma.


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