Revista Rua

Observar. Passeio Público

Ana Carolina

“Portugal é um dos lugares onde mais gosto de cantar” 

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

“É isso aí...”, a RUA esteve à conversa com Ana Carolina, a cantora brasileira que atravessa o Atlântico para levar ao rubro o Coliseu de Lisboa, a 16 de junho, e o Coliseu do Porto, a 18 de junho. Ao nosso leitor deixamos já um alerta: não se espante com algumas expressões cariocas e algum sotaque que lhe possa surgir ao longo da leitura.

 

 

 

Fotografia: Leo Aversa

 

É verdade que, em criança, usava o rolo de cabelo do cabeleireiro da sua mãe como microfone para cantar? Que memórias guarda desses tempos de infância?

Eu cantava uma música de sucesso da época, do cantor Sidney Magal. Eu era muito novinha mesmo e um rolo de cabelo era a minha maneira de simular o microfone e criar um número que geralmente acontecia em cima de um dos bancos da manicura. Ficava uma fera (risos). 

No meu carrinho de bebé tinha sempre um rádio de pilha que ficava constantemente ligado, tocando baixinho. Não o desligavam nunca! Eu dormia e acordava escutando música. Acredito piamente que parte da minha vocação radiofónica tenha vindo daí.

Mais tarde, quando conheci Caetano, Gil, Chico e Djavan, descobri que queria fazer aquilo: tocar violão e compor.

 

Eram essas as influências musicais que tinha na altura? Eram esses artistas que a inspiravam?

Eu gostava de todo o tipo de música que eu pudesse analisar e que me fizesse bater o coração! Gostava dos programas musicais da época, como o Chacrinha, Globo de Ouro, Chico&Caetano... Ouvia os discos antigos de Samba da minha mãe, ouvia discos de Nelson Cavaquinho e até discos de música romântica italiana, passando ainda por Luís Gonzaga e Michael Jackson. Escutava os discos estourados da época Rita Lee, Titãs, Paralamas, etc.

   

Começou por cantar em bares, não foi? Essa experiência permitiu-lhe crescer como cantora? O que é que cantava nessa altura? Chico Buarque?

Sim, cantava muito Chico Buarque, Noel Rosa, músicas minhas, músicas da época, tudo com muita satisfação e prazer. O bar trouxe-me a esperteza de perceber o que o público queria e, ao mesmo tempo, de não me importar quando o público não ‘compreendia’ algumas músicas. Nunca pensei em desistir. Só segui em frente.

 

Foi difícil conquistar um lugar no panorama musical brasileiro, no início?

Não foi difícil conquistar um lugar na música popular. Difícil foi conquistar o meu lugar na música popular! Quando apareci para todos, através da grande media, eu tinha uma música de trabalho chamada Garganta, uma música que tocava sempre que aparecia um dos personagens principais de uma novela importante da Rede Globo, chamada Andando nas nuvens. Ou seja, rapidamente me tornei uma pessoa pública na TV, nos jornais, nas revistas... A novela tem um alcance excecional. Arrisco-me a dizer que a novela mantém a música popular brasileira viva.

No segundo álbum, fiz com Dudu Falcão uma versão para a canção “La mia storia tra le dita”, a que chamamos “Quem de nós dois”, que virou um sucesso abismal! Nenhum cantor consegue apagar esse grande sucesso. “Quem de nós dois” continua a ser muito importante na minha carreira.

Acho que os meus dois primeiros discos despertaram algumas impressões, mas nada ali poderia ser conclusivo. Acho que comecei a conquistar o meu lugar com o disco Estampado (2003). Acho que Estampado é o disco em que me apresento como cantora e compositora. Consegui fazer um álbum praticamente inteiro com canções minhas!

 

Como define o seu processo de criação?

Componho de várias formas: faço uma letra e musico no violão; faço uma música no violão e escrevo a letra; mas também faço uma música pelo caminho contrário, ou seja, vou para o meu estúdio, crio batidas eletrónicas, crio uma harmonia, faço o arranjo e somente depois faço a melodia e a letra. É um caminho interessante também. 

Fotografia: Leo Aversa

Mantém uma relação artística forte com Seu Jorge, tendo já feito espetáculos juntos. Identifica-se com o trabalho de Seu Jorge?

Nós temos coisas parecidas evidenciadas em nossos shows, como a potência de voz e o facto de tocarmos vários instrumentos. 

O Jorge é uma boa pessoa, de coração aberto. Tem a personalidade forte assim como eu também tenho. Respeitamo-nos dentro e fora do palco.

 

Já teve oportunidade de pisar palcos em vários países. Mas cantar em Portugal é diferente?

Falar português na Europa e ser entendido não tem preço (risos).

 

Gosta de cantar em Portugal?

Portugal é um dos lugares em que mais gosto de cantar.

 

Tem muitos fãs em Portugal. Sente-se acarinhada quando faz espetáculos cá?

Sinto muito amor! Os portugueses são lindos e apaixonados pela música brasileira. É sempre uma experiência única cantar em Portugal!

 

É verdade que tem uma estrela em seu nome, registada pelos seus fãs? Como se sente ao receber esse carinho?

Eu não sabia que isso poderia ser feito (risos). Fiquei surpresa e achei inacreditavelmente bela a homenagem!

   

Ainda fica nervosa quando sobe ao palco? Tem algum ritual que costuma seguir?

Eu preciso passar o som. Eu preciso de saber que tudo está OK no palco. Às vezes, mudo o roteiro no último minuto por conta de uma intuição que não me larga (risos)

 

Se pudesse descrever as suas músicas diria que são canções quentes, maduras e até sensuais? Um pouco até como a própria Ana Carolina?

Não consigo descrever as minhas canções pois quando elas são lançadas para o mundo, o público decide o que elas são. O público vai sentir muitas vezes algo único sobre aquela canção. Às vezes sentem algo que eu nem sequer pensei em causar ao fazê-la. Aliás, essa é a magia!

 

Quem é a Ana Carolina de hoje? Como se sente como mulher e como artista?

Como mulher, eu continuo não concordando com o machismo, com a opressão masculina, com o facto de muitas mulheres serem maltratadas dentro das suas próprias casas. Como mulher, fiz e faço as minhas escolhas. Escuto somente a minha própria voz. Sinto-me dona do meu caminho. Como artista, continuo a minha busca eterna e incansável.

   

Pode falar-nos um pouco do seu último disco #AC? Que disco é este?

#AC é um disco sem bateria. É um disco com programações eletrónicas e percussões. É o disco onde inicio a minha parceria com Edu Krieger. É um disco para dançar, curtir, divertir!

 

O que tem programado para os espetáculos em Portugal, em junho? Cantará os seus grandes sucessos?

Estou programando um show especial para Portugal! É segredo ainda.

   

Os seus fãs desconheciam a sua veia poética. O que é que mostra com o livro Ruído Branco?

Ruído Branco é o meu primeiro livro. Deixo a definição que o generoso José Luís Peixoto escreveu no prefácio da edição portuguesa: "É esse encontro que as páginas seguintes prometem. Nelas ler e escrever são gestos separados por um espelho. Você é ela, ela é você. Com muita probabilidade, como me aconteceu a mim, poderá encontrar o seu nome escrito num verso”.

 

Tem mais surpresas preparadas para os próximos tempos?

Tenho muitas, só não sei se conseguirei realizar todas (risos).

 


  • Margarida Biléu

    AC é uma artista ousada, procurando novas expressões artísticas e dando voz aos seus anseios e vontades. Como ela diz "Escuto somente a minha própria voz. Sinto-me dona do meu caminho. Como artista, continuo a minha busca eterna e incansável". Ainda bem!

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