Revista Rua

Observar. Talento

Apropriação, Acumulação e Anulação por Ricardo de Campos

Texto: Helena Mendes Pereira |

No espaço de um ano, Ricardo de Campos (n.1977) libertou-se do seu espaço interior, da sua zona de conforto, da sua geografia doméstica, aventurando-se num caminho em que somou ao desvirtuamento do suporte tradicional da obra de arte e à reutilização de objetos e materiais do quotidiano, a afirmação dos seus grandes formatos e a adoção de um figurativo de contorno, de vanguarda e de mensagem mais corrosiva. No ano de 2017 são já duas as exposições em que tenho o privilégio de colaborar com este artista, na qualidade de curadora. Na primeira, tinha sido motivada por um conjunto de telas suas de grandes dimensões, com as quais me cruzei, e que me trouxeram a asfixia de um campo de refugiados, pelo amontoado dos corpos sugeridos na composição, pela intensidade dramática dada pela paleta de cores e pelas palavras que povoavam aquela imensidão de área pintada que, no imediato, também me levaram aos melhores exemplos da pintura gestual de Artur Bual (1926-1999).

Pintor da raia, natural e residente em Monção, Ricardo de Campos tem no seu percurso outras marcas de Bual, como o gosto pela representação iconográfica de Jesus Cristo. No imediato, a sua pintura apela à reflexão sobre este mundo de muros e de (novas) intolerâncias que achávamos a caminho da dissipação no seguimento dos horrores das Guerras Mundiais que, num passado não muito distante, nos fizeram envergonharmo-nos de sermos humanos.

Numa linguagem da apropriação das dimensões materiais e imateriais do contemporâneo, a iconografia religiosa, à maneira clássica, não apresenta consensos ou, tão pouco, adeptos. Para esta nova exposição, em que ampliamos o dispositivo à escala do crescimento e da evolução plástica de Ricardo de Campos, esse é um dos pontos de artista: o da destruição literal do ícone, do símbolo imagético de Cristo, numa metáfora clara à destruição do seu exemplo, numa análise de fé ou, simplesmente, histórica e geopolítica. Neste sentido, em Apropriação, Acumulação e Anulação, para ver na totalidade de espaços do Fórum Cultural de Cerveira a partir de 11 de novembro, Ricardo de Campos largou a estética de representação de tendência neoexpressionista e, no diferencial de conceito, aproxima-se de um modelo que, em algumas notas, nos lembra o próprio Julião Sarmento (n.1948).

A mudança acontece depois da conclusão do Mestrado en Arte Contemporánea. Creación e Investigación que frequentou na Faculdade de Belas Artes de Pontevedra (Universidade de Vigo), evidência do artista que junta às suas virtudes a coragem de se colocar no confronto com a Academia e com o olhar do outro. Ricardo de Campos é pintor. É na sua arte que se define e se desenvolve, também como ser social. Aos 40 anos, esta grande exposição individual, no final de mais uma fase do seu percurso académico, é apenas prova de que não parará de nos surpreender.


  • Victor Neves

    Sou admirador da obra de Ricardo Campos a ruralidade e em especial a as pinturas de Cristo. Tenho mesmo que ir a Cerveira ver mais esta sua exposição. O Artigo de Helena Mendes Pereira é excecional.

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