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Aqui, as horas continuam a bater

A Boa Reguladora, Vila Nova de Famalicão. 

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Fotografia: Nuno Sampaio

Durante anos, A Boa Reguladora foi um dos marcos industriais de Vila Nova de Famalicão. Consagrada como a primeira fábrica de relógios da Península Ibérica, a empresa deixou no passado o seu brilho, mas a sua essência, essa, nunca se apagou. Lá continua, no mesmo sítio, a ouvir as horas bater...

Se, durante um passeio pelo centro da cidade de Vila Nova de Famalicão, perguntarmos aos mais velhos onde fica a Reguladora, todos nos respondem prontamente que nos temos de deslocar em direção à estação de caminhos de ferro. Aí perto, encontraremos a rua José Carvalho, que se estende ao longo de uma ponte íngreme. Mas este pedido de indicações traz quase sempre um aviso: “aquilo já fechou há uns anos”. Mas será que é mesmo assim? Com uma única certeza, dizemos firmemente: não!

Comecemos pelo início. Estamos em 1892, ano em que a sociedade S. Paulo & Carvalho dá origem à fábrica A Boa Reguladora, cuja finalidade era “não só o comércio de relógios, mas especialmente o fabrico deles”. Sediada na cidade do Porto, esta fábrica começou a laborar, sendo-lhe atribuída imediatamente o rótulo de primeira fábrica de relógios da Península Ibérica. O homem por detrás deste feito era o relojoeiro João José de S. Paulo. Acredita-se que, por motivos de saúde, João José era obrigado a deslocar-se periodicamente à Suíça, de maneira a receber tratamentos e repousar. Talvez tenha sido esse ambiente, bem no coração da indústria relojoeira mundial, que inspirou João José a criar uma fábrica de relógios em Portugal. Por cá, as afinidades desenvolviam-se como se esse fosse o destino traçado. José Gomes da Costa Carvalho, natural de Vila Nova de Famalicão e habilidoso mecânico, procurava frequentemente J.P. da Conceição, amigo de João José e proprietário de um armazém de ferro, que lhe fornecia materiais para a sua pequena oficina com forja. Na altura, o famalicense é apresentado a João José, que nele vê o associado que procurava. E voilá! Estava assim criada a primeira fábrica de relógios de Portugal, produzindo, no Porto, relógios de parede e mesa, como os que haviam no mercado da época, provenientes da Alemanha e dos EUA. Ao primeiro modelo fabricado, um relógio de mesa, chamaram-lhe A Batalha e, batendo horas e meias-horas, foi a peça mais fabricada pel’A Boa Reguladora.

A deslocação para Famalicão

No decorrer da história d’A Boa Reguladora, primeiro nome dado à empresa, contam-se os homens que, com sabedoria e habilidade, contribuíram para o reconhecimento dos seus relógios. Lino Carvalho, irmão mais novo de José Carvalho e relojoeiro de profissão – com uma oficina em Vila Nova de Famalicão -, foi um desses homens. Tornando-se sócio da empresa, Lino de Carvalho foi uma das razões que justificaram a vinda da fábrica para Vila Nova de Famalicão, que se fixou mesmo junto à linha de comboio, único meio de transporte para matérias-primas e produtos acabados na época. No início do século XX, A Boa Reguladora contava com 50 funcionários, que produziam totalmente os relógios naquelas instalações, graças a grandes máquinas a vapor, que também serviam as restantes artes que a empresa foi aperfeiçoando, como a carpintaria, a serração e a moagem.

Um símbolo industrial

Desenvolvendo melhorias notáveis no fabrico dos relógios, A Boa Reguladora alcançou patamares dignos de orgulho. Mesmo tão afastada dos grandes centros relojoeiros da Europa, A Boa Reguladora assumiu-se como pioneira da mecânica de precisão, criando relógios reconhecidos pela sua qualidade e estilo. Quando a 1.ª Guerra Mundial desponta, já a empresa tinha uma dimensão industrial assinalável para a região, contando com uma área fabril de dez mil m2 e 220 funcionários. Nos registos da época é possível ler-se que “a força motriz era de 200 cavalos em três motores” e a produção de relógios, em 1914, era de 6408 unidades.

No entanto, o sucesso não durou para sempre. Com as guerras e as crises económicas, o mercado dos relógios deixou de ter uma posição privilegiada, levando a empresa a abrir-se a novos segmentos de tecnologias mecânicas, como contadores elétricos, de água e de gás, que, com o tempo, viriam a suplantar o comércio dos relógios.

A Reguladora de hoje

Depois das adaptações ao mercado, A Boa Reguladora – ou simplesmente Reguladora, devido à passagem das gerações –, foi adquirida por uma multinacional, mas não na sua totalidade. Talvez tenha sido aqui que os rumores de fecho começaram. A parte de fabrico de relógios não ficou sob alçada da multinacional, o que levou à diminuição do número de trabalhadores e do número de artigos produzidos. Mas nunca à extinção da marca Reguladora.

Hoje, por entre gongos, tiquetaques e cucos que chilreiam a cada hora que passa, é Filipe Marques que toma as rédeas de uma empresa que já muitos altos e baixos teve. Fruto do desinteresse dos responsáveis da altura, a Reguladora foi perdendo o seu encanto e foi necessário lutar arduamente para devolver um pouco do vigor de outros tempos àquela pequena oficina, situada nas mesmas instalações de sempre. Nas paredes, os relógios de madeira são exibidos como troféus e, nas bancas iluminadas, estão os meninos de ouro do negócio atual da Reguladora: os relógios de pulso. Mas, para não levantar pensamentos erróneos, convém explicar já que os relógios de pulso não são ali fabricados. Filipe Marques esclarece: “Nós, de momento, só produzimos e reparamos relógios de madeira, mas comercializamos relógios de pulso com a nossa marca Reguladora. Esses relógios de pulso são por nós comprados a uma fábrica de Itália, que produz para todo o mundo”, afirma. Com preços que rondam, em média, os 250€, os relógios de pulso da Reguladora têm merecido a atenção dos clientes, principalmente daqueles que ainda se recordam do valor de qualidade de um relógio A Boa Reguladora.

Neste negócio dos relógios de pulso há cerca de quatro anos, Filipe garante que os resultados têm sido bastante positivos. Com pontos de venda espalhados por todo o país, através de relojoarias ou ourivesarias – em Braga, por exemplo, os relógios da Reguladora podem ser encontrados na loja Pires Joalheiros, na rua do Souto –, a Reguladora vai trilhando um caminho luminoso, mas ainda longe do brilho dos outros tempos. «Temos de manter os pés assentes na terra, porque os tempos são diferentes. Neste momento, na oficina, somos apenas três funcionários, embora tenhamos comerciais e pessoal subcontratado para ajudar quando é necessário. Mesmo assim, já temos cerca de 80 clientes, todas as semanas, envolvidos no nosso negócio de relojoaria de pulso e fazemos, em média, mais de mil concertos de relógios por mês. Claro que gostaríamos de produzir aqui os relógios de pulso também, mas a procura não justifica esse investimento», conta Filipe.

Tendo a certeza de que a escassez de mão-de-obra que saiba efetivamente fazer e reparar relógios em Portugal é uma vantagem para a Reguladora, Filipe ainda sonha com o momento de ver a empresa recuperar o louvor de outros tempos. Ou pelo menos, acabar com o mito de que aquele lugar já foi apagado da história. Pelo que vimos, a Reguladora vive. Isso é certinho como um relógio!

 

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Texto: Leonor Pereira
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