Revista Rua

Observar. Talento

Becken Filipe entre a névoa e os dias de sol de Primavera

Texto: Helena Mendes Pereira |

Becken Filipe (n.1983) foi uma das descobertas de 2017. No primeiro desafio que lhe lancei, surpreendeu-me. Era o rosto de um engraxador do Porto, de 120 x 185 cm, onde não estava apenas a fisionomia do homem, mas a sua alma azul, o olhar lento, difícil de captar em macro escala, sem caricaturar, sem hiper-realisticamente representar, mas retendo tudo. No segundo desafio captou a alma africana numa série de rostos infantis, encimados em paleta pop que consegue depurada sobre a madeira, que tem sido o seu suporte preferencial.

Artista natural de Lisboa, cresceu entre o Estoril e Berlim (para acompanhar o pai, também pintor). Fixou-se em Braga em 2006, cidade que tomou já como sua. É um entusiasta da agitação cultural; interessa-se pela mutação do espaço urbano através da intervenção artística mas é em casa, no conforto da família, que tem encontrado as suas maiores fontes de inspiração.

Becken Filipe itinerou as suas paixões na dualidade da sua formação académica: entre o design de comunicação (IADE) e a escultura (FBAUL). Da fusão havia de surgir a pintura, prática recente, mas constante e diária. Contudo, o desenho fez sempre parte dos seus dias, o que se sente nas opções estéticas do, agora, pintor que prefere a figuração e dedilha ao pincel, com enorme delicadeza, perfecionismo e notada influência do expressionismo de raiz alemã, rostos, corpos e, acima de tudo, movimentos e relações de cumplicidade entre o representado e o seu contexto de enquadramento imaginado. O caminho não é de passado extenso, mas apresenta-se como promissor. A cada nova criação que nos revela, mas se apura o estilo, de domínio técnico que, contudo, não deixa de ser experimental; a paleta é suave e há sempre uma luz (ou nuvem) em branco que cria um efeito entre a névoa e os dias de sol da primavera.

As exposições são ainda de geografia local, preparando-se, após um período de definição temática, para pensar a sua primeira individual. Becken Filipe é exemplo de um artista que assume personalidade na maturidade e que persegue com resiliência a pintura como olhar sobre o mundo – o mundo sensível (o seu) e o quotidiano (também nosso).

Edward Hopper (1882-1967) escreveu que “A pintura é uma gravação da emoção”. Disse também que se “pudesse dizer isso em palavras, não haveria nenhuma razão para pintar”. Becken Filipe está nesse intervalo. Tomou-me a atenção pela capacidade de reter almas nos ritmos corpóreos que pinta. Vão-se esgotando as fontes, diz-me sempre. Desligar-se-á desse real em breve, quando a imaginação se tornar matéria dizível, razão para pintar.

 

Sobre o Autor

shairart chief curator.


4 vídeos 1011 followers