Revista Rua

Apreciar. Cultura

Bienal de Cerveira - O Refúgio das Artes

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

A 19.ª Bienal Internacional de Arte de Cerveira, até 16 de setembro, traz a temática da pop arte às transvanguardas, apropriações da arte popular em três pontos expositivos principais: o fórum cultural, o castelo medieval e a factory (antigo quartel dos bombeiros). Com a coordenação artística de Cabral Pinto, esta é a edição que conta com maior número de artistas – e uma homenagem principal à pintora Paula Rego.

É com a tranquilidade do Rio Minho e com a Galiza a seus pés que encontrámos Vila Nova de Cerveira, terra pequena, mas de alma cheia. Alma de arte e talento, enraizada no seu íntimo, não fossem os tempos contarem uma história de resiliência, de conquista por um lugar no panorama artístico nacional – e internacional. Cerveira é refúgio entre rio e monte, com Espanha a trazer-lhe uma centralidade distinta. Desde 1978 que a Bienal Internacional de Arte de Cerveira apresenta-se como uma forma de desenvolvimento de uma terra que parecia longínqua, imóvel e incapaz de se reinventar. Hoje, Cerveira é rainha das artes, chamando para si os holofotes de um mundo artístico que parece saber valorizar o trabalho feito ao longo dos anos. Na sua 19.ª edição, voltamos ao início, numa descoberta pelas origens desta que é uma das mais importantes estruturas artísticas do país.

À medida que nos aventuramos numa visita pelo edifício do Fórum Cultural, local onde se expõe a tão badalada homenagem a Paula Rego, uma exposição com curadoria de Helena Mendes Pereira, é como se o passado nos cumprimentasse: Jaime Azinheira ocupa uma das salas, numa homenagem que acontece um ano e meio após o seu falecimento, trazendo à tona as memórias de 1984, quando a Bienal premiou o escultor pela sua participação com a peça Taberna. Depois, as salas dedicadas às homenagens aos artistas fundadores da Bienal assumem-se como montra permanente, para que a história não se disperse. José Rodrigues, um dos melhores escultores do panorama nacional (já falecido), Henrique Silva, que tal como muitos artistas escolheu Cerveira – mais concretamente a aldeia de Gondar - como casa, depois de passagens por Paris, e Jaime Isidoro (já falecido), o homem que esteve na génese da fundação da Bienal de Cerveira. E abrimos aqui uns parênteses: A Bienal de Cerveira foi criada em 1978 por Jaime Isidoro e um grupo de artistas chamado Grupo Alvarez. Na realidade, a ideia primordial não era criar a Bienal. Jaime Isidoro, reconhecido por ter criado a Galeria Alvarez, a mais antiga do país, em 1954, era pintor e grande divulgador e dinamizador cultural. Após a Revolução, em 1974, já em contexto de liberdade, organizava na Casa da Carruagem, em Valadares (Gaia), os Encontros Internacionais de Arte, um momento de encontro entre artistas que, por motivos políticos, não se podiam encontrar anteriormente – muitos deles regressavam ao país, inclusive. O intuito era realizar estes momentos de forma descentralizada, em locais não tão acessíveis na altura: ocorreram edições nas Caldas da Rainha, na Póvoa de Varzim, em Viana do Castelo e, em 1978, em Cerveira. Contudo, em Cerveira, Jaime Isidoro encontra Lemos Costa, o presidente da Câmara que o convida a fazer algo numa escala maior, num pavilhão. Assim nasce a Bienal de Cerveira, permitindo que a vila se comece a desenvolver. Apesar da paragem em 1992, por problemas financeiros, e o regresso em 1995 já sob direção de Henrique Silva, desde a primeira edição, o formato da Bienal foi-se mantendo, com uma componente muito importante de homenagem a artistas, o concurso internacional (com prémios de aquisição, ou seja, as obras dos artistas vencedores são adquiridas pela Câmara Municipal ou por patrocinadores) e as exposições dos artistas convidados (artistas que já expuseram anteriormente na Bienal e que regressam sob convite).

Com vários polos expositivos, tanto em Cerveira, como em Caminha, Paredes de Coura, Ourense e Vigo, privilegiando uma relação transfronteiriça, esta 19.ª edição da Bienal de Cerveira destaca-se pela participação do maior número de artistas até ao momento, artistas provenientes de Espanha, Brasil ou até Japão. De acordo com o coordenador artístico Cabral Pinto, o balanço é extremamente positivo: “Parece-me que conseguimos reunir um conjunto de obras muito interessantes, é uma Bienal muito equilibrada. A meio de agosto contávamos uma afluência de 60 mil visitantes, mas estou convencido que, até ao final, vamos ultrapassar a fasquia dos 80 mil visitantes (número de visitantes que tivemos há dois anos) e chegar muito perto dos 100 mil, que é o grande objetivo”. A preparar-se para deixar as rédeas da Bienal, Cabral Pinto assume-se preocupado com o futuro, nomeadamente em termos de espaço expositivo. “Daqui por dois anos não teremos dois espaços que hoje são fundamentais para a Bienal: o Castelo de Cerveira e o espaço que está dedicado às escolas de arte e universidades (Factory). A investigação na componente artística é primordial e é uma mais valia na própria Bienal, por isso, preocupa-me se vamos perder espaços. De qualquer das formas, estou confiante que vão conseguir arranjar novos espaços – ou quiçá manter estes, afinal. Precisamos de encontrar espaços que permitam continuar a robustez que a própria Bienal tem”, conta-nos o coordenador artístico.

No entanto, como vimos, o projeto da Bienal não se resume ao concurso internacional. “É muito mais que isso!”, como diria Cabral Pinto. Há ateliers de escultura e cerâmica, gravura, pintura ou ateliers infantis, que se desenvolvem durante o período da Bienal, e permitem a partilha de experiências entre artistas e visitantes; há o envolvimento das universidades; há a descoberta de novos talentos e a vanglória dos já conhecidos, como Júlio Resende, José de Guimarães, Augusto Canedo, Rute Rosas ou Miguel Neves Oliveira com obras expostas nesta Bienal; há a homenagem aos talentos de sempre, como Ernesto de Sousa, Jaime Azinheira e Paula Rego; e há atividades diversas, durante todo o ano.

Assim é Cerveira. Pelos corredores desta Bienal, de sala em sala, o espírito artístico que deu novo alento à terra do Alto Minho parece não esmorecer. Em cada paisagem, mirando a Galiza ali tão perto, a recordação dos jardins particulares que se abriam aos artistas à procura de inspiração está bem viva, quase que se repetindo - de um jeito mais profissional, mas sempre com a mesma fome criativa que só Cerveira sabia saciar. 


4 vídeos 817 followers