Revista Rua

Observar. Região

Bluewater Tour, O cavalo como paixão

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

São 9h e João Pedro Gomes já está há uma hora, pelo menos, em cima do cavalo, às voltinhas como quem reconhece território. Ora num trote lento, ora numa cavalgada mais acelerada. Com uma postura bem colocada, com uma ligação intimista ao cavalo e um olhar de vencedor, João Pedro Gomes treina afincadamente, atento a todos os movimentos do cavalo que o acompanha desta vez. Sim, porque este jovem cavaleiro é detentor de oito cavalos, que cuida carinhosamente como companheiros fiéis

No Centro Hípico Casa do Outeirinho, na freguesia do Louro, em Vila Nova de Famalicão, João Pedro Gomes é quem melhor conhece os cantos ao terreno, já que todos os dias – menos ao domingo – a sua rotina o traz para ali. “O hipismo é a minha paixão, é a minha vida. Dedico-me a 100%, sou cavaleiro profissional e trabalho todos os dias para obter os melhores resultados”, assume o jovem considerado uma promessa, mas já com bastantes provas dadas do seu talento. Campeão de Júniores em 2011, vencedor do Grande Prémio de Madrid em 2014, Vice-campeão de Seniores em 2015, entre muitos outros galardões, João Pedro Gomes encaminha-se agora para a competição nacional de saltos de obstáculos de categoria C II da Bluewater Tour, no Centro Hípico de Braga, em Palmeira, nos dias 23 e 24 de setembro.  Mas vamos à história de João Pedro Gomes: “Eu monto desde que me lembro. Penso que comecei com cinco anos. A minha primeira casa de treinos foi o Centro Hípico de Joane. A minha família não tinha qualquer ligação aos cavalos, por isso, esta paixão foi algo que nasceu comigo e com o meu irmão. Mas desde sempre que levamos isto muito a sério! A determinado momento do percurso, os meus pais transformaram este local num centro hípico, inicialmente aberto ao público (mas hoje já não), para nos dedicarmos ao treino para as competições”. Atualmente, João Pedro Gomes é um nome bem conhecido do universo hípico nacional, mostrando uma audácia entusiasmante e uma vontade crescente por trilhar um caminho de sucesso. Relativamente ao concurso organizado pela BlackUnicorn, as palavras de João Pedro Gomes são francas e diretas: “É um projeto de louvar. Há poucas iniciativas destas em Portugal. Eu próprio tenho que sair muitas vezes do país porque não há competições suficientes e a um nível de exigência satisfatório. Será ótimo ter aqui perto de casa um evento a este nível, que pretende evoluir”, afirma, aguardando com expetativa o momento em que competirá num Centro Hípico de Braga remodelado e com imensa ânsia de crescer.

Já no Centro Hípico de Braga, encontrámos Carlos Corsino da Silva, o diretor da BlackUnicorn, responsável pela organização da prova, e João Paulo Ramos, o homem que, prontamente, põe mãos à obra para fazer tudo acontecer. Mas a nossa atenção está voltada não para as questões técnicas que preocupam estes homens, mas para a graciosidade dos gestos de Maria João Ramos, que delicadamente limpa o seu companheiro Ultissimo. A jovem de 17 anos, que já competiu no Campeonato da Europa, mas que nos últimos anos se afastou da modalidade por falta de apoios, é também uma das participantes nas provas de saltos da Bluewater Tour. Montando desde pequena, conquistando a sua presença em campeonatos nacionais e em provas no estrangeiro, Maria João Ramos vê nesta competição um regresso há muito esperado. “Estou feliz porque não estava à espera que esta oportunidade acontecesse. Ainda para mais, este espaço é simplesmente muito bonito”, diz. À beirinha das águas do Cávado, como manda a lógica da Bluewater Tour (eventos a ocorrerem nas proximidades dos mais belos espelhos de água), o Centro Hípico de Braga tem recebido a presença de Maria João Ramos pelo menos três vezes por semana, para treinos rigorosos, elevando sempre a fasquia – ou neste caso, a barra. “A minha intenção é ‘limpar’ as provas todas!”, confessa, divertida, a jovem cavaleira.

Mas como as questões técnicas são a maior das preocupações para que tudo corra pelo melhor, voltámos ao Carlos Corsino da Silva que, entre indicações, vai apontando a José Santos, o chefe de pista deste evento, algumas das suas intenções. José Santos é a pessoa responsável pela conceção dos percursos que os cavaleiros vão ter de fazer no dia do concurso. Vindo de uma família com uma ligação bastante forte a este desporto, o chefe de pista que também já foi cavaleiro tem sob sua alçada vários aspetos importantes: a qualidade do piso, a direção do sol ao longo do dia, o local onde o público vai estar posicionado para que, em frente aos espetadores, esteja a parte mais interessante do percurso. “Tenho também de adequar a prova à qualidade dos cavaleiros que irão estar presentes. Como é lógico, uma prova de 50 ou 80cm, que aqui no concurso chamamos prova de formação, não tem o mesmo nível de exigência de uma prova de 1,20 ou 1,30m. Por isso, tenho de fazer essa adequação. É uma tarefa que exige muito trabalho de casa, mas é muito giro”, esclarece-nos José Santos, revelando-nos que estão garantidos já saltos entre os 50cm e 1,20m. “Potencialmente poderá haver uma prova aberta de 1,30 m, mas dependerá dos cavaleiros”.

Com uma atenção redobrada às condições do piso, já que sem um ótimo piso não há bons saltos, José Santos afirma que o desafio da Bluewater Tour tem sido satisfatório. “Está a ser muito engraçado trabalhar com o Carlos, porque, não sendo ele do meio hípico, tem perspetivas de quem vê os concursos de fora e torna-se divertido ver as suas preocupações, normais de quem pensa já num nível superior. Como é lógico, estes primeiros concursos servirão para conhecermos a reação dos cavaleiros e do público e melhorarmos progressivamente para as próximas competições. Tenho a certeza que, no concurso do final do mês, de categoria B, que já envolverá prémios monetários, a atração dos cavaleiros pela Bluewater Tour será ainda maior”, garante o chefe de pista.

De passo a passo, a Bluewater Tour encaminha-se para o seu objetivo principal: organizar um Concurso de Saltos de Obstáculos Internacional no próximo ano, em Braga. “É possível, claro. E será ótimo trazer finalmente concursos com um nível mais forte para o Norte do país. Não falo do caso específico de Braga, porque mesmo o Porto tem perdido bastante esta componente competitiva do hipismo. É sempre bom assistirmos ao nascimento destes projetos”, assegura José Santos.


4 vídeos 725 followers 2 posts