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Braga Bacoca Barroca

Claúdia Sil

Texto: Claúdia Sil |

Em 1122, os Templários que não eram mais do que um punhado de freires da ainda não confirmada Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, ainda Portugal não era reino, andavam em Braga, a tal capital do comércio, a fazer compras.

Compraram propriedades diversas, contíguas, junto ao rio Este. Por exemplo, atesta documento que D. Sicuva Aires e seus filhos venderam, por dois morabitinos, a “vobis Iherosolimitani Templi militibus” Paio Gontemires e Martinho Pais, propriedade situada junto de um poço do hospital que os freires já possuíam. Tinham por local de culto a ermida do Espírito Santo. Ficava junto ao campo dos remédios que assim se chamou por aí se tratarem os enfermos. Este local ficava fora das muralhas. Os templários agiam assim, cuidadosamente, fora de portas. Aí foi um hospital até à última década. O de S. Marcos. No largo Carlos Amarante. 

Os homens de manto branco compravam em Braga os “bragales”, os locais, Celtas e tradicionais panos brancos de linho, de 7 varas de comprimento, grosseiros, fortes, usados pelos pobres , adequados para aguentar a viagem até à quente Jerusalém. Desataviados. 

O arcebispo D. Paio Mendes, da poderosa e rica família dos senhores da Maia, irmão do Lidador, recebe a Confirmação do Couto de Braga por D. Afonso Henriques, também designado por Documento Fundador de Portugal. Entrega depois ao seu sobrinho, D. Gualdim Pais, nascido em Amares, 4º Mestre da Ordem do Templo, a Ermida do Espírito Santo. Entre transações está a de uma herdade, de Santa Tecla. Não terá sido por acaso escolhido este nome, desta mulher turca distinguida com os títulos de “igual aos apóstolos” e “protomártir entre as mulheres”, modelo de asceticismo feminino. D. Paio Mendes sagra outro local de culto, extra muralha, de um outro mártir, o bracarense S. Victor. Todos os movimentos dos Templários respiram o desejo de regressar à inocência do culto original, a entrega por algo mais elevado. 

Braga, dos amigos de D. Afonso I, rivaliza com Santiago de Compostela, dos galegos amigos de D. Teresa. D. Gualdim Pais, quando regressa de uma viagem de cinco anos à Terra Santa, trás as relíquias de S. Marcos. O autor de um dos quatro evangelhos. Apóstolo, do grupo dos 70. Ficam na discreta ermida. Os Templários são degredados e muito do seu património edificado entra em declínio. D. Diogo de Sousa manda guardar os restos mortais de S. Marcos e procede à demolição da ruína da ermida do Espírito Santo. Mais tarde D. Rodrigo de Moura Teles encomenda em Roma um túmulo digno das relíquias do Santo. Lindíssimo, em mármore branco com incrustações de jaspe, a valiosíssima pedra da antiguidade que os judeus conhecem por ser a pedra fundamental da futura Nova Jerusalém. 

Dizem que não é certo que seja S. Marcos que ali está, na igreja com o mesmo nome, barroca. Muito mais inconsistente é a história dos restos mortais de São Tiago, encontrados em Compostela. Hoje S. Victor é uma igreja barroca. O palácio do Raio, onde foi o hospital, é barroco. Tudo o que se sabe sobre os templários aconteceu depois de Braga. Uma cruz da ermida original sobrevive. Foi dourada, abarrocada, e grita presa no bloco de pedra para que alguém ensine este outro caminho, o do apóstolo escritor. Flor de Lis.


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