Revista Rua

Apreciar. Cultura

CCVF: um ecossistema em questionamento permanente

Nos bastidores do Centro Cultural Vila Flor (CCVF) vimos um organismo que pensa, age e que se desdobra em várias funções. É o que acontece antes do espetáculo subir ao palco.

Luís Leite

Texto: Luís Leite |

Ao longo dos anos, a Oficina constituiu-se num projeto de intervenção cultural da cidade vimaranense. Em 2003, cresceu e desenvolveu-se aberta à contemporaneidade. Em 2004 assumiu novas responsabilidades – a organização dos principais eventos culturais da cidade que se juntaram às anteriormente assumidas. O ano de 2005 marcou o panorama cultural de Guimarães através da inauguração do Centro Cultural Vila Flor. Outrora realizados nos mais variados locais da cidade, os eventos culturais ganharam um espaço privilegiado. Cabe à Régie-Cooperativa A Oficina a gestão deste espaço cultural desde a sua inauguração, em setembro de 2005. Fomos descobrir este organismo complexo e perceber o que acontece antes do espetáculo subir ao palco.

A CRIAÇÃO É FUNDAMENTAL

Estamos no Centro Cultural Vila Flor onde somos recebidos por Bruno Barreto, assessor de imprensa. Enquanto visitamos o edifício encontramos no elevador (por onde todos os artistas passam) a menina da sorte — um manequim que funciona como amuleto e nos mostra também o espírito deste lugar. Já no Café Concerto conversamos com Rui Torrinha, a cargo da Programação Artística do CCVF.

A intenção passa por uma programação disruptiva e provocatória. Procura-se a excelência da criação num tempo e esse tempo é aquele que vivemos no momento. Há uma urgência em documentar o que acontece neste território para captar, desenvolver e apoiar, mas nunca para desvirtuar a essência dos projetos artísticos. Na programação, Rui Torrinha tem a cidade sempre presente em pensamento e encontra no planeamento o segredo para estar na vanguarda. Não se seguem tendências, corre-se em busca do que é novo e valioso, procurando dessa forma um posicionamento na linha da frente: “Aquilo que Guimarães faz, no planeamento e no pensamento que tem, é detetar aquilo a que nós chamamos de autores. Aqueles artistas que sentimos que têm uma urgência em criar, que têm uma mensagem dentro deles e que têm um caminho e uma obra para desenvolver. Isto é fundamental para nós”. Há também uma preocupação com a contribuição para a formação de uma identidade cultural no país. Mais uma vez, isso acontece com a criação. “O que define o nosso tempo? Quando alguém daqui a uns anos estudar o que hoje acontece, o que vai definir o nosso tempo serão as obras criadas”. O equilíbrio da programação das várias áreas artísticas é também uma preocupação: a dança, o teatro, a música e o novo circo, as artes visuais e o serviço educativo. Há uma constelação que encontra o equilíbrio na relação de todas as partes. No CCVF, a programação está focada nas artes contemporâneas e na agenda não se veem obras que estejam ou possam ser replicadas ao lado: “Guimarães é Capital Europeia da Cultura e dentro da nossa programação, talvez mais na dança porque é uma área mais aberta, há uma preocupação permanente com a renovação que implica, por vezes, que os artistas sejam capazes de se reinventar”, explica Rui Torrinha.

Como é que tudo começa? Muito antes do espetáculo acontecer há um primeiro contacto com o artista e a negociação consequente e formalização das condições. Numa fase intermédia, idealiza-se como o espetáculo irá ser montado, e aqui entra a técnica e a produção. A programação desenha um plano e difunde a informação a todos os departamentos para que possam dar seguimento aos seus trabalhos. “Aquilo que me compete nessa fase já é uma espécie de acompanhamento. Acolho os artistas e dou as boas vindas para perceber como estão. Acompanho os trabalhos à distância na relação com as equipas e tento perceber se está tudo a correr como planeado. Depois observo o resultado, isso também é uma tarefa do programador: perceber quem são as pessoas que frequentam e como é o seu comportamento com aquilo que o programador propõe”.

“São muitas horas de café e chocolate à mistura”

Na Sala de Ensaios conversamos com Lara Soares, do departamento de Educação e Mediação Cultural. O que é transversal e, ao mesmo tempo, específico deste departamento relaciona-se com uma “espécie de chapéu que cobre os vários equipamentos da cidade”. O CCVF é a casa mãe: “É daqui que o projeto se monta, é aqui a sede, é aqui que estão as pessoas. O coração está aqui. É quase como um polvo em que os bracinhos expandem pela cidade”. Este departamento atravessa as outras áreas de programação, sendo aqui considerado também como uma área de programação. “É um departamento que trabalha para todas as idades, desde os três meses até aos 100 anos, se for preciso”. Há um entendimento diferenciado sobre o seu papel de serviço educativo, não se focando apenas no trabalho para a juventude ou para as crianças. “Esta ideia da educação é por vezes vista por um lado da escolarização, que é uma vertente que não nos interessa muito. Interessa-nos a ideia de mediação e de atravessamento”.

Para Lara Soares, o segredo passa por “não ter medo de arriscar” e, quando se cometem erros, que eles “sejam motores de coisas novas”. A programação do departamento está direcionada também para especialistas, para pessoas que “estão a trabalhar com outros olhares sobre aquilo que podem ser as nossas áreas de intervenção”. Estes equipamentos permitem que o trabalho não incida apenas no âmbito das artes performativas, mas também na linguagem das artes visuais, numa linguagem ligada às ciências sociais ou à antropologia e até à etnografia com a Casa da Memória.

A equipa reúne-se com muita frequência. Há partilha de ideias, têm reuniões de café, almoços e jantares. “Acabamos por ser amigos uns dos outros”. Lara diz que esta equipa acaba por ter outra equipa por trás, que é quem monta e faz com que este projeto aconteça. No final, “são muitas horas de café e chocolate à mistura”, termina Lara com risos à mistura.

“Vivo, normalmente, sobressaltado pelos imponderáveis”

Pelo labirinto de corredores que ligam os edifícios dirigimo-nos para conversar com Luís Antero, diretor do departamento de Instalações. “Gosto de olhar para isto como se fosse a minha casa”. O CCVF é um organismo vivo e a noção do papel de cada um neste ecossistema está bem estudado. As respostas são assertivas e bem definidas. O mais importante é tornar isto o mais viável possível para que as estruturas possam perdurar no tempo. Guimarães tem uma série de edifícios culturais e os mais emblemáticos estão a cargo da Oficina. Numa primeira fase, o Centro Cultural Vila Flor e, agora, também a Plataforma das Artes e da Criatividade, o Centro de Criação de Candoso e a Casa da Memória de Guimarães, sem esquecer Espaço Oficina —  a primeira casa da cooperativa. A vida diária do CCVF é preenchida por várias ocupações e todas as semanas passam por aqui diversos e diversificados eventos. “Cumpre-nos a nós gerir e tratar destes equipamentos culturais. A mim, em primeira instância, cumpre-me ter os edifícios preparados para receber os espetáculos”. Mas não só de espetáculos vivem estes edifícios. Há congressos, exposições, debates e o trabalho de geri-los pode, por vezes, ser invisível. “É um trabalho que deve ser invisível”. Os espaços gigantescos têm enormes custos operacionais: “Acabamos por tentar fazer com que os orçamentos curtos que temos cheguem”. Os cuidados a ter passam por ter os espaços limpos, acessíveis e bem tratados para que possam servir o seu propósito. Luís Antero diz que o seu trabalho é bastante escrutinado e difícil de prever: “Temos sempre tudo preparado, mas eu vivo sobressaltado pelos imponderáveis. Uma chuvada, portas que não abrem, uma lâmpada que funde, ar condicionado que avaria ou qualquer outra coisa que não funcione”. Neste departamento há também uma visão bem sublinhada para o futuro: sustentabilidade. “Depois de 2012 vivemos épocas difíceis porque duplicamos os equipamentos, mas não os orçamentos”, diz.

“Um desafio diário, constante e contínuo”

Estamos sentados na plateia do pequeno auditório. Para Pedro Silva, diretor de Produção, o seu trabalho passa pelo desafio de coordenar um conjunto de sete pessoas, mas também a concretização das ideias e projetos que chegam da programação. O dia a dia passa por estar com os artistas para depois levá-los até ao público, proporcionar aos artistas a melhor receção e acolhimento possível e a gestão diária de orçamentos e verbas previamente estabelecidas. “Estou nesta posição há dois anos e assumir a direção de produção é o concretizar de um sonho. É um desejo que está concretizado”, diz com orgulho. Depois de várias fases, o programador nunca se desliga, mas passa a ser a produção o contacto direto com os artistas. Hotéis, restaurantes, articulação com a equipa técnica, programação e articulação com a comunicação e a bilheteira. “Somos uma área que unifica tudo isto porque tem toda a informação”. Com os artistas internacionais aproveitam-se os 40 minutos de viagem desde o aeroporto para se abordar não apenas as questões técnicas e práticas, como sensibilizar o artista sobre a perspetiva histórica e cultural da cidade. “Há uma necessidade de fazer uma pequena introdução sobre o nosso histórico”.

A Oficina tem uma companhia de teatro e aí a Produção também assume um papel na perspetiva da criação. “Produzir uma peça de Teatro da Oficina é diferente da de uma companhia externa. Porque a que vem, vem montada e um espetáculo do Teatro Oficina é uma ideia a ser concretizada”.

Pedro Silva agradece pelo legado que foi deixado e assume que é preciso pensar o presente: “Há que honrar e dar continuidade ao passado que nos dá orgulho, mas há outro desafio que é incutir a tua forma de pensar e encarar o que é a produção, sem contrariar o que nos foi dado pelo passado, mas sobretudo pensando como fazer produção num tempo novo que é o de hoje”.

“Nada é repetível no nosso trabalho”

A comunicação e o marketing têm um papel fundamental no CCVF, são a voz que comunica com o exterior e a ponte com o público e a imprensa. Durante vários anos, a equipa era uma só pessoa: Marta Ferreira. À medida que a cooperativa foi adquirindo uma dimensão maior houve também a necessidade de reforçar o departamento. Neste momento, todos têm funções bem definidas e distribuídas. Bruno Barreto tem o papel da assessoria de imprensa e gestão das redes sociais. Apesar de cada um ter o seu papel, todos sabem fazer de tudo. É a partir do departamento de comunicação que se dá a conhecer ao público a agenda que se tem para oferecer. É necessário haver uma relação muito próxima entre a Comunicação e a Programação: “Somos o primeiro departamento a saber os próximos meses de programação porque precisamos dessa antecedência para saber que irá acontecer”, diz Marta Ferreira. Bruno Barreto complementa: “Estamos sempre a tratar a novidade. Sempre com coisas novas. Nada é repetível no nosso trabalho”. Mas há tarefas que todos os dias têm de ser cumpridas além de uma prospeção para passar a mensagem ao maior número de pessoas. “Estamos sempre à procura de soluções inovadoras para chegar a novos públicos. Temos já um público fidelizado, o que é muito importante, mas queremos captar novos públicos e chamar a atenção aos mais distraídos”. Para Marta, o cuidado com a imagem é uma das principais missões: “Acho que posso dizer que o CCVF ganhou grande parte da sua notoriedade graças ao cuidado e rigor que sempre apresentou com a imagem gráfica. Há sempre duas preocupações, quer o texto quer as imagens que são divulgadas”.

Há que gerir diversas ferramentas de comunicação, não só as mais tradicionais que passam pela agenda, resumindo a oferta cultural, como os outdoors que funcionam para chamar à atenção. Mais recentemente, a presença online tem cada vez mais peso. Como se gere isto tudo que é um mundo imenso? “Estamos constantemente a trabalhar para a frente. A pensar no próximo mês”, diz Marta Ferreira. Assume ainda que o prazer de trabalhar aqui deve-se a uma aprendizagem constante: “O nosso trabalho é aliciante porque não é rotineiro. Todos os meses temos espetáculos diferentes. O que é fixe na nossa profissão e na nossa área é todas as semanas haver coisas novas”.

Bruno Barreto, que nos acompanhou ao longo do dia, diz ainda que relativamente ao seu trabalho de assessoria de imprensa, realiza o acompanhamento dos vários entrevistados, quer nas próprias instalações quer nas entrevistas gravadas no exterior, como em TVs e rádios. Também faz o acolhimento de todos os críticos de arte (teatro, música, dança, artes visuais), desde a sua chegada até ao momento da sua partida com a articulação das reservas necessárias (alojamento, alimentação, bilhetes…).

“Quando a cortina régia abre, está tudo ali impecável”

Estão na sombra dos espetáculos, mas são quem leva a obra à cena. É a Equipa Técnica, uma equipa de sete elementos composta pelo diretor, direção de cena, departamento de luz, som e vídeo. Helena Ribeiro está cá há oito anos e ainda se lembra do primeiro dia. “Tinha terminado o meu curso em teatro, mas já trabalhava e sabia como tudo funcionava. Vim para um espaço novo e a minha estreia foi nos Festivais de Gil Vicente, foi um bocadinho assustador”. O momento mais stressante é o abrir de portas. “Equipa técnica, intérpretes preparados, maquinaria a funcionar, tudo tem de estar a postos e às vezes há imprevistos”. Quando se está a fazer um espetáculo, a preocupação é com o público. “O espetáculo só é visto se tivermos do outro lado alguém que assista”. Tudo é pensado no produto final, desde a montagem de som, luz e maquinaria, o controlo dos timings: “Às vezes pode ser ingrato porque estamos nos bastidores e quem recebe os aplausos, naturalmente, são os atores, mas há uma máquina que está por trás que faz com que aquilo aconteça. Mas acaba por ser recompensador quando as pessoas com quem trabalhas te dizem ‘obrigado, correu mesmo bem’”.

Um Centro Cultural que nasceu onde era um palácio

O Palácio Vila Flor é um edifício do século XVIII, onde funcionam a área expositiva e as salas de reuniões. Em 1976, a Câmara Municipal de Guimarães adquiriu este Palácio que se encontra num espaço onde estão os diferentes complexos que compõem a globalidade do CCVF. Apesar de independentes entre si, estão interligados, o que permite a construção de um diálogo sem passar pelo exterior.

O edifício do CCVF está equipado com dois auditórios, salas de reuniões, área expositiva, restaurante, café-concerto, parque de estacionamento. Da Quinta Vila Flor mantiveram-se intactos os jardins de buxo, que se desdobram em socalcos fronteiros à fachada norte do Palácio. Para além dos auditórios, o Centro Cultural Vila Flor possui quatro salas de reuniões, com iluminação natural e artificial, e equipadas com ar condicionado.

O Grande Auditório tem cerca de 800 lugares. A estrutura do palco é contraposta à italiana, rectangular, em forma de caixa aberta na parte frontal, composta por parede de fundo e por duas paredes laterais que ao encontrar a boca de cena — uma moldura, que faz a separação nítida entre o público e a cena — forma a “quarta parede”. Tem também uma caixa de palco enorme dividida em áreas denominadas de “quarteladas” que se situam no chão do palco, facilitando marcações de posicionamento e movimentação de cenários, atores e elementos das cenas (e ainda com acesso directo ao sub-palco) de forma a possibilitar a sua retirada para realização de diversos efeitos. O pé direito é enorme e é muito importante porque ‘esconde’ o que o público não deve perceber. O auditório conta também com um ecrã de cinema cinema e tem uma concha acústica, usada em espetáculos de música erudita, que reflete o som projecto pelos músicos, não sendo, na maioria dos casos, necessário amplificar os músicos. Nas varandas e na teia encontra-se a maquinaria de cena, sendo que na teia encontram-se os motores que facilitam as mudanças de cenário e servem para produzir efeitos. O fosso de orquestra é motorizado  e tem um elevador com quatro níveis distintos: sub-palco, fosso de orquestra, plateia e palco (após retirarmos as cadeiras prolonga a area de cena). O Pequeno Auditório serve para eventos de menor dimensão e tem 200 lugares, espaço para secretariado, bengaleiro e foyers com bar para serviços de coffee break.

2017

A nova temporada cultural será marcada pela mudança de direção artística do Teatro Oficina, que ficará agora entregue a João Pedro Vaz. Destaca-se a continuação da aposta nos cinco festivais âncora: O Festival Gil Vicente, dedicado ao Teatro, o GUIdance, focado na dança, o Festival Manta, assim como o Guimarães Jazz e o WestWay Lab. Na dança, destaque para a edição de 2017 do GUIdance com a confirmação da vinda à cidade do coreógrafo belga Wim Vandekeybus, com "Speak low if you speak love".  O Centro Internacional das Artes José de Guimarães vai ser casa da primeira bienal de arte e paisagem, a LandArt, pensada no âmbito da ambição da cidade em ser Capital Verde Europeia em 2020, e estruturada em conjunto com o Laboratório da Paisagem e a Câmara Municipal. Nos dias 13 e 14 de janeiro, as atenções recaem sobre a 5ª edição dos Encontros para Além da História, promovidos pelo Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG). Nesta edição, os Encontros serão dedicados ao universo poético de Herberto Helder. A 27 de janeiro, o Café Concerto do CCVF inicia uma nova temporada sob o título SOM de GMR. Cabe a Captain Boy as honras de abertura deste ciclo de concertos que se prolongará até ao mês de maio. Captain Boy apresentará em Guimarães o seu álbum de estreia, aguardado com grande expectativa por parte do público.


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