Revista Rua

Apreciar. Música

"Cada disco é como uma fotografia"

O concerto ainda não tinha começado, as cortinas ainda não tinham subido e já se ouviam palmas. Os Capitão Fausto em conversa com a RUA antes de subirem ao palco do Theatro Circo.

Sara Lopes

Texto: Sara Lopes |

São 21h23 e as portas do Theatro Circo ainda não abriram. Quem caminha pela avenida abaixo, pode ver uma fila de pessoas que atravessa a rua de uma ponta a outra. Foi preciso abrir as duas portas para toda a gente entrar. É o concerto dos Capitão Fausto e os bilhetes esgotaram.

É a segunda vez que a banda de Tomás Wallenstein, Manuel Palha, Domingos Coimbra, Francisco Ferreira e Salvador Seabra vêm a Braga. Da primeira vez, tocaram no gnration para um público em pé. Agora, enfrentam um público sentado e cheio de expectativa.

O concerto ainda não tinha começado, as cortinas ainda não tinham subido e já se ouviam palmas. E foi precisamente por detrás das cortinas, num ambiente mais informal, que Domingos Coimbra falou com a RUA. Num tom divertido, prometeu tentar responder a todas as perguntas como se todos os Fausto estivessem sentados à volta da mesa.

Porque é que os Capitão Fausto têm os dias contados?

Na verdade, a razão está sentada aqui ao lado. Foi o Ricardo (o road manager) que deu o nome ao disco. A uma semana de darmos o nome ao disco, ainda não tínhamos decidido nome nenhum e o Ricardo disse qualquer coisa do género: vocês estão acabados ou têm os dias contados. E nós dissemos: então, vamos chamar ao álbum Capitão Fausto têm os dias contados! E ficou. Até porque acho que a cena dos dias contados está um bocadinho ligada com as letras do Tomás e acabou por fazer sentido. Não foi por ser um nome que nós achássemos incrível. Foi mais por não entrar em contradição com o disco, com as letras, com a temática abordada. Então aceitamos. Foi muito engraçado porque muita gente achou mesmo que nós íamos acabar… E pronto, não há má publicidade.

No verão do ano passado passaram por imensos festivais de verão. Alguns grandes e outros nem tanto. Qual foi o que mais gostaram de fazer? Qual foi o mais especial?

Eu acho que gostámos mais de Paredes de Coura. Todos os anos vamos ao festival. Desta vez, não fomos acampar. Quando tocámos a primeira vez, em 2012, fomos para lá acampar e, desde então, vamos para lá sempre. Acho que é um sítio especial. Eu também gostei muito do Rock in Rio e do Super Bock Super Rock, mas Paredes de Coura foi o mais especial e o que correu melhor. Nós saímos do concerto com uma boa sensação e estava imensa gente. Foi uma celebração. Foi ótimo. Foi no palco principal e foi assim numa hora que acho ótima: fim do dia a passar para a noite. Para mim, é a melhor hora para dar concertos no verão.

Normalmente a essa hora as pessoas costumam estar dispersas. Isso não aconteceu?

Naquele caso, não. Nós, nos dias anteriores, até fomos ver concertos, para ver como era àquela hora. E a ideia com que ficamos foi que no nosso dia estava mais gente. Por isso, ficámos obviamente contentes.

Preferem festivais de verão ou concertos noutro tipo de salas, como coliseus ou teatros?

Estamos a aprender agora um bocado isso. Nós estamos muito mais habituados a tocar para pessoas em pé. Mas acho que isso retira imenso prazer, tanto a nós como ao público, do que tocar num ambiente um bocadinho mais tranquilo.

O coliseu foi em pé…

Sim, é verdade, mas eu acho que o coliseu não se encaixa nem num, nem noutro. É um bocadinho diferente.

Mas no coliseu foi um concerto só vosso. Em festivais há mais bandas…

Mas eu gosto da pressão. Temos 40 ou 50 minutos para fazer um bom concerto. Isso é bom para treinar a nossa capacidade de síntese. E, por exemplo, nestes concertos, já temos uma maior capacidade para pensar o tempo que é necessário para fazer um concerto passar pelos nossos três discos. Depois, pode ter uma desvantagem. Muitas vezes vê-se se um concerto corre bem ou não se as pessoas saltarem muito ou pela quantidade de movimento que está a haver. Ou, pelo menos, é essa a ideia generalizada do que é um bom concerto. Quanto mais barulho e mais movimento, teoricamente, diz-se que o concerto é melhor. Mas não funciona assim nos teatros ou quando o público está sentado. O que não é necessariamente mau. Vê-se que as pessoas estão mais atentas e eu acho que a energia é diferente. Mas acho que também é muito estimulante porque uma pessoa quando está sentada e não está a perder tempo com os movimentos, está mais atenta à música. Então, a vantagem dos concertos nos teatros é esta. É um concerto mais para repararem no pormenor e onde nós podemos fazer um alinhamento mais pensado, com mais momentos de música, muito mais do que em festivais ou em clubes, que é onde nós tocamos 80% das vezes. Lá, os concertos são mais energéticos. Aqui, são mais contidos. Acho graça a isso. Tenho achado interessante.

Como foi acabar um ano tão bom para os Capitão Fausto com a estreia no coliseu de Lisboa? Alguma vez pensaram que iam ter lotação esgotada?

Não pensámos que ia ter lotação esgotada. Não pensámos, quando lançámos este álbum, que fossemos tocar ao coliseu. Mas fomos desafiados. A nossa equipa achou que estava na altura. A ideia não foi nossa, mas nós não nos opusemos e acho que superou as expectativas que tínhamos. Até porque eu acho que a maneira como o palco estava e o facto de já não tocarmos em Lisboa há algum tempo contribuiu para o concerto ser uma celebração, de certa forma. E sentiu-se isso da primeira à última música. Se nós tivéssemos tocado vinte vezes a mesma música, também teria sido parecido. Ou seja, acho que estava lá toda a gente. Para já, claro que as proporções eram gigantes, mas todos os meus amigos, e são bastantes, estavam lá. Isso também é bastante interessante. Eu, no meio de imensas caras que não conheço, vi imensas caras que me são familiares e isso, hoje em dia, em concertos nossos, já não acontece tanto. Quando éramos mais miúdos e dávamos os primeiros concertos, as 80 pessoas que lá estavam, eu sabia quem eram. Com o passar dos anos, cada vez menos se começa a reconhecer as caras. E ainda bem, acho eu! Ali no coliseu, de repente, parece que as pessoas de cada fase das nossas vidas estavam lá. Famílias todas em peso e depois também uma data de gente que cresceu a ouvir a nossa música e que, felizmente, ainda a quer continuar a ouvir. Superou as nossas expectativas.

Durante o tempo em que me estive a preparar para esta entrevista, encontrei esta frase: “Como raio os Fausto cresceram tanto em tão pouco tempo? Não sei responder.” (Ricardo Romano, no site Altmont). Agora pergunto-vos: Como raio os Fausto cresceram tanto em tão pouco tempo?

Eu acho que são mais os críticos ou as pessoas que ouvem de fora que conseguem fazer uma afirmação dessas. Acho que nós, na verdade, não mudamos assim tanto. A única coisa que nós tentamos fazer, disco após disco, trabalho após trabalho, concerto após concerto, é tirar lições daí. Como é que se pode fazer melhor qualquer coisa. Quando um concerto não corre tão bem, identifica-se o problema e vê-se como é que ele pode correr melhor. Quando se faz a primeira música demora-se imenso tempo. Quando se faz a segunda já se sabe, mais ou menos, em termos de trabalho, por exemplo, como é que se há de trabalhar melhor. Não para a música ficar melhor, mas para o processo ser mais rápido. Se nós crescemos em alguma coisa, foi no trabalho. Acho que hoje em dia somos mais trabalhadores. Mas dizem imenso que crescemos, mas não mudou assim tanta coisa. Trabalhamos mais, acho eu. Levamos isto um bocadinho mais a sério. E arranjamos um método. Quanto mais tempo passa, à partida, melhor fica o método de trabalho. O que não quer dizer que as canções fiquem sempre necessariamente melhores. Acho que trabalhar, e haver uma lógica de trabalho quando se tem uma banda, ter um método e não um horário, faz com que a probabilidade de o trabalho ficar bem-feita seja maior. Há uma parte que depende da inspiração e de um momento qualquer, e se nós soubéssemos trabalhar com essa inspiração constante já estamos em Las Vegas, milionários. Mas não sabemos. Por isso, é preciso saber reunir as condições para isso se tornar mais fácil. Eu acho que isso foi uma coisa que nós aprendemos mais neste disco. É o método de trabalho que ajuda imenso. Por isso, não diria mais crescidos. Andamos a trabalhar um bocadinho melhor e mais.

Um dos aspetos mais salientados nas críticas sobre este terceiro álbum foi a letra das músicas. “Nunca as letras cantadas pelo Tomás foram tão audíveis e soaram tão honestas como neste disco” ou “Wallenstein deu um salto quântico no drible das palavras: ganhou uma desenvoltura à B Fachada e cada vez mais trata a língua portuguesa por tu”. Como é que depois de dois discos, um tanto ou quanto distintos, se chega aqui – às letras deste terceiro álbum?

Eu acho que é de fases. Cada disco é como uma fotografia. É uma altura que se está a passar. Este disco coincidiu com uma fase que acho que é interessante, que é a fase de sair de casa, a fase de acabar os cursos e tomar a decisão, que em Portugal eu considero que é difícil, de seguir carreira na música, porque nem toda a gente consegue fazê-lo. Quando se faz isso, está-se a tomar um risco. Não é propriamente a carreira que qualquer pai desejaria para um filho. Nunca se sabe se a carreira de música vai dar a segurança que é necessária para ter uma vida estável. Mas foi essa a decisão que tomamos nós os cinco. Acabámos todos os cursos e resolvemos que não havia outra coisa que queríamos fazer, senão música. Então o disco fala, entre outras coisas, sobre isso. É uma fase de crescimento: o sair de casa, o ter de assumir as responsabilidades, etc. Que no fundo, eu acho que é uma das razões pela qual estas letras chegaram mais às pessoas. Eu gosto das outras letras do Tomás, naturalmente, mas estas chegaram às pessoas de uma maneira que eu considero óbvia, até. Toda a gente acaba por passar um bocadinho por esta fase. E o Tomás tem uma maneira bastante interessante de escrever, porque torna aquilo muito terra a terra. Torna-se um assunto pelo qual todos nós já passámos. Depois acho que ele tem talento para conseguir dar uma volta às coisas, tornando-as com graça. Ao mesmo tempo, são letras leves, mas têm uma mensagem interessante. E a mensagem fica dita. Mas, por exemplo, no Pesar o Sol não era tanto esse o objetivo dele. Era mais expansivo. Normalmente, as letras do Tomás refletem-se em fases, de acordo com aquilo que ele está a passar. Naturalmente ele conseguiria explicar melhor. Mas isto é a ideia que eu tenho e as pessoas identificaram-se um bocadinho mais com estas letras porque acho que tem um carácter mais generalista.

Vocês têm sempre presente, passo o pleonasmo, a presença do público ou às vezes vocês esquecem tudo à vossa volta e é como se estivessem em Alvalade outra vez, simplesmente a tocar entre amigos na sala de ensaio?

Eu tenho um truque que é: eu como vejo muito mal, geralmente não toco com óculos. Ou seja, para mim, estar a olhar para pessoas ou não é indiferente. Mas acho que a certa altura já é mecânica. Nota-se que estão lá as pessoas, mas já estamos habituados. Aquilo é uma rotina. As coisas vão-se fazendo.

Começaram no psicadélico e agora então numa onda mais Pop. É este o registo que vos caracteriza verdadeiramente como banda? Ou acham que num futuro disco, podem voltar a evoluir para algo diferente?

Acho que pode estar diferente, mas eu acho que em termos de linguagem será sempre Pop. Até os anteriores, eu não os considero propriamente como música psicadélica. Acho que está dentro de uma linguagem de cultura Pop. Em imensos sentidos. Claro que tem umas derivações um bocadinho diferentes, mas a tendência é ir fazendo. E provavelmente vai ser diferente deste álbum. Eu tenho dúvidas que nós façamos alguma vez uma coisa igual, mas acho que a linguagem vai ser na música Pop.

Tem se notado uma evolução ao longo dos álbuns, tanto a nível individual como ao nível da banda. Olhando para trás, mudavam alguma coisa ou voltavam a seguir o mesmo caminho?

Eu acho que fazíamos tudo igual. É com os erros que se cometem que as coisas caminham para um sentido diferente. E nós, por exemplo, neste disco, cometemos imensos erros e ainda bem que os cometemos, se virmos bem as coisas. Porque a partir de um erro, ou de uma coisa que estava a correr pessimamente, tivemos de puxar por nós para fazer uma coisa melhor. Por isso, acho que não fazia nada diferente, sinceramente.

“É que para mim Capitão Fausto é mais sobre a força da amizade que nos une desde miúdos e não o facto de sermos uma banda. Um gangue. A cada dia que passa não sei se estou mais grato por estarmos a crescer como banda ou como amigos”. Palavras do Domingos Coimbra. O que é que a vossa amizade traz para os Capitão Fausto?

É mais o que Capitão Fausto traz para nós. A razão pela qual eu disse isso é essa. Claro que a banda, neste momento, é o nosso futuro, mas eu acho que Capitão Fausto só funciona porque nós temos uma relação muito próxima. E é por termos uma relação próxima que consegue haver futuro para a banda. Porque no dia em que a relação não for a melhor ou as coisas estejam a correr pior, a banda perde a razão de ser. Nós antes de sermos banda, éramos amigos, por isso, a ideia sempre foi essa. Numa lógica de banda, normalmente conseguimos separar muito bem aquilo que é o trabalho e as discussões de trabalho e aquilo que são as discussões de amizade. Muitas vezes, isso não acontece nas bandas. Ou com os anos essas coisas vão-se perdendo. Connosco, por acaso, isso não aconteceu. Até porque, lá está, nós damos muita importância à amizade que temos. Mais do que damos à banda. Eu diria que é isso.

Ainda vivem todos juntos? Quem é que lava a loiça?

Sim! Ah, todos. O Manel é o que lava menos (risos).

O ‘casamento arranjado’ com o Samuel Úria, no Famous Fest foi bem-sucedido? Ou acabou em divórcio?

Não acabou em divórcio! Aliás, estivemos em Tondela recentemente e pedimos uma grande salva de palmas ao Samuel Úria, que é de lá. Gostámos imenso de fazer esse concerto com ele. E foi, de facto, um casamento arranjado, pelo manager do Samuel Úria e pelo Paulo Ventura, o nosso manager.

Gostam deste tipo de ‘parcerias’?

Nós não somos os maiores fãs de fazer parcerias porque somos um bocadinho esquisitos, às vezes. Mas acho que quando as ideias são divertidas, nós fazemos. Não fizemos muitas até hoje... E gostámos imenso de fazer com o Samuel. Antes de mais porque ele é incrivelmente talentoso, então aquilo foi tudo relativamente simples. Ele tem aquilo a que se chama star quality. Ele chegava ao ensaio, tocava as coisas e estava a soar logo bem.

Como foi voltar a tocar em Braga? Desta vez, no Theatro Circo?

Esperamos um bom concerto. Conseguimos afinar, finalmente, o alinhamento, ou seja, a conjugação que nós consideramos ser a melhor entre os álbuns Gazela, Pesar o Sol e Dias Contados. O concerto do gnration foi em pé e eu acho interessante este concerto sentado. É bastante diferente. Nós não somos nada apologistas de pedir às pessoas para se porem de pé, quando elas estão sentadas. Nós não fazemos isso. Além disso, acho que a sala é linda. Acho que é das salas mais bonitas que eu já vi! Comparo-a ao coliseu... O Rui, o nosso técnico de luz, dizia que é um teatro à italiana e eu gosto bastante. Mesmo gira.

A cortina do palco da sala principal do Theatro Circo já subiu. Os Capitão Fausto já estão no palco e desta vez, Manuel Palha “tem direito a um teclado decente”, como disse, na brincadeira, Domingos Coimbra. O público pode estar sentado, mas mesmo assim conseguem-se ver todas as cabeças a abanar, ao som de “Semana em Semana”, “Os dias contados” e “Corazón”.

Um dos momentos mais especiais da noite chegou com “Amanhã estou melhor”, com um arranjo diferente. Bem dizia Domingos Coimbra que esta noite tinha direito a um concerto diferente, mais pensado e onde se revivessem memórias dos três álbuns - GazelaPesar o Sol e Capitão Fausto Têm Os Dias Contados.

Antes de irem embora não podia faltar “Morro na Praia” e “Alvalade Chama Por Mim”. A noite terminou com “Tem de ser”, o último single de Capitão Fausto Têm Os Dias Contados. E lá teve de ser. O concerto acabou. E não foi preciso os Fausto pedirem ao público para se porem de pé porque foi exatamente assim que o concerto acabou: com uma salva de palmas de um Theatro Circo cheio e em pé.

 


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