Revista Rua

Apreciar. Música

Captain Boy - Levar o tempo a bom porto

Captain Boy empresta o nome a Pedro Ribeiro

Nuno Sampaio

Texto: Nuno Sampaio |

Não foi Captain Boy Convida, foi a RUA a convidar, falamos com o Captain Boy sobre o seu primeiro álbum "1" e as histórias que com ele, e antes dele, vieram.

O que queres que eu te pergunte?

(risos) O porquê da capa do álbum.

Qual é a história da capa do álbum?

Quando comecei a fazer o álbum, tinha em mente construí-lo de uma maneira mais crua, mais natural, com sonoridades cruas e sem grandes efeitos. Naturalmente o álbum tomou esse rumo, cru e despido, que fala sobre algumas fragilidades. No final, quando decidi estruturar a capa, lembrei-me de usar uma fragilidade minha que é o facto de eu ser daltónico, por isso, não consigo ver o que está aí escrito. Sei que é o número 1 porque me ajudaram a escolher. 

De onde surgiu o nome Captain Boy?

Tinha um primeiro nome, The Boy With The Big Feet, só que era muito extenso e pouco perceptível. Entretanto estava a falar com um amigo meu que tinha lido uma história, O Capitão dos Quinze Anos, de Júlio Verne, que deu a ideia de Captain Boy. Eu gostei. É um nome que engloba duas realidades: o puto, mais criativo, e o capitão, que coloca ordem no processo criativo.

Quando é que surgiu a ideia da música na tua vida?

Desde pequeno que gosto de música. O meu pai era baixista e ensinou-me a tocar bateria. Mais tarde, fui estudar para Barcelos, onde tive um ou dois projetos com amigos. Eu tocava bateria, mas queria um instrumento que fosse mais fácil tocar e cantar ao mesmo tempo: decidi aprender a tocar guitarra. Quando regressei comecei a compor. Passado um ano achei que já tinha alguma coisa para mostrar e foi aí que decidi gravar. 

Vives apenas da música?

Gostava, mas não. 

Um dia esperas conseguir viver apenas da música?

É um pergunta um bocado subjetiva porque eu gostava de viver só da música, mas não inteiramente do meu projeto. Acho que não seria fiel a mim mesmo se vivesse apenas do meu projeto. 

Quais são as perspetivas para o futuro? 

Gostava que isto desse pelo menos para eu ter tempo para criar. Neste momento não é possível. Gostava de percorrer a Europa ainda este ano. Já tenho dois concertos marcados para Espanha, mas queria conseguir tocar noutros locais, também para conhecer gente nova e tocar com pessoas diferentes. 

Algum sítio em Portugal que ainda não tocaste e gostasses de tocar?

Gostava muito de ir aos Açores. A uma ilha pequena como o Faial. 

É o teu primeiro álbum. Alguma música mais especial para ti? 

Talvez a “A Boy With The Big Feet” por ser o primeiro nome para o projeto e também por ser a música que explica melhor o projeto em si. Tem algumas sonoridades, para mim, muito interessantes como uns tambores de fanfarra que nos remete para aqueles soldadinhos de chumbo que víamos em filmes quando éramos crianças. É uma música que me faz viajar. 

Tens alguma mensagem especial que queiras transmitir com o álbum?

Eu decidi fazer uma análise do disco apenas quando estivesse completo. Acho que transmite uma espécie de viagem, tanto temporal como espacial, que nos remete, não só para uma infância, assim como para uma idade mais adulta. É um bocado confuso e eu sou um bocado confuso a explicar (risos).

Qual é a tua história com o fotógrafo Johan Bergmark?

Quando fui tocar ao Belém Art Fest, um fotógrafo enviou-me uma mensagem para o Facebook a pedir para se encontrar comigo. Ele ia ver o meu concerto e disse-me que gostava de me tirar umas fotos. Eu aceitei. Na altura não o conhecia. Entretanto fui pesquisar o nome ao Google e reparei que tinha um trabalho fantástico! Fotografou personalidades muito conhecidas, não só da música mas também do cinema, como Tarantino, Irmãos Cohen, artistas que eu admiro muito! 

Como é que correu a sessão fotográfica?

Foi brutal! Depois do concerto pegou em mim e colocou-me em situações algo constrangedoras e claustrofóbicas. Por exemplo, fiquei no meio de duas colunas. O Johan explicou-me que faz isso para tentar captar o lado negro das pessoas que fotografa. Foi um gosto enorme tê-lo conhecido. 

 

Podes explicar como foi o processo de criação do álbum?

A  “Ballerine” e a “Borders and Land" foram escritas no mesmo dia. Foram gravadas de uma forma crua e natural: uma guitarra, o micro a captar tudo e o amplificador a enviar os sons diretamente para a mesa. O resto das músicas foram todas construídas por camadas como faço sempre.

Criaste todas as músicas sozinho?

Sim, excepto a “Honey Bunny” que é do Gil, o meu produtor. Antes de entrar em estúdio tinha muitas músicas novas que o Gil ainda não tinha ouvido, por isso, fomos criando as tais camadas: primeiro o ritmo, depois uma linha de guitarra, outra linha de guitarra e o baixo. No final, tiramos o ritmo todo e colocamos aquele que queremos. 

Como criaste as músicas sozinho, qual foi o teu processo individual? 

Eu tenho que fazer tudo à noite quando chego do trabalho porque de manhã não consigo acordar a tempo para nada! Basicamente, começo a tocar uma música e a cantar qualquer coisa. No dia seguinte, ouço a gravação, vou buscar uma ou duas palavras e começo a escrever a música a partir daí. As letras componho à hora de almoço. Vou para o café sozinho, ponho os phones, ouço qualquer coisa e escrevo. 

A primeira vez que vi um concerto teu foi em 2015 na Missa do Galo em Guimarães. Lembro-me de teres uma mala velha. Levas sempre essa mala para os concertos?

Eu sempre usei malas. Esta foi a minha namorada que me deu. Eu levo sempre algumas coisas pessoais para os concertos. Dentro da mala tenho um bloco onde tento sarrabiscar alguma coisa, letras -  apenas por uma questão de segurança - a maior parte das vezes não as uso. Também uso os mesmos sapatos durante um ano, sem nunca os trocar. Gosto de olhar para eles e sentir que ali existe história. Não é superstição, é uma mania qualquer. Agora comprei umas sapatilhas e não quero mais nada (risos). 

Tens um projeto recente que se chama O Capitão Convida. O teu primeiro convidado foi o Steve Smyth. Como é que surgiu esta ideia e onde queres chegar com este projeto?

 Surgiu precisamente do convite que fiz ao Steve. Ele é a minha maior influência viva na música e enquanto artista. O nome surgiu porque gostava muito de conseguir convidar mais músicos para virem cá tocar. Nada muito estruturado, para já.

Tens alguém em mente para um próximo convite?

Tenho alguns artistas que gostava de convidar, mas não sei se os consigo trazer cá. 

Trazer cá alguém é um processo muito complicado?

No caso do Steve não foi muito complicado. Ele é australiano, mas estava a passar uma temporada em Barcelona. Se ele estivesse na Austrália seria completamente impossível. Não existem assim tantos apoios e as coisas apenas são possíveis através da boa vontade das pessoas. 


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