Revista Rua

Saber. Entrevista

Carlos Veloso

“O mundo do espetáculo é viciante”

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Com uma experiência de mais de 20 anos no ramo do espetáculo, Carlos Veloso é o homem que faz as coisas acontecer sem ser visto. É aquele que enche espaços, seja o Multiusos de Guimarães ou o Meo Arena, não sendo cabeça de cartaz. Envolvido na produção de espetáculos, e não só, através da CV Music, Carlos Veloso é um nome forte nos bastidores do mundo da música em Portugal.

Como é que o Carlos se inicia neste mundo do Show Business?

Comecei esta atividade com 17 anos, com um grupo de amigos, através de uma associação a que eu estava ligado e era presidente. Decidimos fazer um espetáculo, tentando fazer crer que, na altura, fazia falta esse tipo de eventos na cidade de Guimarães. Se calhar, conheci as pessoas certas e fui convidado para participar mais vezes. Um passo de cada vez, as coisas foram andando até que criei uma empresa em sociedade com um familiar, que durou até há algum tempo. Depois, chegou a hora de dar o passo crucial: ter a minha própria agência, a CV Music, que é, na realidade, a menina dos meus olhos. É onde tenho posto em prática tudo aquilo que aprendi.  Têm sido momentos fantásticos. Estou grato por este trajeto de 21 anos.

 

Na prática, o que faz a CV Music?

A CV Music hoje é uma empresa que já não é só de Guimarães. É uma empresa nacional e até internacional - lembrando, por exemplo, o caso concreto de que, em maio, estaremos em Angola, no Festival Sons do Atlântico, com a Ana Carolina e o Seu Jorge. Estamos a falar, para termos uma ideia, de uma CV Music criada há um ano e que, durante esse ano, produziu cerca de 50 espetáculos.

A CV Music tem a sua atividade principal na ligação às Câmaras Municipais, às empresas municipais, às marcas, aos privados que investem na música. Essa é a nossa principal área de negócio, que nos preenche cerca de 70% da nossa atividade. Portanto, nós projetamos, criamos, produzimos vários eventos para o cliente final. Por outro lado, a CV Music tem alguns artistas exclusivos, fazendo o seu agenciamento. Neste momento, a Ana Carolina e o Seu Jorge são dois artistas em exclusivo da CV Music para Portugal. Os seus concertos são responsabilidade do nosso departamento de agenciamento e management. Temos ainda um terceiro departamento que é enquanto promotor. A CV Music, tal como fez agora com o Dengaz nos Coliseus, tenta apostar num determinado projeto, arriscando nas bilheteiras e no sucesso do projeto para o futuro.

Destaco ainda o nosso Trio Elétrico, um equipamento único e exclusivo, o maior da Europa. É um camião equipado com som, com luz, com camarins, com geradores, que permite fazer espetáculos, ações de marcas, marketing político...

 

Como descreve o seu dia a dia?

Eu passo muito tempo ao telefone, muito tempo mesmo! (risos) Mas devo dizer, e com a maior das modéstias, que o meu dia é perfeitamente normal. Sou pai de dois filhos, acordo bem cedo, há cerca de um mês tentei implementar um ginásio... Depois, chego ao escritório. Felizmente, trabalho com uma equipa que me conhece já muitíssimo bem e isso facilita muito a interação. A partir do momento em que entro no escritório não tenho hora para sair. E não tenho Facebook, não tenho Instagram, não sou adepto das redes sociais a não ser para trabalho. Porque não gosto de expor a minha vida.

 

Realmente, apesar de estar envolvido neste mundo de muitas vedetas, o Carlos parece-nos um homem muito recatado...

Sim, porque eu acho que uma das maiores lições que tirei ao trabalhar com artistas foi perceber que por detrás do artista está uma pessoa. E o artista que não consegue tirar a personagem de artista para ser a pessoa em si, não tem condições para trabalhar comigo. Aliás, acho que 90% dos negócios que fechamos é pela capacidade que nós temos em criar um à vontade com as pessoas. Acho que consegui, nestes 21 anos, separar aquilo que é o meu trabalho, que precisa de ser para os holofotes, e aquilo que é a minha vida privada. Se eu mencionar 20 espetáculos, 90% das pessoas que estão a ler esta entrevista diriam que estiveram presentes neste ou naquele, mas nenhuma dessas pessoas pode dizer que me conheceu. E isso é que me dá ainda mais prazer no trabalho que eu faço. É engraçado porque muitas das vezes, olho para as pessoas que estão num concerto cheio e dou por mim a pensar: se não fossemos nós, estas pessoas não estariam aqui. Há pessoas que se vão conhecer hoje e que, se calhar, vão namorar, casar e ter filhos. Há pessoas que se vão zangar e vão acabar o namoro. Há pessoas que não se veem há anos ou meses e encontram-se. Esse é o regozijo que as pessoas não veem.

 

Isso faz com que não possa haver falhas num espetáculo da CV Music?

Nós trabalhamos para não haver falhas, mas se as houver aceitamos as reclamações de bom grado, desde que sejam dadas com respeito, com educação e com conteúdo. Não pode haver uma reclamação, como já aconteceu, de uma pessoa querer de volta o dinheiro de um bilhete porque a plateia era sentada e a pessoa da frente tinha a cabeça grande (risos). Se uma pessoa nos fizer uma sugestão, obviamente que estaremos cá para aprender. Mas eu acho que, em cada dez concertos, nós temos uma capacidade de sucesso absoluto em oito deles.

 

Mas já aconteceu haver falhas mais graves?

Sim, já tivemos um sistema de som que a meio do espetáculo deixou de dar... Já tive um espetáculo no Meo Arena com lotação esgotada, onde o elevador que transportava a artista para o cimo do palco encravou a meio. E a artista começava a tocar piano, fazendo com que as pessoas olhassem à volta sem ver nada. Foi uma situação que pode ter demorado dois minutos a resolver, que o público não percebeu, mas eu acho que, se sofresse do coração, nesta situação teria morrido (risos).

Quer então dizer que o mundo do espetáculo não é fácil?

Não. Esta é a minha definição: se o mundo do show business fosse fácil e fosse uma coisa de ciência exata, os grandes grupos económicos e os fundos financeiros investiam... e não investem! Porque é que não investem? Porque é um negócio de muito risco. Se eu resumir o que é um concerto, posso dizer que só há uma certeza: não há certezas! O artista pode subir e cair. O artista pode rasgar a roupa. A corda do violão pode rebentar. A pilha do microfone pode acabar. Alguém do público pode atirar um telemóvel. Alguém pode tentar subir. Uma senhora pode ir à casa de banho e, com o salto, escorregar, cair e temos de chamar o INEM. Dois senhores podem beber demais e pegar-se à pancada. Ou seja, há uma série de fatores, que não dependem de nós, que são impossíveis de controlar. E não estamos a falar ainda de quando são espetáculos ao ar livre. Aí é uma velinha ao São Pedro (risos).

O mundo do espetáculo é viciante. Por isso é que eu acho que nós temos de trabalhar a magia e o glamour. Temos que lhe dar encanto... Nós trabalhamos com arte!

 

Vamos falar da preparação de um espetáculo. Os concertos da Ana Carolina nos Coliseus do Porto e Lisboa, que já estão a ser anunciados, contam com um período de preparação de quanto tempo?

Estamos a trabalhar nesses concertos desde dezembro... e os concertos são em julho. Existe, de uma forma muito simples, várias etapas: há uma assinatura de um contrato, há um acordo financeiro e depois há um envio de todas as necessidades técnicas do artista. Só para termos uma ideia, na tournée da Ana Carolina, estamos a falar de seis espetáculos. Portanto, em cada espetáculo haverá o envio das informações para cada um dos locais onde a artista vai atuar. A seguir, cada um dos locais envia uma espécie de contra rider, ou seja, diz à banda: vocês pediram x microfones de modelo x, mas nós temos o microfone y, ou seja, há um jogo de cintura para ir ao encontro das necessidades. Aí, a artista pronuncia-se sobre as alternativas que lhe são dadas. É como se fosse um jogo de ténis. Em termos de estadias, mandamos um link do hotel para os artistas se pronunciarem, aguardamos a aprovação dos restaurantes onde vão comer, as viaturas que vão utilizar, às vezes até o modelo e a marca porque pode haver preferências. Enfim, há um longo processo de pré-produção, mas isso facilita 90% dos stresses que possam existir no dia do espetáculo. No próprio dia, já passamos para um item diferente: a montagem e desmontagem por equipas técnicas que são contratadas.

 

A CV Music trabalha em regime de outsourcing nesses trabalhos técnicos, correto?

Exatamente. A CV Music, na essência que eu a criei, é uma empresa que tem uma estrutura fixa de três pessoas e tudo o resto é subcontratado. Mas, para termos uma ideia, no mais recente concerto do Dengaz nos Coliseus, tínhamos quase 60 pessoas a trabalhar. Do escritório somos três e a trabalhar estavam 60. Havia cerca de 57 pessoas em outsourcing.

 

Falámos há pouco das necessidades dos artistas. Em termos de exigências, já aconteceu ter de lidar com pedidos estranhos?

Felizmente, essa parte das exigências, nos camarins, não me compete. Só mesmo num SOS. Mas posso dizer que já tivemos marcas de champanhe difíceis de arranjar, por exemplo. Já montámos um autêntico buffet de sushi para um artista. Mas temos tido sorte com os artistas que trabalhamos. Não há muitas divas.

 

Mantém-se sempre atento ao mercado, procurando apostas de sucesso?

Sim, claro. A CV Music está agora envolvida num projeto chamado O Mundo da Sara, que eu conheci através da minha filha de três anos que me pedia para ver no telemóvel. Comprei o CD e levei-o para o colégio, entreguei à educadora para testar na sala com os outros meninos e, efetivamente, comecei a perceber que estava a ser criado um fenómeno. Funcionamos muitas vezes como olheiros num jogo de futebol. Temos de estar atentos. Portanto, em breve, contamos começar a fazer espetáculos no novo Parque de Exposições de Braga (PEB). Temos o prazer de ser de Guimarães, fazendo muita coisa na cidade, mas obviamente que teremos uma estratégia de nos expandirmos para Braga.

 

Essa expansão faz parte dos planos da CV Music para o futuro?

Para o futuro, queremos uma sustentação daquilo que temos. Queremos alargar o número de concertos internacionais e fazer alguns concertos de referência. Em breve, anunciaremos um grande artista internacional num concerto nacional, mas realizado aqui na região. Queremos aumentar o número de parceiros e o número de entidades que nos confiam as produções. Mas, efetivamente, para o futuro, queremos crescer e, obviamente, Braga é um mercado ao qual estamos atentos e não lhe demos mais atenção no passado porque efetivamente sentíamos necessidade de um espaço que nos pudesse acolher.

 

Essa ligação à região do Minho é importante?

Eu acho que a região já mostrou que gosta de espetáculos. Guimarães e Braga podem criar um polo superior, fazendo com que muitos artistas - como já acontece - troquem o Porto por Guimarães, pelo mercado que se criou e sobretudo devido às qualidades do Multiusos. Mas não há sensação melhor do que ter um Meo Arena cheio para 20 mil pessoas. É uma sala emblemática. A CV Music hoje é uma empresa de Portugal. 


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