Revista Rua

Saber. Entrevista

Carvalho Araújo

“Procuro estar na arquitetura de uma forma pouco cómoda”

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

É um dos nomes mais consagrados da arquitetura nacional e, com mais de 20 anos de sucessos, continua a querer imprimir nos seus projetos uma alma própria capaz de responder às necessidades de quem o procura. José Carvalho Araújo é o rosto do atelier Carvalho Araújo, sediado em Braga e o responsável por vários projetos icónicos no Minho: a Galeria Mário Sequeira, o gnration e a Casa do Gerês são apenas alguns dos exemplos.

[ Fotografia: Nuno Sampaio ]

 

Começaríamos por um exercício simples: eu sou uma cliente que quer construir uma casa. Quais são os seus pontos de partida para dar início ao meu projeto?

“Está a falar a sério?” (risos) Em primeiro lugar é preciso perceber se o cliente está a falar a sério ou não. Querer um projeto exige uma boa dose de coragem, até porque implica que o cliente se coloque nas mãos de alguém que, à partida, não conhece. Ou então conhece por intermédio de outros. Da minha parte, tento sempre conhecer o cliente e perceber aquilo que ele pretende. E o que ele pretende é sempre o ponto de partida, que entretanto eu vou questionando e pondo em causa até chegar àquilo que é, para mim, o entendimento da pessoa e das suas rotinas.

 

Já disse, noutras ocasiões, que é mais importante conhecer o cliente do que aquilo que ele quer.

O cliente não tem a obrigação de saber aquilo que quer, apenas tem necessidades normais. Por isso é que é fundamental que o arquiteto, depois de ouvir aquilo que o cliente tem para dizer, tente ir mais longe. Quando digo “pôr em causa”, é num bom sentido. É tentar que a resposta vá além daquilo que o cliente tem em mente e que geralmente se resume a questões mais gerais, como por exemplo o número de quartos, no caso de uma habitação. Mas nós podemos (e devemos) ir além disso. Os projetos não são para nós (embora os sintamos como tal) e isso é, a meu ver, motivo para sermos ainda mais exigentes. Um quarto nem sempre é apenas um quarto. Os espaços que compõem a habitação podem articular-se de diferentes formas. E tudo isto influencia as vivências de quem habita o espaço. Por isso é tão importante tentar conhecer a pessoa, a família, a empresa. A arquitetura é um ponto de partida, uma estratégia para qualquer coisa.

 

Considera-se um arquiteto irreverente, arrojado no seu modo de pensar os projetos?

Não me definiria com esses termos, mas procuro estar na arquitetura de uma forma pouco cómoda. Procuro sempre questionar, tentar propor algo que vá mais de encontro àquilo que eu acho que são as ambições do próprio cliente. Isso é o que procuro na arquitetura. Mais do que o “desenho”, interessa-me perceber e responder a essas necessidades.

[ Casa do Gerês, Portugal © NUDO ]

 

O atelier Carvalho Araújo é reconhecido pelas diferentes abordagens em termos de arquitetura, design de produto e direção criativa. Hoje, há pessoas que facilmente lhe reconhecem o mérito. Isso é importante num legado que já conta 20 anos?

O reconhecimento é importante, obviamente. Não sei se as pessoas nos reconhecem por determinado tipo de desenho ou registo... Acredito que seja mais pelo sentimento que a própria obra desperta. Procuramos sempre que o projeto transmita mais qualquer coisa, para além das questões associadas ao desenho do espaço. Depois, há aqueles projetos que ganham vida própria, que têm alma... Mas isso também depende da forma como as pessoas ocupam e dinamizam o espaço. A nossa função é criar as condições necessárias para que o edifício seja capaz de responder às diferentes necessidades que vão surgindo com o tempo.

 

[ Galeria Mário Sequeira, Portugal © NUDO ]

 

A Galeria Mário Sequeira, o gnration e a Casa do Gerês são três projetos no Minho, em tempos diferentes. São projetos que de alguma forma mostram as raízes do arquiteto cá em Braga. O facto de privilegiar uma sede em Braga e não noutros centros urbanos é uma mensagem?

Acho que é importante termos estas raízes. Braga é a cidade onde nasci e cresci e é uma cidade confortável e com bastante potencial. Não vejo razão para que a sede do atelier não seja em Braga.

Os três projetos foram realizados em tempos diferentes. São projetos distintos, com pedidos distintos, mas todos eles reforçam a preocupação que já referi, essa filosofia que defendemos e a quase obsessão por um desenho tóxico (no bom sentido), capaz de viciar as pessoas pelas soluções que dele resultam. Depois dos projetos estarem construídos torna-se mais difícil falar deles. É muito mais fácil vivê-los. A Galeria Mário Sequeira é um desses casos: é um projeto com 20 anos que ainda hoje permanece atual. Aliás, terminámos recentemente uma nova fase do edifício, um depósito de arte, que contribui para o reforço daquela tranquilidade e equilíbrio que se procurava no projeto inicial. Equilíbrio esse que é conseguido em grande parte pela anulação aparente do edifício principal. Mas quando lá entramos, tal como uma obra de arte, ele consegue despertar um sentimento nas pessoas. A Galeria é um reflexo daquilo que sempre defendemos: a arquitetura não precisa de cair em grandes exageros para ser bem conseguida. Neste caso, o próprio edifício apaga-se em detrimento daquilo que é o seu objetivo principal: expor obras de arte. Há um comentário bastante peculiar - e isso é, para mim, um retorno importante: “o edifício é uma obra de arte que alberga obras de arte”.

O gnration foi um projeto cujo programa se foi desenvolvendo à medida que ia sendo desenhado. É um projeto com uma vertente mais estratégica, onde houve uma grande preocupação em criar condições para o público a quem o edifício se destinava: os jovens criativos. Procurámos desenhar um edifício que permitisse uma apropriação fácil e intuitiva e, por essa mesma razão, é uma obra que permanece de certa forma inacabada. É um edifício provocador, que estimula o erro de uma forma consciente e natural, e onde cada utilizador é parte da história. Outra questão que se levantava em relação a este projeto era o papel que poderia assumir na cidade. E nesse sentido acho que é um projeto bem conseguido, porque se tratava de um edifício do qual toda a gente tinha ouvido falar, mas ninguém tinha uma memória visual do quartel da Guarda Nacional Republicana, e enquanto gnration conseguiu impor-se na cidade com uma identidade muito própria. E isso tudo através de uma conjugação de abordagens, tanto ao nível do tratamento dos espaços interiores como dos exteriores.

Hoje em dia, toda a gente conhece o edifício, talvez pelo corte que permitiu relocalizar a entrada... Relocalização essa que não só possibilitou uma organização interna muito mais simples, mas também a valorização da fachada lateral do edifício, permitindo ligar dois pontos importantes da cidade - o Campo da Vinha e o Mercado -, numa pretensão de ampliação da zona pedonal. O projeto de reforma do Mercado talvez seja já uma consequência desta estratégia. Tenho pena de não sermos nós a assumir esse projeto, até porque estrategicamente seria uma intervenção importante. Talvez conseguíssemos chegar mais facilmente ao estádio! (risos).

No entanto, e se é correto dizermos que o edifício se abre para a cidade, podemos igualmente afirmar que não se abre de forma imediata. E, desta forma, evitamos que o edifício se transforme num shopping. As diferentes fases pelas quais o gnration já passou trouxeram consigo diferentes formas de ocupação, mas ainda assim vemos que o edifício vai tendo a capacidade de responder a todas as necessidades que vão surgindo.

A Casa do Gerês reflete outro tipo de preocupações, desde as questões paisagísticas até à sensibilidade para com a linha da água existente no terreno - que foi necessário redesenhar devido às derrocadas a que os muros ficavam sujeitos nos invernos mais rigorosos. E tudo começou por aí. A Casa do Gerês é uma casa pouco convencional: é uma segunda habitação, para um cliente empreendedor que queria, para além da casa, algo que funcionasse como showroom. Um espaço com essa capacidade, com esse carácter de espaço social e que, ao mesmo tempo, mostrasse o produto que ele produzia e as suas capacidades funcionais. É uma casa que deve ser visitada quando há algo a acontecer lá dentro, para se entender como os clientes se identificam com o projeto e como os espaços respondem a essa dinâmica de vida.

São três projetos diferentes, para três clientes distintos. Um cliente privado-público na Galeria Mário Sequeira, um cliente público no gnration e um cliente privado na Casa do Gerês. Isto é, para mim, bastante gratificante. Poder trabalhar em todas estas áreas. Mais do que o próprio desenho em si, agrada-me perceber e trabalhar com as diferentes escalas que lhes estão implícitas.

 

[ gnration, Portugal © Hugo Carvalho Araújo ]

 

Se pudesse recriar algum projeto seu, o que faria de diferente? Há algum projeto que tenha ficado aquém daquilo que perspetivava?

Com certeza! (risos) Como tudo na vida, depende do momento: a forma como acordamos, a forma como abordamos as questões, a forma como somos abordados. É certo que hoje faria tudo de forma diferente. E isso não quer dizer que mudasse a minha forma de ser, mas como acredito que tudo se resume ao momento, provavelmente os projetos surgiriam de forma diferente.

 

Para além do atelier em Braga, marca também presença em São Paulo. Porquê esta aposta no Brasil?

É um pouco a mesma história do porquê Braga. Não houve necessidade de sair de Braga, mas houve necessidade de procurar outro tipo de desafios, outro tipo de escalas. O Brasil era um país que já conhecia, e que me entusiasmava por questões várias: gosto do povo brasileiro, gosto muito da forma de vida deles, da música, do cinema e, sobretudo, da forma espontânea como estão em todas as áreas, nomeadamente nas artes. Entretanto, porquê São Paulo? Fui convidado para participar num concurso de um edifício e o resultado foi bastante positivo, mas no final não nos adjudicaram a obra por não termos escritório lá. Então foi o passo natural. Abrimos o escritório e começámos imediatamente a desenvolver trabalhos.

[ Árbol, Brasil © Atelier Carvalho Araújo ]

 

Que tipo de projetos tem desenvolvido por lá?

São projetos com escalas diferentes. São culturas diferentes também. Nós temos uma formação em Portugal que valoriza muito os lugares e as pessoas. Por um lado, parece uma abordagem muito regionalista, mas é o que nos permite estar mais à vontade em qualquer parte do mundo. Se valorizamos as pessoas e os lugares, independentemente da parte mundo onde estivermos, vamos ter sempre essa preocupação. Mas as escalas dos projetos são diferentes porque as escalas na cidade são também elas diferentes. Temos projetos de edifícios de habitação que, aqui em Portugal, não têm essa escala. Neste momento, estamos a desenvolver alguns projetos culturais, como museus e centros de arte, com uma dimensão que aqui dificilmente conseguiríamos. E isso justifica ter lá o escritório. Apesar do desenvolvimento estratégico do projeto ser desenvolvido cá em Portugal.

 

Está preparado para mais 20 anos de sucessos? Consegue fazer uma previsão do futuro do atelier Carvalho Araújo?

Com ou sem mim... (risos) tem de ser com ambição! Espero conseguir tentar encontrar sempre respostas. Continuar sempre à procura de soluções que nos agradem, que nos surpreendam. Porque é isto que nos alimenta. Nós respiramos projeto. Essa é a única forma que eu vejo para continuarmos aqui: tentar encontrar modelos de abordagem que sejam cada vez mais interessantes ao nível das respostas que nos permitam dar.


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