Revista Rua

Saber. Reportagem

Colecionadores de memórias

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

São peças raras que despertam memórias antigas ou peças comuns que se vestem de joias aos olhos de quem as têm. As coleções preenchem um espírito de posse que, mais do que valor monetário, têm uma inexplicável estima sentimental associada. Dos carros às motas, passando pelos vinis que espelham uma paixão indescritível pelos The Beatles, os colecionadores são pessoas que trazem em cada objeto uma história, uma recordação, um momento que ficou para a vida.

Estamos em Braga, no reconhecido stand automóvel Stock-Car. Os modelos robustos que se apresentam para venda dentro daquelas portas envidraçadas podem surpreender-nos, mas não é essa a causa da nossa visita. Subimos as escadas, como quem se aventura numa viagem numa máquina do tempo: lá em cima, organizados ao gosto de Adriano Barbosa, os automóveis que contam uma verdadeira história de amor pelos motores apresentam-se como uma exposição para todos. Há belos Alfa Romeo, há Ford, há Fiat, há Lancia... “Hoje tenho cerca de 70 carros guardados e não posso dizer que tenho marcas favoritas”, conta-nos Adriano, um colecionador de automóveis clássicos (e não só – como podemos ver pelo charmoso Ford GT azul, estacionado num cantinho especial, ou pelos Ferrari, impecavelmente protegidos). “Esta história começou há quase 40 anos. Foi o meu pai que me aliciou, de certa forma. Ele vendia automóveis e eu desde pequeno que fui gostando também. Mas porquê os automóveis clássicos? Um dia, em 1976, um amigo do meu pai pediu-lhe ajuda para se desenvencilhar de um Citröen arrastadeira, queria enviar o carro para a sucata. Eu assisti à conversa e achei imensa graça ao carro. Na altura, o carro custava 1500 escudos, ou seja, 750 euros de hoje. Então, resolvi pedir o dinheiro emprestado ao meu pai para poder ficar com o carro. Lembro-me que o meu pai me perguntou: “mas para que queres isto? Não tem valor nenhum!”, mas lá o convenci a emprestar-me o dinheiro para o comprar. Fui buscá-lo, enchi-lhe os pneus, tirei-lhe o pó e trouxe-o para arranjar. Arranjei-o e guardei-o.  Passado uns tempos, encontrei outro carro que também gostei muito, um Volkswagen Cabriolet, e fiz basicamente a mesma coisa. Fui ganhando cada vez mais gosto, fui adquirindo e restaurando, sempre com as peças originais, e hoje tenho pena de alguns carros que vendi, mas não podemos viver de arrependimentos”, explica-nos Adriano, sempre alegre e bem-disposto.

Num passeio pelo espaço, com Adriano Barbosa como guia, compomos as peças deste verdadeiro puzzle de histórias de carros. Começámos por conhecer o menino dos seus olhos, o Lotus Elan S4, de 1970, de cor branca. Adriano tem dois destes modelos – o normal e o de competição. “Foi um carro que me marcou na minha adolescência. Quando tinha 16 anos e o vi pela primeira vez a circular em Braga achei-o tão lindo que me apaixonei imediatamente. Nunca deixei de gostar dele. Até o dono da McLaren tem um destes e usa-o todos os dias! Ele diz que só um génio como o Colin Chapman o podia ter inventado e que nunca se fabricou nenhum carro tão perfeito no mundo. Eu concordo com ele!”, diz-nos o colecionador. Entre os Alfa Romeo, a escolha por um preferido é difícil. “São todos tão charmosos, tão elegantes. Mas se calhar destacaria o Alfa Romeo que era da minha filha Adriana, quando ela tinha 18 anos. É um carro que vale pouco dinheiro hoje, mas foi o primeiro carro dela e, por isso, são memórias engraçadas”, explica-nos. Com MGA, MGB e MGC na lista da coleção, já para não falar nos Corsa GT, nos Minis 300 e 600, no Citröen 2CV que é o delírio do neto ou o Ford Capri GT completamente original, Adriano Barbosa mantém no espaço dois automóveis que muitas recordações lhe trazem. Recordações de momentos felizes na sua carreira de piloto: o SIMCA Rallye 3 que foi o seu primeiro carro de competição e o Ford Sierra RS Cosworth igual ao que conduziu quando foi campeão nacional de velocidade, em 1977. E quando lhe perguntámos se vendia esta coleção, a resposta é direta: “Vendê-los não faz assim muito sentido. Vendê-los é como vender um bocado de mim”, esclarece, acrescentando: “Eu não tenho modelos assim tão raros. Tenho realmente um carro que, em Portugal, só existem dois modelos, o meu e o de outra pessoa, que é um Ford GT. Mas de resto são carros que valem muito pouco – mas eu também não os vendo! Claro que recebo propostas, mas eu digo sempre às pessoas que estes carros não estão à venda, que é para não me aliciarem! Nesta minha coleção, não conta o valor do carro, conta o valor emocional associado ao carro. Basicamente, em vez de deixar os carros irem para a sucata, eu preservei-os”, afirma, sorridente. “É isto que move o meu espírito de colecionador. Isto é um pedaço da minha história!”, conclui Adriano Barbosa.

 

Da esquerda para a direita: Ford GT e Simca Rallye 3

Da esquerda para a direita: Lotus Elan S4 e Volkswagen Carocha Cabriolet

Os Minis 300 e 600 também fazem parte da coleção

O Beatle Coutinho

 

Numa das principais artérias do centro de Viana do Castelo, bem perto do Museu do Traje, marcámos encontro com Victor Coutinho antes que pudéssemos encaminhar-nos para o refúgio da sua coleção. De passo acelerado, como quem aguardava ansiosamente a nossa chegada, pomo-nos a caminho, em busca da mais prazerosa visão de um fanático por música. Victor Coutinho ou Beatle Coutinho, como os locais o apelidam, é colecionador de discos. São quase 40 mil discos de conhecidos nomes da música clássica, da pop, do rock e quatro mil discos da sua banda predileta, os britânicos The Beatles. Podemos apenas descrever que a sala de Victor é uma autêntica audioteca privada, com muitos segredos entre as prateleiras cuidadosamente organizadas. Vemos discos dos The Rolling Stones, de John Cale (assinados pelo próprio) e tudo o que sacia a sua vontade beatlemaníaca: vinis, CD’s, filmes em DVD e Blu-Ray, fotografias autografadas, cartazes da exposição que orgulhosamente organizou em Viana do Castelo... “Os The Beatles são a minha paixão. Eles trouxeram a modernidade, foram os primeiros a encher estádios com 60 mil pessoas, foram eles os percursores da moda, dos cortes de cabelo. Ainda hoje, depois de tantos anos extintos, são a banda que mais discos vende”, explica-nos Victor, contando-nos de cor histórias de amizades entre os membros da banda, mensagens subliminares nas capas dos discos, canções dedicadas a alguém específico... Victor sabe todos os relatos, todos os momentos cruciais do percurso da banda, todos os temas incorporados em cada disco. “É uma doença! Isto é um investimento em arte, é uma coisa maluca”, diz-nos Victor, com o seu jeito engraçado, sempre mencionando a incontornável ajuda da Avó Mimi, a “grande patrocinadora” da sua coleção. “O meu interesse pela música nasce por acaso. Em 1968, um afilhado da minha avó, ofereceu-me dois discos: World, dos Bee Gees, e Mighty Quinn, original de Bob Dylan, numa versão dos Manfred Mann. Imediatamente pensei: “para que quero isto? Nem tenho gira-discos!”. Durante um mês tive os discos arrumados, até que pensei oferecê-los ou então comprar mais alguns discos para justificar a compra de um gira-discos e fazer uns bailes de garagem. Fui adquirindo discos na loja do senhor Miguel Moura, que a certa altura já me chamava na rua para eu ir conhecer as novidades”. Uma dessas novidades foi o She Loves You dos The Beatles, de capa vermelha. Depois, em 1970, comprou o Let It Be e, de repente, já tinha 300 discos. “Dos 300 aos 3000 foi um passo. É nessa altura, a meio da viagem, que passo de acumulador a colecionador. O colecionador é aquela pessoa que vai mais ao pormenor, que procura a raridade. Tentei completar coleções que me faltavam e hoje tenho até discos repetidos porque é mais fácil voltar a comprar do que procurá-lo nas minhas estantes”, graceja, apesar de saber tudo o que tem e já ter ouvido todos os discos.

A paixão pelos The Beatles leva Victor a cometer loucuras, a preparar-se durante o tempo para adquirir certos discos em vinil raros, como é o caso do Yesterday and Today, com a famosa Butcher Cover que tinha sido censurada, com a colagem de uma nova imagem por cima da fotografia original dos quatro Beatles vestidos de açougueiros, rodeados de carne crua e bonecas desmembradas. Victor esteve 15 anos a tentar adquirir este tesouro. “Há muitos discos que foram mesmo difíceis de conseguir. Mas depois esta loucura ultrapassa tudo: entro na fase do disco assinado, nas capas diferentes... Se eu vir que não tenho aquele disco com aquela capa, compro. Posso ter 50 vezes o I Feel Fine ou o Help, mas se não tiver aquela capa eu compro novamente o disco. Tenho todas as edições do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, tenho o icónico Black Album, tenho a coleção dos discos pirata principais...”, enumera este Beatle Coutinho.

Na altura da despedida, diz-nos que aguarda ansiosamente a chegada da sua mais recente aquisição: um disco assinado por Paul McCartney e com certificado de garantia de Frank Caiazzo, especialista na matéria. Acenando-nos em jeito de adeus, exclama: “Eu agradeço a visita, em nome dos Beatles!”

 

Relíquias fotográficas

 

Ao longo de mais de 40 anos, o bracarense Luís Machado foi preenchendo os pedaços da sua história com peças que hoje se mostram como verdadeiras relíquias. Fotógrafo de profissão, começou esta sua aventura ainda menino na Foto Artine e depois na Foto Chic, até que abriu a sua própria loja Foto S. Vicente, perto da Igreja de São Vicente, em 1985. Neste percurso, Luís foi adquirindo máquinas fotográficas, que atualmente estão guardadas num espaço que já foi utilizado, no início do ano, para exposição ao público.

Mal entrámos nesse espaço, o sentimento de admiração é imenso. São perto de 600 máquinas fotográficas, de datas tão longínquas como 1851 – data da peça mais antiga exposta e também a sua preferida pelo trabalho que teve em colocá-la a funcionar. Sim, porque quase todas as máquinas que os nossos olhos veem estão utilizáveis. “Apenas 1% não está operacional. São mais ou menos dez máquinas que já tinham sido alteradas e, por isso, não consegui pô-las novamente a funcionar”, explica Luís. Na sua coleção, há máquinas do século XIX, há máquinas minis, médias e grandes, há máquinas de variadíssimas marcas, de Minolta a Canon, de Zeiss a Voigtländer. Há ainda máquinas de filmar, como a magnífica Super 8, ampliadores e utensílios de retoque fotográfico, verdadeiros Photoshops antigos.  “Tenho pena que, de momento, a exposição esteja fechada porque não há interesse por parte da Câmara Municipal para ter este espólio à vista de todos. É muita história que está longe dos olhos do público porque não me atribuem um sítio onde eu possa colocar as máquinas, fazer workshops, mostrar como as máquinas funcionam e até ensinar a fazer a manutenção, porque depois de mim, não sei quem vai cuidar desta coleção”, conta-nos Luís.

Abrindo as portas da sua coleção inestimável apenas àqueles que vêm ter consigo por curiosidade, Luís vai aguardando por um futuro mais risonho para este seu espólio de relíquias. Quem sabe um museu?

 

Chapéus há muitos!

Como diria Vasco Santana na inesquecível comédia A Canção de Lisboa, “chapéus há muitos”, mas Manuel Pinho deve ser quem tem mais. Pelo menos é o mais orgulhoso colecionador de chapéus que conhecemos, disso temos a certeza! Natural do Porto, mas entregue aos encantos da cidade de Braga desde que veio trabalhar para a capital do Minho, Manuel Pinho é um estudioso amante da arte da chapelaria e não é à toa que a sua coleção de cerca de 300 chapéus está minuciosamente protegida no Museu de Chapelaria de São João da Madeira. “Penso que o chapéu está no meu gene. Quando nasci, tinha uma tia que trabalhava no Porto em chapéus de alta costura. A minha querida mãe, como sempre, tratava-me e protegia-me duma forma inexcedível, começando por me colocar os meus primeiros chapéus, toucas bordadas à mão. Nos carnavais, a minha mãe mascarava-me sempre com os respetivos chapéus da vestimenta escolhida, como foi o caso do ano em que me vestiu de holandês, com o típico chapéu. Até aos nove anos usei boina ou boné, até que tive o meu primeiro chapéu oficial, o bivaque da Mocidade Portuguesa. O meu pai também sempre usou chapéu, um deles presente na minha coleção”, explica-nos Manuel, cuja vida profissional permitiu viajar imenso e criar, assim, o vício de trazer, como recordação, um chapéu característico da região que visitava. Mas vamos à coleção em si, principalmente à parte armazenada no Museu: 86 chapéus, 27 bonés, um lenço da Palestina com cordão, uma boina basca com lenço, um tricórnio de Veneza, um chapéu da cidade do México, um chapéu andaluz, sem esquecer os chapéus ou lenços desportivos que Manuel coleciona sempre que tem oportunidade. Ah, e não podemos deixar de dar a conhecer ao leitor que Manuel faz-se, quase sempre, acompanhar por um chapéu na sua indumentária, seja verão ou inverno. “Os chapéus existem por causa da necessidade, mesmo simbólica, de preservar a parte mais nobre do homem – a cabeça, e portanto, o pensamento”, refere-nos, mostrando com entusiasmo as suas pesquisas e as suas credenciais de membro da Confraria do Chapelão.

 

O mestre das Vespas

Na rua Alves Roçadas, em Vila Nova de Famalicão, há um antiquário que é o refúgio de longas horas de trabalho de um homem que tem várias paixões. José Augusto Mendes, proprietário da Augustos Antiquários e Ourivesaria, esconde-se entre relógios de parede, louças e tudo aquilo que o tempo parece querer deixar para trás. No entanto, há algo que lhe enche a alma e o transporta para fora daquelas paredes de história: um amor inexplicável pelas motas Vespas.

Quando chegámos à garagem onde as motas repousam, pensámos que José Augusto se tinha confundido. Não víamos Vespas, mas sim as míticas carrinhas Volkswagen pão de forma. “Eu tenho quatro carrinhas funcionais. São uma loucura, aguçam aquele sentido de liberdade, mas a minha verdadeira paixão são as Vespas, que estão aqui atrás”, diz-nos José Augusto, deixando-nos aliviados... e surpresos! A beleza das motas, bem polidas e conservadas, enchem o espaço bem limpo e organizado. Contámos pelo menos 18 motas, de várias cores e feitios. “Tudo começou com as vespas do meu falecido pai e depois fui adquirindo sempre mais. Mas sou eu que as restauro, com a ajuda do meu filho e outros familiares”, explica-nos o colecionador. “A mota mais antiga que tenho é de 1952, é das mais bonitas e tem um conta quilómetros que funciona ao contrário. Depois, a primeira mota do meu pai é uma 50 S, que eu também gosto muito pelo valor sentimental associado. A 50 SS, uma mota de competição que alcança os 130 km/h, também faz parte das minhas preferidas”, refere-nos José Augusto. Procurando os acessórios correspondentes ao modelo da Vespa, como os capacetes, este colecionador tem ainda na sua garagem um fabuloso carro Vespa 400, uma peça incrivelmente rara, de 1961. “A reconstrução deste carro Vespa foi o maior projeto que tive em mãos. Demorei dois anos a restaurá-lo. As Vespas, por norma, demoram seis meses, mas depende da vontade”, brinca. “É muito bonito vê-las assim direitinhas, com as peças originais, mas são precisas muitas horas de trabalho. É necessário tirar as ferrugens, desmontá-las, limpá-las, pintá-las...”, afirma. É por isso que esta coleção não se vende por nada: pelo espírito de sacrifício de José Augusto e do filho, que é praticamente o chefe da guarnição, responsável pela muda de óleos e pelas manutenções normais que fazem com que cada uma destas motas esteja funcional. “Dá-me muito orgulho esta coleção. E já sei que quero deixar este espólio para os meus netos”, assume, orgulhoso, o mestre das Vespas de Famalicão.

 


4 vídeos 725 followers 2 posts