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Companhia de Teatro de Braga

Rui Madeira: “A vida hoje é feita de pulsões, de coisas muito caóticas. O trabalho teatral, do meu ponto de vista, tem de se aproximar disso” 

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Fotografia: ©Nuno Sampaio

 

Deambulando pelas entranhas do Theatro Circo, encaminhamo-nos para a sala de ensaios, um espaço longe dos olhares dos espetadores. A sala é pequena comparada com a dimensão do palco que, pisos acima, o Theatro Circo apresenta. Há adereços, há espaço de atuação improvisado e há uma secretária que se destaca pelo seu ocupante, de olhar penetrante e atento a todos os gestos e palavras proferidas bem à sua frente. É Rui Madeira, o encenador da Companhia de Teatro de Braga que, orientando mais um ensaio de Imprudência, a peça que estreia a 9 de janeiro no Theatro Circo, nos recebe para uma conversa. Mas antes disso, há muito texto para “bater”.

Em cena estão dois atores, num diálogo intenso, ofegante graças aos repetidos movimentos de ginástica que uma das personagens executa. O ritmo é acelerado, não estivessem a poucos dias da estreia (previamente agendada para dezembro, mas devido a um atraso no envio das máscaras para esta peça, que viajam diretamente dos EUA, a Companhia viu-se obrigada a adiar a apresentação de Imprudência para o início de 2018). São palavras lançadas à interpretação de um público exigente: Rui Madeira pede repetições, recapitula falas, sugere interações e exemplifica ações, repetindo uma e outra vez até a cena se construir como deve ser. A postura, os olhares, a forma como cada passo é dado estão sobre escrutínio intenso do encenador. Não falamos de exigência desmedida, falamos de profissionalismo que faz obras de arte. A voz de Rui Madeira ecoa na pequena sala de ensaios, em francos momentos de auxílio ao trabalho de atores. Também ele invade a cena, demonstrando diretamente o tom do diálogo, representando os gestos e identificando erros que não poderão subir mais tarde a palco. Perante esta dinâmica, os restantes atores aguardam pacientemente pela sua vez de protagonizar, funcionando muitas vezes como ponto, balbuciando as frases que se perdem na memória dos atores em cena.  

Na sua pequena secretária com visão privilegiada para o ensaio, Rui Madeira guarda o seu guião já rabiscado, o seu relógio que cuidadosamente controla os tempos de trabalho e o seu jornal do dia. É um homem reconhecido pelo seu papel de promotor das artes, do teatro e do espetáculo, com uma boa disposição que o acompanha nas diversas tarefas do seu dia, quase cronometradas. Mas notamos alguma tensão na preparação desta peça: “Estamos tensos por causa do timing. Esta é uma peça que exige um trabalho específico devido às máscaras que algumas personagens usam, devido à fisicalidade dos atores... Também tivemos uma série de espetáculos e, portanto, o tempo de preparação não foi o ideal”, conta-nos o encenador, momentos após marcar mais um horário de ensaio com os atores que dão vida a esta Imprudência, de Tourgueniev, um dos maiores dramaturgos europeus e o mais latino dos escritores russos, já abordado nos primeiros anos da Companhia. “Tourgueniev escreveu esta peça como uma brincadeira amorosa, mas num tempo de transição também do ponto de vista estético. Ele escreveu sobre a condição da mulher e brinca com uma estética romântica ou cavalheiresca que deriva, de alguma maneira, para uma análise mais profunda do ponto de vista do estado social. Na história tradicional do teatro, temos a figura do velho que vive com uma jovem mulher. Há uma série de situações cómicas que partem desse cliché do velho que vive com uma jovem mulher que o trai. Esta peça é um pouco diferente porque parte da própria experiência do autor, que viveu durante 40 anos com uma cantora de ópera espanhola, que vivia em França e era casada. Nesta nossa abordagem, numa escolha que acontece porque nos últimos quatro anos trabalhamos sobre o tema Liberdade e Solidão, partimos de uma brincadeira, de uma ideia romântica já fora de tempo, apresentando um jogo que faz uma leitura dos tempos que correm a partir de personagens que estão hoje no nosso dia a dia”, descreve-nos Rui Madeira, explicando ainda: “Para nós, o velho marido é o Trump, a jovem casada que quer um affair é a Melania, o grande amigo do velho marido que zela pela mulher é o Putin e o jovem que vem para destabilizar e causar problemas deliberadamente é o Kim Jong-un, da Coreia do Norte”. É com este leque de personagens, identificáveis pelas máscaras (com exceção de Melania que, pela visão da Companhia, não precisa de máscara porque ela própria já é uma máscara) que Imprudência se posiciona como uma voz dos jogos de influência, do ponto de vista político, dos Homens que representam o nosso mundo. “Temos ainda uma personagem que é uma espécie de governanta e agente dupla, tentando negociar entre o velho Trump e o amigo Putin, que é a Merkel. À medida que vamos aprofundando o trabalho apercebemo-nos - algo que para mim é muito estranho - que a Merkle nos mostra um humanismo e uma preocupação que, caso fizéssemos este espetáculo há dois anos, provavelmente não a tínhamos incluído”, relata o encenador.

Aproveitando os gestos reconhecidos de Trump ou Putin, a fisicalidade das personagens torna-se no ponto mais importante desta peça, já que os rostos cobertos por máscaras não deixarão visíveis a intensidade dos olhares, por exemplo. “Isto exige-nos um enorme trabalho de observação”, assegura Rui Madeira. “Fazer um espetáculo de teatro é sempre contar uma história. O problema é: a partir de que parte é que se conta a história? A história do Capuchinho Vermelho pode ser contada a partir de várias personagens e, aqui, é a mesma coisa. Se bem que a maior dificuldade é encontrar uma fisicalidade gestual que acompanhe o sentido das palavras. Aqui, o Trump tem apenas três ou quatro gestos, ou seja, o ator tem de ter consciência do que está a interpretar para estar sempre numa postura que diz que tem sempre razão. O ator nunca pode interpretar como se estivesse a ser ponderado, porque o Trump não o é”, destaca.

Numa aproximação à vida e ao mundo que hoje observamos, esta peça protagonizada pela Companhia de Teatro de Braga é intensa, enérgica e, acima de tudo, uma aproximação à realidade, interpretada numa visão romântica, bem-disposta e até caricata. Não é todos os dias que vemos Kim Jong-un a tentar entrar à socapa na Casa Branca vestido de Pai Natal. “Eu penso que hoje temos uma metodologia que pode ser explicada desta forma: os atores têm sempre muito a tendência de achar que os espetadores são estúpidos e, portanto, que um ator em cena, a falar, tem que ser muito inteligente. Isso quando se abordam quase todos os textos provoca um peso e uma falta de ritmo muito grande nos espetáculos porque há sempre uma ideia de que os atores em cena têm que ser símbolos, uma espécie de deuses. Tudo o que é bom eles têm de transmitir. E a vida hoje não é isso! A vida hoje é feita de pulsões, de coisas muito caóticas. O trabalho teatral, do meu ponto de vista, tem de se aproximar disso, temos de encontrar uma noção de tempo que se aproxime muito da vida”, assegura o encenador, instigando o trabalho numa relação entre pessoas, olhares, sentidos e energia.

Com este apelo à realidade trazida para o palco, Rui Madeira tem já bem delineados os planos da Companhia para os próximos quatro anos. “Acabámos de fazer a candidatura, sabemos o que queremos fazer, mas estamos a aguardar para saber que dinheiro há”, refere. “Nós programamos a quatro anos, devido à natureza da estrutura e das relações que temos com estruturas nacionais e estrangeiras – até mais estrangeiras porque em Portugal é complicado programar a mais de um ano”, desabafa, adicionando que: “nos últimos quatro anos trabalhamos sobre a temática Liberdade e Solidão, sobre a Europa e sobre a memória da Europa. Todos os espetáculos tinham isso. Muito sobre solidão, sobre qualidade das nossas democracias, da ausência da memória, da vida e política europeia... Agora vamos trabalhar sobre as Fronteiras, nos mais diversos entendimentos que daí possam surgir: quer fronteiras físicas e geográficas, quer fronteiras mentais”, enumera. Com cinco espetáculos diferentes em mente, a Companhia de Teatro de Braga avança para 2018 com o mesmo espírito de força e vigor que já habituaram os espetadores minhotos. Na lista, podem já destacar-se Humidade, um texto escrito por Bárbara Colio propositadamente para a Companhia [encenação de Rui Madeira], que aborda o tema da mobilidade dos jovens no mundo; Os Diários de Adão e Eva, uma adaptação e encenação de Abel Neves de um texto de Mark Twain; o espetáculo para crianças e famílias apelidado O Rouxinol, de Hans Christian Andersen e encenação de José Caldas; Incêndios, um texto estritamente sobre os refugiados e as lutas no Médio-Oriente [de Wadji Mouawad e encenação de Toni Cafiero]; e as co-produções com companhias da Roménia, México, Itália, Alemanha, Ucrânia e Brasil, que acabam por funcionar como um importante vínculo para a estrutura da Companhia, tanto a nível de posicionamento internacional como de financiamento.

Com um futuro já organizadamente pensado, a Companhia de Teatro de Braga continuará a levar a palco as mais belas, intensas e desafiantes histórias do mundo que nos envolve. Na sua casa de abrigo, o Theatro Circo, as horas vão passando, entre ensaios e estreias, sempre com o mesmo entusiasmo, rigor e irreverência. Numa história artística que muito orgulha Braga, o Minho e até o país, esta é apenas uma parte da história de quem nos conta histórias. E agora, como diria Rui Madeira em bom som, “do início, por favor!”

 

 

 

 

 


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