Revista Rua

Saber. Reportagem

Da rua para o ringue

Luís Leite

Texto: Luís Leite |

Um ringue é um estrado elevado a cerca de um metro do solo e cercado por cordas que delimitam os seus respetivos lados. Um bairro também pode estar delimitado e fechado sobre si mesmo. Não é o que acontece nas Parretas, em Braga, onde nasceu a Parretas Team Boxe: um jogo de integração social num bairro em reformulação onde as aulas são gratuitas. Já há campeões!

Bairro das Parretas. Braga. São 20h00 de uma quinta-feira. As ruas despedem-se de um dia de trabalho, a chuva cai e as luzes do comércio local vão-se desligando. Mas no número 88 da Alameda da Fonte está tudo a começar. À porta, vários jovens anseiam pela chegada de Pedro Pereira, atual presidente da direção da Associação de Moradores das Parretas e treinador do Parretas Team Boxe. Está tudo pronto para começar um novo treino. 

“Todos são bem-vindos à Parretas Team”. Com 30 anos, Pedro Pereira abandonou a competição e concilia agora o seu emprego com a dedicação ao clube e à comunidade. “Vi necessidade de intervir promovendo uma mudança positiva no meu bairro. Uma vez que também mudei através do boxe quis que os jovens e adultos optassem por caminhos mais saudáveis e mais úteis para a comunidade”. O clube foi o primeiro projeto da Associação de Moradores do Bairro das Parretas e, atualmente, tem seis atletas federados, dois campeões regionais e um campeão nacional. São dezenas de participantes, dos cinco aos 30 anos, que todos os dias aguardam pela formação dada por Pedro Pereira, de forma gratuita. Os apoios são poucos, essencialmente patrocínio em géneros oferecidos pelo comércio local. Para frequentar o ginásio de boxe ninguém paga e os praticantes são sobretudo jovens. A pequena sala está ocupada com máquinas de musculação, sacos de boxe e diversos materiais direcionados para a prática desta atividade desportiva. Nas paredes há palavras de motivação, mas nota-se ainda a ausência de um ringue onde possam treinar. Pedro Pereira anuncia-o como uma novidade que virá no futuro. A corrida para obter mais apoios dá ânimo para concretizar esse que é um de vários sonhos para a comunidade. As conversações com o Município de Braga para conseguir obter mais apoios têm vindo a alimentar a esperança, mas tem sido uma batalha difícil, sublinha o treinador. “A Câmara só apoia a inscrição dos atletas na federação, mas o nosso foco é na ocupação das crianças”, afirma. 

A missão da equipa, como diz o seu slogan de forma evidente, é levar os moradores e essencialmente as crianças “da rua para o ringue”, mas este slogan não traz só consigo a ideia de uma missão, conta a história do seu percurso. No início era na rua que se faziam os treinos, “estivesse sol ou chuva, frio ou calor”. O objetivo do projeto passa por ocupar as crianças, proporcionando-lhes uma vida mais saudável e oferecendo ferramentas para desenvolver a autonomia, autocontrolo e melhorar a sua autoestima. “Eu também fui por maus caminhos e tive a sorte de me terem ajudado. Começámos na rua porque havia necessidade. A minha vida foi um bocado dura e quis retribuir o que fizeram por mim”, confessa Pedro Pereira. 

 

Na rua onde tudo começou

 

“Foi há dois anos que tudo começou aqui neste corredor”, informa Pedro. À volta, a paisagem urbana é desenhada com pedaços de abandono com pequenas pinceladas de vandalismo, mas aos poucos vai-se tentando recuperar a boa imagem do bairro, um dos grandes propósitos da Associação de Moradores. “Quando passo aqui dá-me alguma nostalgia. Houve dificuldades. Queria dar treino e não conseguia porque chovia ou tinha muito vento. Tudo valeu a pena porque a Parretas Team mudou muitas vidas para melhor. Todos são seres mais capazes, responsáveis, com objetivos definidos na sua vida”. As dificuldades sociais são o principal problema. Têm tido o apoio do psicólogo Daniel Pereira, vice-presidente da Associação de Moradores, e Pedro Pereira realça o apoio da União de Freguesias de Maximinos, Sé e Cividade, nomeadamente do seu presidente Luís Pedroso e também da vereadora do Desporto e Juventude da Câmara de Braga. “Ultimamente temos passado por maus bocados, mas continuamos sempre a acreditar que irá existir alguém que acredite verdadeiramente em nós. Infelizmente, temos um aluguer mensal do espaço que custa 100€, mais luz... e nem água temos ainda porque não temos possibilidades”, revela Pedro, numa tentativa de apelar a mais apoios para o projeto.

    

Boxe no feminino

 

As luvas escondem as mãos femininas de Joana Melo e Paula Veiguinha. São mulheres e praticam um desporto de combate. A prática desportiva e o facto de se sentirem em casa explica a razão por terem escolhido esta modalidade.

Joana Melo, 26 anos, descobriu o boxe há dois. No ano passado venceu o Campeonato Regional de Boxe, que decorreu em Rio Tinto, na categoria Sénior - 60 kg. “Isto começou tudo na rua, mas entretanto o Pedro decidiu abrir um espaço. Sempre gostei de praticar desporto e despertou a minha curiosidade para experimentar o boxe”. Treina ‘fora de horas’, antes do trabalho, depois do trabalho e quando consegue. A sua vida é um jogo de pés que balança entre o emprego e a vontade de regressar aonde se sente em casa. Apesar de ter sido campeã não se sente ciente do que isso representou. “É sempre bom competir e estar em cima do ringue, mas o que eu gosto mesmo é de treinar aqui”, diz. O sonho passa por conquistar mais títulos, mas não é o mais importante: “Passo aqui muito tempo e sinto-me em casa e em família. Mesmo saindo daqui extenuada, sinto-me bem com aquilo que o boxe transmite, por exemplo, como saber lidar com o meu dia a dia, controlar a ansiedade e estar em boa forma física”. Qual é a importância deste projeto para a comunidade local? “A maior parte das pessoas pensa que é um mau bairro e até não é. Ajudamo-nos mutuamente e é por isso que gosto de estar aqui”, explica Joana Melo.

    

“Esta é a minha segunda família”

 

Paula Veiguinha, 22 anos, pratica esta modalidade há meses. Estava a estudar em Viana do Castelo e quando regressou sentiu necessidade de se reintegrar: “Já não vivia aqui há quatro anos e as amizades ficaram todas lá”, explica. Formada em Hotelaria tem hoje dois empregos e ainda o sonho de um dia começar um negócio só seu relacionado com pastelaria. Quando foi para Viana do Castelo largou também a atividade desportiva de ginástica que praticava, abandonando um hábito de vida saudável. “Não tinha o mesmo estilo de vida e ficava mais cansada. Quando entrei aqui nem sabia saltar à corda. Eles ajudam-me muito. A vida com desporto é sempre melhor e até ajuda no trabalho”. Ela que tem também dado o seu apoio quando o Pedro não pode, tomando conta das crianças, diz que esta é a sua segunda família.

Sente que tem ajudado a melhorar a imagem do bairro. “É uma mais valia para o bairro porque ajuda muita gente a ter um objetivo e a criar outros hábitos mais saudáveis”. A sua vontade é a de ficar nas Parretas por muitos anos “até que um dia possa ser treinadora”, brinca. 

 

Se um ganha, todos são campeões

 

Os golpes da vida são replicados com todo o entusiamo nos murros que desferem enquanto treinam. Joaquim Garcia tem 15 anos e venceu o Campeonato Regional de Boxe no ano passado, em Rio Tinto, na categoria Cadete – 80 kg. “Se eu ganhei todos nós ganhámos”, atira. Pedro Pereira mostra, orgulhoso, uma folha de um teste com a avaliação de 17 valores de Joaquim Garcia. A folha está lá para motivar os outros, mostrando que com foco pode-se melhorar na vida e não só a nível desportivo. “Isto pode ser um caminho que se pode alastrar para os outros lados. Só preciso de um fundo de maneio, só quero que me dêem mais meios para trabalhar porque na minha vida, aquilo que mais me alimenta, é ver estas crianças motivadas. O desporto traz tudo”, garante Pedro. Quanto a Joaquim, esse conta-nos que descobriu o amor e paixão pelo boxe depois de um treino que Pedro Pereira deu na rua. A partir daí, de forma gradual nunca mais largou o desporto. Perdeu peso e ganhou objetivos. “Antes sentia-me uma pessoa muito afastada da sociedade e agora sinto-me maior e melhor. Comecei a lidar com os colegas de treino e a dar-me bem com eles”. 

Como é ser campeão? Por detrás de cada combate há um longo processo do treino. Joaquim Garcia explica que foi intenso. “Foi pesado, treinava todos os dias e quando fui ao ringue demonstrei tudo que sabia fazer com honestidade e empenho de querer praticar a modalidade. Muitos dizem que o boxe é violento e sem significado, mas é um desporto como os outros. Não é só andar ali aos murros, tens de saber jogar e saber aplicar a técnica”. 

Joaquim Garcia é hoje um modelo para os outros jovens companheiros de treino. Quando nos despedimos disse: “Agora sei o significado da vida. O boxe é a minha vida”. 

No boxe, a vitória vem em forma de contagem de pontos ou de knock out. Na vida, e na Parretas Team Boxe, a vitória vem em forma de unidade e serviço cumprido em prol do bairro e da comunidade. 


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