Revista Rua

Observar. Passeio Público

Daniel Pereira 'Cristo'

Ao ritmo do Minho

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Apaixonado pelos sons minhotos, explorando instrumentos como o cavaquinho, a braguesa, o bandolim, a viola ou a gaita-de-foles desde miúdo, Daniel Pereira 'Cristo' trouxe Cavaquinho Cantado ao Theatro Circo, numa ode à música tradicional portuguesa.

Munido do seu cavaquinho, companheiro de todas as horas, encontramos Daniel Pereira ‘Cristo’ às portas do Theatro Circo como quem espera ansiosamente que o palco o chame e a plateia se encha para o ouvir. E encheu. Preenchendo a sala principal com a música tradicional que lhe compõe a alma, Daniel Pereira ‘Cristo’ apresentou o seu álbum Cavaquinho Cantado numa antestreia que provou que o som típico do Minho merece ser ouvido… e aplaudido de pé. Numa conversa que despertou o olhar meigo de menino, como aquele que aos nove anos iluminava o seu rosto quando se juntava ao grupo de música tradicional do pai, ‘Cristo’ (alcunha atribuída nos tempos de estudante) mergulhou nas lembranças do passado, apontando um rumo ao futuro que quer ver realizado.

Antes de embarcamos numa viagem ao início da sua carreira, gostaríamos de conhecer um pouco sobre este Cavaquinho Cantado. O que é que este álbum traz ao público?

Em primeiro lugar, quero dizer que é o resultado de um trabalho imenso. É um álbum que orgulhará minhotos e bracarenses, porque realmente traz a música deste cantinho, do noroeste português – costumo dizer que faço música étnica do noroeste português. Penso que é um álbum que irá surpreender. Quis ser mais arrojado em termos de arranjos.

“O Daniel nasceu para a música e esta não pode ser separada da sua existência… tem sede e fome dela como de água e pão”. Esta frase pode ser lida na sua apresentação como músico. O que significa isto? O que é traz dentro do seu peito, como diz a canção [Cantiga da Segada]?

De facto, não conseguiria viver sem música. A música deixa-me feliz com o mundo. Quando estou a tocar, seja num concerto ou num ensaio, sinto-me realizado. Verdadeiramente feliz! É uma sensação incomparável. Sinto-me um felizardo porque, se estiver mal, pego no cavaquinho ou qualquer outro instrumento, começo a tocar ou a compor uma música e, de repente, tudo vai embora. No entanto, num país como o nosso, com um mercado muito pequeno, não é possível, pelo menos para já, que a música seja uma forma de subsistência. Vêem-me de fato porque tenho de ter outra atividade. Sou delegado de informação médica e a minha formação é em Física e Química. Mas, para ser sincero, acho que já esteve mais longe conseguir sustentar-me através da música. De qualquer maneira, eu sou muito feliz a fazer música e essa frase diz isso mesmo. Se me tirassem a música, tiravam-me tudo. E a minha mulher, com os meus filhos bebés, percebe isso e dá-me essa liberdade para ensaiar, para preparar espetáculos, para me dedicar. Apesar do seu nome ser facilmente associado ao cavaquinho, a verdade é que o seu percurso conta com muitos projetos de Pop/Rock e até Folk. Quer isto dizer que, para si, a música não tem barreiras? Não. Costuma dizer-se que existe dois tipos de música: a boa e a má (risos). Com o Pop/Rock tive vários projetos quando era adolescente, como os Bia Luli e os Suspeitos do Costume e, com o Folk, os Arrefole. Também fiz parte dos neurÓnios aBariados, um projeto que podia ter ido mais além, mas mesmo assim lançamos um álbum. Se fosse hoje tinha sido tudo muito mais trabalhado. Porque, realmente, o que vamos percebendo ao longo dos tempos é que a música é uma brincadeira mesmo muito séria. Se queremos reclamar audiência temos que trabalhar muito. É extenuante quase. Contudo, é impossível não falarmos da Azeituna. A Azeituna é fundamental no meu percurso porque foi o meu tubo de ensaio. Tive oportunidade de compor imenso, pois não havia mais ninguém. Tive um espaço enorme para trabalhar. Com a minha entrada, acho que a tuna mudou muito. Começou a tocar as duas coisas que eu mais tocava: música tradicional e música Pop e Folk. Composições minhas como “Os Suevos” ou “Assim nasceu um país” terminaram com a fase das pandeiretas da Azeituna. E depois tive um manancial de arranjos para trabalhar, com músicas de António Variações, por exemplo. A Azeituna foi uma autêntica universidade da música para mim.

E muitas serenatas?

Sempre! (risos) Obviamente que, para mim, a mulher é uma das razões da nossa existência enquanto homens. Estou hoje casado com a minha esposa porque lhe fiz uma serenata. Conquistei-a, mas sem intenção, porque o que eu gostava mesmo era de cantar! (risos) É muito engraçado pegar numa viola e cantar uma serenata a uma mulher. Elas adoram isso! 

Esta aventura pela música começa com o Daniel ainda criança, por intermédio do seu pai. É aí que surge a paixão pelo cavaquinho? 

Sim, imaginem o que é nascer e ter alguém que está sempre a tocar viola e que faz parte de um grupo de música tradicional [Origem Tradicional]. Embora fosse muito novo, tudo foi ganhando um sentido. Guardo a ideia de que o meu pai teve uma paciência de Jó! (risos) Aturou-me desde os nove anos no grupo. Na altura, os grupos de música tradicional tocavam mesmo muito. Não havia este fenómeno atual do pimba. E, no fim dos concertos, eu vinha a dormir no colo das meninas… foi uma experiência brutal! Hoje o pimba invade as festas e romarias, sendo gastos balúrdios, e isso deixa-me triste porque se derem música tradicional ou Folk ou a chamada World Music às pessoas será fácil de perceber uma coisa: as pessoas gostam! Vão-se reconhecer ali, vão sentir que aquela música é parte delas.

Que mensagem tenta passar nas suas composições?

Em minha casa ouvia-se Sérgio Godinho, Zeca Afonso, Brigada Victor Jara… que continuam a ser grandes referências para mim. Tenho muito essa veia de luta, porque realmente nós não podemos estar à espera que os outros façam a luta por nós. Chateia-me muito ver que as pessoas se afastaram umas das outras e, com os telemóveis, isso tornou-se um problema sociológico complicado. As pessoas não se deixam conhecer umas às outras. Não estou a dizer que sou diferente, mas procuro ser. As pessoas autoexcluem-se. Não percebem que têm poder e que, se se juntarem, podem fazer a diferença. Podem lutar por vidas melhores, podem criticar o que está mal – e não é criticar nas redes sociais, é ir aos sítios, falar com quem é de direito, escrever no livro de reclamações. Acho que a cidadania e a cultura democrática séria não existe. Eu acredito que realmente as pessoas têm poder e é isso que tento transmitir: vocês têm o poder nas vossas mãos e não estão a utilizá-lo! Mas, por sugestão do meu produtor, tirei uma série de músicas de intervenção, música mais Pop ou sobre o amor, que é um tema universal, do álbum para não confundir. Mas, sem dúvida, que essa questão existencial que povoa toda a gente faz parte de mim. Acompanha-me desde sempre, embora agora de uma forma mais leve. Posso dizer que aquilo que me move é poder tornar a existência dos outros um bocadinho mais tolerável. Se eles puderem ser um bocadinho mais felizes ao escutar a minha música, já serei mais feliz.

O que mais o atrai no som dos cordofones?

Possivelmente há um grande responsável por esta minha atração. Alguém que agora é meu amigo, mas que durante anos eu não conhecia pessoalmente: o Júlio Pereira, que fez um trabalho com o cavaquinho, o bandolim e a braguesa absolutamente fenomenal. Se não fosse ele, neste momento ninguém tocava cavaquinho. Veríamos o cavaquinho como uma peça de museu. O Júlio é o responsável pela Associação Cultural e Museu do Cavaquinho e foi ele que me convidou a lançar este álbum Cavaquinho Cantado. Ele mostrou-me que, com aquilo que é nosso, podemos fazer o que quisermos. Temos de ter orgulho naquilo que é nosso, porque é isso que nos distingue num mundo global. Eu aprecio as diferenças do mundo, é isso que dá piada. Se formos como os outros todos, não há graça nenhuma.

É nessa busca por algo que nos diferencie no mundo que acredita ser necessário criar, em Braga, uma escola de cultura e tradição oral de identidade? Tem receio que a identidade minhota se perca?

Isso é um desafio que eu tenho proposto à Câmara Municipal. Conduzo a minha vida convictamente na onda de ensinar, através de workshops, em todo o lado. Gostava que existisse uma escola que tornasse Braga num centro realmente importante. Que as pessoas viessem cá fazer residências artísticas, que viessem cá aprender a tocar cavaquinho, perceber como é a nossa música. É necessário criar esse intercâmbio com o mundo. Criar uma escola servirá para que, daqui a 15 ou 20 anos, existam dez projetos melhores do que o meu. Isto não é uma ideia precursora. Se formos a Vigo, temos uma escola de referência, muito centrada na música galega. Temos também o Musibéria, em Serpa, um espaço de pesquisa da música tradicional. Eu acho que bastaria pegar nestas duas ideias e conciliá-las aqui. A Sond’Art está a fazer um pouco desse trabalho, mas tem de ser algo mais profundo. E temos de estar sempre de mãos dadas porque, no fundo, o que importa é fazer as coisas bem. Não basta dizer que Braga é a capital do cavaquinho, é a capital do bombo… o que é que isso diz, se não for feito nada? A quantidade interessa? Alguma vez interessou? Na cultura acho que não. Estamos na região com mais tradição a nível de cordofones, de música tradicional, do país. Uma região que influencia constantemente o resto do país. Assim foi durante séculos, com os ritmos e as canções daqui a espalhar-se por todo o país. E assim deve continuar! Como? Com pessoas que realmente estejam interessadas em aprender e que tenham formação com quem, de facto, saiba ensinar.

 

 

 

 

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