Revista Rua

Observar. Talento

Das águas portuguesas para o mundo

Teresa Portela

Rafaela Pinto

Texto: Rafaela Pinto |

“Lutei com as melhores atletas do mundo no Rio. Uns meses antes estive doente, muito limitada e, por isso, até fiquei contente por ter chegado lá. Agora, já estou a pensar em Tóquio e quero, sem dúvida, ser melhor”.

Teresa Portela aventurou-se num caiaque por volta dos oito anos e mal sonhava que um dia teria Portugal a torcer por si numa das mais importantes competições mundiais. Poucas eram as opções desportivas que existiam na sua terra natal e a canoagem é a modalidade que ainda hoje faz parte da cultura de Gemeses. Por influência dos irmãos mais velhos e da própria freguesia, a canoísta dedicou-se à prática a 100%. Apesar de ter começado ainda muito nova, conseguiu conciliar o desporto com a educação como uma verdadeira profissional. “Conciliar com os treinos não é fácil, mas como sempre me habituei e também gosto de estudar, acabei por conseguir e não é uma coisa que me custe, mas a prioridade continua a ser a canoagem”. Muitos foram os sítios por onde competiu e vivenciou grandes experiências, mas recorda o ano de 2010, onde ganhou uma medalha a nível internacional como sénior, como aquele em que lhe deu o click de que competia entre os melhores atletas.

No mundo da canoagem, ser mulher tem as suas desvantagens. “Há menos incentivos.  Acabámos por percorrer um caminho mais difícil do que o dos homens. Ainda há poucas mulheres a praticar canoagem, mas penso que temos dado alguns passos e cada vez somos mais equilibradas. Sinto-me orgulhosa por ter feito parte deste caminho e ter aberto portas para outras atletas da canoagem”.
Por outro lado, ser portuguesa só tem vantagens. “Na canoagem, o clima é um fator muito importante e, em Portugal, é possível treinar durante o ano todo. Somos dos países que acolhe mais atletas de todo mundo porque realmente temos sítios espetaculares para treinar”. Hoje, olhando para trás, Teresa não mostra estar desiludida quando os resultados não são os esperados e é a própria experiência que a ensina a ver o lado bom do ‘mau’. “Se me perguntassem há quatro anos quais eram os meus objetivos para o Rio 2016, eu dizia que queria estar a lutar pelas medalhas, mas depois, durante o processo dos treinos, vamos adaptando todas as nossas expectativas. Sabia que ia ser complicado, que ia ser renhido e também sabia que o meu nível era mais do que estar a lutar pela medalha. Claro que fico frustrada, mas nem sempre as coisas correm bem, nem sempre a preparação corre como nós gostamos… todos os anos temos bons e maus resultados”, explica a canoísta. Apesar de não ter trazido medalhas ao pescoço, a experiência revelou-se positiva e já só pensa nos próximos Jogos em Tóquio: “Lutei com as melhores atletas do mundo no Rio. Uns meses antes estive doente, muito limitada e, por isso, até fiquei contente por ter chegado lá. Agora, já estou a pensar em Tóquio e quero, sem dúvida, ser melhor”.

Foi em terra de mar, mais precisamente em Gemeses (Esposende), que Teresa do Rosário Afonso Portela, de 30 anos, deu os primeiros passos na canoagem e, hoje, é considerada um dos talentos do desporto português. Iniciou-se em 1996 no Grupo Cultural Desportivo e Recreativo de Gemeses e, em 2012, passou a representar o Sport Lisboa e Benfica. Desde que integrou a equipa da seleção nacional, aos 14 anos, que a canoagem tem sido a sua prioridade, mas nunca deixou de parte o gosto pelo estudo. É licenciada em Fisioterapia e frequenta atualmente o 4º ano de Osteopatia. Dentro e fora do país, a canoísta portuguesa tem sido uma presença assídua em competições nacionais, Taças do Mundo, Campeonatos da Europa e Jogos Olímpicos. Conquistou 56 títulos de Campeã nacional e cerca de 40 internacionalizações. Na sua mais recente competição, nos Jogos Olímpicos do Rio, levou para casa o 11º lugar entre 28 participantes. Parte do seu tempo profissional é passado entre o norte e o sul e até chega mesmo a treinar no nosso país vizinho, Espanha.


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