Revista Rua

Apreciar. Música

Dengaz: A bordo do Rap português

“Tive sempre a necessidade de fazer as coisas como eu queria fazer, de dizer aquilo que eu queria”

Sara Lopes

Texto: Sara Lopes |

Luís Mendes começou o seu percurso no universo da música com apenas 14 anos. Nessa altura, os amigos chamavam-lhe Denga, o diminutivo de ‘candengue’, que significa ‘criança, o mais novo’. Com o passar do tempo, precisou de um nome para o diferenciar no mundo artístico e assim nasceu o Dengaz. Com mais de 78 mil seguidores no Youtube e uma mão cheia de álbuns (incluindo o álbum gravado no Coliseu e a versão acústica de Para sempre), Dengaz atuou, em março, nos coliseus do Porto e Lisboa. Numa conversa nos bastidores do Coliseu do Porto, Dengaz falou com a RUA na segunda pessoa do singular e sem poses para a fotografia.

Começaste no Hip-Hop, com os Dinastia, partiste para o universo Reggae, com os Innasterio, e decidiste voltar ao Hip-Hop. O que te trouxe de volta?

Na verdade, eu nunca saí. Sempre gostei de Rap e a minha base é essa. O que aconteceu foi que fiz parte de uma banda que tocava maioritariamente Reggae. Mas, mesmo nessa banda, o que eu fazia era Rap. Era uma banda de Reggae que tinha muitas misturas. Durante esse tempo todo, aprendi imensas coisas. Tocámos muito. Mas tive sempre a necessidade de fazer as coisas como eu queria fazer, de dizer aquilo que eu queria.  Por isso, decidi começar um projeto a solo. Foi por isso que voltei ao Hip-Hop. Agora, faço Rap, mas também faço muitas misturas com Reggae, R&B e Pop, por exemplo. 

 

Muitas músicas que tens contam com a participação de outros músicos: Agir, Richie Campbell, António Zambujo, Dino, Tatanka, etc. Achas que o Rap necessita de algo que o acompanhe ou, por outro lado, achas que uma música deve ser partilhada?

É muito normal neste estilo de música, no Rap e no Reggae, ter muitos convidados. No início, acontecia que as pessoas, principalmente as que não estavam tão por dentro deste estilo de música, olhavam para os meus álbuns e diziam: “mas isto tem imensos convidados!” As pessoas não estavam habituadas a isso. Quando estou no estúdio a fazer as músicas, penso sempre nelas como resultado final e como eu gostava que elas soassem. Muitas vezes, estou a fazer as músicas com os produtores e lembro-me: “Era brutal ouvir esta pessoa aqui ou esta aqui”. Obviamente, se eu conseguisse ou soubesse fazer aquelas coisas todas, fazia eu. Mas, mesmo assim, acho que não era igual. Eu não conseguia cantar o refrão da “Nada Errado” com a mesma vibe que o António Zambujo, por exemplo. Cada artista tem algo muito singular para trazer às músicas e eu sou completamente a favor da mistura. 

 

Em termos de convidados especiais, qual foi a parceria que surgiu de forma mais engraçada?

Elas surgiram, quase todas, de uma maneira muito semelhante. O Agir, o Matay e o Tatanka, por exemplo, são pessoas que eu já conhecia. Éramos amigos. O Zambujo foi um pouco diferente. Tornámo-nos amigos depois de trabalharmos juntos. Eu sempre fui fã da música dele. A do Seu Jorge e do Marcelo D2 foram as ‘mais fora’ porque eram os artistas mais distantes de mim. Eu, quando convido alguém para fazer uma música comigo, é porque sou fã da música dessa pessoa e acho que ficava giro misturar. Com o Marcelo D2 foi engraçado. É um artista e um rapper que eu ouvia desde pequeno e foi muito fixe. Até aconteceu algumas pessoas, que já me conhecem há muitos anos, me mandarem mensagem quando ouviram a música, dizendo “brutal! Nós costumávamos ouvir os álbuns dele e agora vocês estão juntos”. Depois, com o Seu Jorge, aconteceu tudo muito rápido. Lembro-me de estar no estúdio e achar que o Seu Jorge ia soar incrível naquela música e mandei uma mensagem ao Marcelo D2. Ele falou com ele e o Seu Jorge disse que sim. Quando veio a Portugal fazer um concerto, foi ter comigo ao estúdio. Ficámos imenso tempo a conversar. 

 

Depois de ler algumas entrevistas, reparei que usas muito a palavra Power. Porquê? 

Acho que é uma palavra que consegue descrever o nosso concerto. Por exemplo, este concerto no coliseu tem muito essa mistura com power. Eu mudo muito as músicas. Não de forma a que elas fiquem desfiguradas e as pessoas não percebam que música é, mas adiciono aquele ‘peso’ da banda. Eu gosto muito de Rock e, se calhar, algumas músicas têm uma abordagem mais Rock. Talvez seja daí que vem esse power que eu falo. Mas é muito bom misturar as duas coisas, porque às vezes o power nem está só ligado a isso. Às vezes, temos momentos muito minimalistas, só com um piano a tocar e voz, e aquilo tem um grande power por causa da carga emotiva. 

 

Aos 14 anos ouviste pela primeira vez uma música tua na rádio. Ainda te lembras do nome da música? 

Não me lembro. Era da banda que eu tinha na altura, os Dinastia.

Qual foi a sensação? 

Foi a primeira vez que eu senti que já estava a começar a trabalhar para cumprir o sonho que tinha: fazer música. E foi brutal! Um dos objetivos que temos quando começamos a fazer música é ouvir a nossa música a tocar onde tocam as músicas que nós gostamos de ouvir. 

 

Agora, anos mais tarde, ainda sentes o mesmo ao ouvir uma música tua na rádio?

É igualzinho! Cada vez que toca uma música minha fico com aquele sentimento de “ah, olha, é a minha música!”.

 

Consideraste 2016 como “um dos melhores anos” para ti. Porquê?

Por inúmeras razões. Foi um ano em que senti que mais pessoas ouviram a minha música. Continuei a contar com as pessoas que já conhecem o meu trabalho desde o início. Também por questões familiares foi um grande ano. E porque consegui fazer concertos no país inteiro, que era uma coisa que as pessoas já vinham a pedir há algum tempo. Foi um ano muito bom para mim porque senti esse reconhecimento e acho que a banda e todos que trabalham connosco se sentiram realizados, como eu. 

 

Já passaste por muitos palcos. Preferes os mais pequenos, em que há mais proximidade com o público, ou preferes os palcos grandes, como os coliseus, por exemplo? 

Não sei... É difícil responder porque tem tudo a ver com a vibe dos concertos. Por exemplo, no Marés Vivas, estavam lá milhares de pessoas e nós todos em palco sentimos uma coisa muito intimista. Estava ali toda a gente junta e a cantar. Às vezes, isso acontece em concertos grandes e não acontece em pequenos. Os coliseus são um exemplo disso. Os concertos acabam por parecer mais intimistas porque as pessoas estão todas ali para a mesma coisa, para ouvir as mesmas músicas, e acaba por se criar esse ambiente intimista. Às vezes, até fico mais nervoso com concertos pequenos do que com concertos grandes. 

 

Há algum cuidado maior no alinhamento e preparação dos concertos para adequar a uma sala como o coliseu?

Sim. Fizemos uma mistura entre as versões mais power, como já falamos, e as mais acústicas. O coliseu é um sítio que nos permite fazer isso. As pessoas estão mais dispostas a isso. Permite-nos tocar músicas que nós não conseguimos tocar durante o resto do ano, trazer convidados e poder partilhar o palco com eles. Isso não dá para fazer em concertos ‘normais’. 

 

Chamaste ao teu primeiro álbum Skill, Respeito e Humildade e ao segundo AHYA, ou seja, Família. Ao terceiro álbum deste o nome de Para Sempre. Podemos assumir que o mais importante para ti é o talento, o trabalho, o respeito, a humildade e a família? Para sempre?

Sim, sem dúvida! O primeiro álbum fala mais disso. É um álbum mais ligado à essência do Rap. O AHYA foi um álbum que fiz para disponibilizar gratuitamente, mesmo a pensar nas pessoas que me apoiam e já me acompanham desde o início. Foi uma coisa mais para as pessoas. Eu quis oferecer alguma coisa àqueles que me estavam a apoiar. E o Para Sempre junta isso tudo.  Neste álbum falo de família, amigos, a relação que eu tenho com a música que faço. Falo de coisas que eu acredito que são para sempre. Por exemplo, a música que se chama “Para Sempre”, que eu fiz para as minhas filhas, é obviamente a falar de um amor que é para sempre, aconteça o que acontecer. Até a nível musical, nós não fizemos uma coisa por ser atual, por ser o que está a dar. Fomos por um caminho mais no sentido de quem gosta da minha música a poder ouvir daqui a uns tempos e ser igual. Uma música que se possa ouvir para sempre. 

 

Olhando para trás, já está tudo feito ou ainda há muito mais a dar à música portuguesa?

Claro que há muito mais! Falta-me fazer muitas mais coisas. Eu vou ter vontade de fazer muito mais. A música é mesmo assim. Nós vamos crescendo, a música vai crescendo connosco e vamos falando de coisas diferentes. E vai-me apetecer fazer coisas diferentes, de certeza. Há muitas coisas para fazer e muitos concertos para dar, que é uma das coisas que eu mais gosto de fazer.


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