Revista Rua

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Dia Mundial da Bengala Branca

"Chegámos a uma altura que esquecemos que a visão existe”

Nuno Sampaio

Texto: Nuno Sampaio |

 

Hoje comemora-se o dia internacional da bengala branca, efeméride que tem como objetivo o reconhecimento da independência das pessoas cegas e amblíopes e da sua integração na sociedade. A bengala não só é o símbolo de autonomia e liberdade das pessoas cegas, como também a origem de uma emancipação. A data foi instituída pela Federação Internacional de Cegos em 1970 e representa a confiança, a força e integridade das pessoas cegas.

Para Filipe, cego, 36 anos, casado, este dia é, “sem dúvida, o dia mais importante e o mais simbólico para a deficiência visual. É o dia que permite simbolizar aquilo que os cegos ambicionam: a autonomia perante a sociedade”.

Filipe Azevedo trabalha nos TUB (Transportes Urbanos de Braga) e não gosta que chamem invisuais aos cegos, porque “invisual é diferente de visão; invisual é um subterfúgio que se utiliza para minimizar o impacto da cegueira”.

Filipe nasceu cego e tem uma relação natural e descomplexada com a cegueira. É de riso fácil e de sonhos reais. Luta todos os dias contra a comiseração e o discurso super-protecionista. Na Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) é secretário da direção na delegação de Braga e é aqui que essa luta começa e se desenvolve. Ali não fazem peditórios de rua, mas sim campanhas de angariações de fundos, porque “essas atividades são, de certa forma, estigmatizantes com a cegueira”. “Antigamente” – diz Filipe, “o pedido na rua estava muito associado às pessoas cegas. Eram pessoas sem habilitações que não conseguiam entrar no mercado de trabalho. A única forma de subsistência que tinham era essa, a mendicidade”.

Hoje, tudo está diferente, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Existem muitos obstáculos a contornar, um deles, talvez o mais difícil de ultrapassar, é a “cegueira escura”, termo usado na brincadeira por Filipe sobre a escuridão mental, aquilo que impede as pessoas cegas de olhar para tudo isto com uma perspetiva de inclusão.

Em Braga, cidade onde vive, “já foi mais difícil ser cego”. As restruturações das cidades já são feitas a pensar nas pessoas com mobilidade reduzida. Para Filipe, todos nós somos pessoas potencialmente com mobilidade reduzida. “Todos nós queremos chegar a velhos. Quando lá chegarmos vamos ter mobilidade reduzida, é inevitável”. Todo este sentido de progressão no facilitamento da mobilidade universal está diretamente ligado com a tentativa de integração dos cegos - assim como todas as pessoas com mobilidade reduzida - numa sociedade cada vez mais fechada e mecânica.

Hoje, o paradigma está a mudar. "Se os passeios forem mais largos vai facilitar toda a gente. Se o piso for mais regular acontecem menos quedas".

Filipe nunca viu a sua filha de 19 meses – “chegámos a uma altura que esquecemos que a visão existe”. Há uma cumplicidade mais etérea, mais terna. Um abraço não é apenas um abraço e um simples carinho transforma um mundo de escuridão numa luz interna que o liga ao amor de um filho. Estar com a família representa para Filipe uma felicidade apenas alcançada nesta doutrina pura de amor incondicional, neste domínio do corpo sobre todas as coisas: uma sensibilidade extramundana.

Ser cego não é não ver, apenas, e este dia é para lembrar todo o sentido que aponta para uma outra invisibilidade, a social, a que dói ainda mais, a que obstrói o querer ver para além da visão. 


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