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Apreciar. Minhotos pelo Mundo

E esta história ainda não acabou

Ricardo Peixoto

Texto: Ricardo Peixoto |

Já lá vão quase dezoito anos. Cheguei a Edimburgo num dia chuvoso de Outono, malas às costas, tupper ware com comida da mãe, as roupas todas comprimidas e uma cabeça de porco fumada, que o meu pai tinha posto na mala, sem me dizer, à última da hora.

A Inglaterra decidiu que não pretende ser parte da União Europeia, arrastando a Escócia e a Irlanda de Norte. Só agora começou o verão mas o céu está negro, a anunciar um daqueles verões Britânicos.

Cheguei com a energia das pilhas novas, qual touro acabadinho de entrar na arena, para começar o curso de Genética na Universidade onde tinha sido clonada a Dolly. Cedo me deparei com o calor inebriante dos Escoceses e com o reservismo pálido dos Ingleses. Fazia-me confusão muita coisa. A obsessão dos britânicos em pedir desculpa e dizer obrigado a tudo, mesmo que não quisessem, a pressa em embebedarem-se nos pubs, a ausência de café decente, de pôr leite no chá, o modo frio como se cumprimentavam de manhã, quase sempre evitando o contacto, contrastado com os abraços e risos depois de umas quantas pints à noite.

Aos poucos fui-me habituando a certas coisas. Jantar cedo, ver jogos de snooker a fio, entender as regras de cricket e falar com o ror de outras mentalidades. O Reino Unido deu-me oportunidades como não as teria em Portugal. A de fazer um doutoramento sem andar a pedir favores ou cunhas. A de decidir fazer um curso de medicina aplicando os conhecimentos anteriores.

De repente, vinha a Portugal e algumas coisas faziam-me confusão. A praga das cunhas, o chico-espertismo de alguns, o vício de levar o carro a todo o lado e os porteiros de discotecas com a arrogância dos bisontes. E ao mesmo tempo, quando em Portugal, começava a ter saudades da multi culturalidade do Reino Unido, da facilidade que havia em falar com o chefe de departamento, do empreendedorismo anglo-saxónico.

Os Ingleses têm uma mentalidade insular e diferente. Desde o início dos tempos que aqueles 21 quilómetros do canal da Mancha são o equivalente a uma viagem à lua. É uma mentalidade mais prática mas ao mesmo tempo mais cultural. Sempre lhes fizeram cócegas os enigmas, as leis da natureza e da física. Sempre lhes intrigou que o conhecimento não seja posto em prática.

O empreendedorismo cedo despertou várias mentes de outras paragens. Emigrantes de várias paragens largaram tudo para construir uma nova vida cheia de oportunidades como as que eu tive. Quando os mercados ruíram, tinha que haver culpados, e em vez de se apontar o dedo aos banqueiros, foram os emigrantes e a União Europeia que levaram com as culpas. Um processo que foi alimentado pelos partidos políticos de extrema direita.

O Reino Unido votou para sair da União Europeia. Mas não se esqueçam que 49% dos votantes são adeptos fervorosos da Europa comum. Não metam todos os Britânicos no mesmo saco. Houve muitas condicionantes para este resultado. Já muitos me telefonaram a dizer quão envergonhados estão pelos seus compatriotas. É preciso pensar naquela grande falange de Britânicos que desejaria partilhar o destino Europeu. O Reino Unido e o resto do continente Europeu são mais do que a soma das partes. E esta história ainda não acabou.


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