Revista Rua

Saber. Reportagem

Errantes que "vêm por bem"

Histórias de pessoas que trocaram a cidade por Castro Laboreiro para recomeçar uma nova vida.

 
Luís Leite

Texto: Luís Leite |

A idade varia mas a vontade é a mesma. Na terra, da terra e para a terra. Cinco pessoas que em comum têm a fuga às cidades e a necessidade de começar de novo no sossego da natureza. Estamos a mais de 1000 metros de altitude e o isolamento que esta terra secular vive não tem reflexo na paisagem. Daqui vê-se tudo. Daqui vê-se o mundo. E se a maioria das pessoas foge de Castro Laboreiro por causa do desemprego e do isolamento, há quem faça o percurso contrário à procura de oportunidades. Um escocês e dois casais portugueses encontraram na severidade do planalto a calma necessária para recomeçar. As pessoas da terra dizem que são bem-vindos “desde que venham por bem!”.

Em Mareco, uma das 40 aldeias de Castro Laboreiro, Alan Brown encontrou o sossego para trabalhar a madeira. “Eu simplesmente tenho uma paixão. Quando vejo madeira velha e não lhe posso tocar fico frustrado”. Faz esculturas, peças de arte e mobiliário. “Também faço arte, pinturas e desenhos”, conta.  A sua paixão é construir grandes e largas mesas de madeira porque faz-lhe recordar “a alegria partilhada num jantar de família ou de amigos” — vendo-o aqui isolado do mundo não deixa de ser contraditório. Tem 32 anos e um sorriso fácil, é afável e conta-nos porque decidiu mudar de vida: “Quando as pessoas começaram a não gastar dinheiro na Escócia, parti à procura de coisas para fazer”. Veio da Escócia com a namorada e antes de chegar a Portugal passou por vários países da Europa. Aqui encontrou a segurança e as “bizarras” parecenças com o seu país: “É tão similar com a Escócia. No andar de cima moravam as famílias. No andar de baixo ficava o gado, os cereais e outros produtos da terra. Tal como aqui. É como na Escócia. É tão bizarro!”.

Regressou após 8 anos da sua primeira visita ao nosso país e instalou-se agora em Mareco. “Senti sempre que nunca tinha deixado Portugal. Tinha de regressar”. Diz que admira a força de vontade dos portugueses destacando uma bem típica das gentes de Castro. “As pessoas aqui não desistem. E a última geração de jovens portugueses começou a perceber que a solução não está nas cidades. Que tinham de regressar às aldeias”. Não deixa de afirmar, de forma triste, o que foi ouvindo: “No outro dia fui buscar um bocado de madeira para uma escultura e disseram-me que daqui a 20 anos não vai haver aqui ninguém”.

“Eu nunca corto uma árvore viva”. Só usa madeira morta e limpa. Procura-a em casas velhas ou escolas antigas. O pedaço que está a trabalhar, encontrou-o nos resquícios de um dos grande incêndios que assolaram a região em agosto passado. “Uma árvore tem um propósito. Quando tem vida liberta oxigénio e absorve dióxido de carbono. E se morre, tem tantas utilidades... Pode ser para aquecimento, mobília, arte. Não há nada mais triste do que ver uma árvore bonita desperdiçada e não fazer nada”.

Quando chegou a Castro Laboreiro, no primeiro mês, sentiu que era um lugar extremamente remoto. As pessoas da vila eram muito desconfiadas. “Estou habituado a estar em locais remotos mas onde tenho com quem falar. Aqui não tenho televisão, internet ou rede de telemóvel”. Nasceu em Glasgow e partiu quando tinha 18 anos. Com alguns trocos no bolso partiu à boleia. Instalou-se numa pequena localidade escocesa e depois numa ilha onde esteve 10 anos. Nos últimos meses, as pessoas começaram a falar mais com ele, “especialmente os homens”. Agora está confortável e diz que isso “é uma mudança radical”. Deseja que mais pessoas jovens descubram Castro Laboreiro como um lugar para viver. Enquanto elas não chegam, as aldeias de Castro Laboreiro permanecerão as mesmas. Falta investimento, “não só hotéis mas também lojas de comércio tradicional com artesãos. É uma oportunidade tão grande! Há tanta história cá. Não é preciso muito dinheiro… porque eu consigo fazê-lo e estou a lutar com dificuldades, muitas muitas dificuldades, mas não desisto. Até gastar o meu último euro não vou deixar Portugal. Não vou voltar para a Escócia”.

D’Alua onde nasce arte

No lugar da Portelinha há uma casa D’ Alua onde vivem dois pintores, Manuel e Paula que desenvolvem em conjunto o projeto Alua Pólen. Mudaram-se para cá há cerca de 10 anos e dizem que cada vez mais gostam de Castro Laboreiro. Manuel recebe-me com um abraço: “Vou dar um passeio, queres vir?”.  Vamos caminhando com a imensidão à nossa volta. Nevou há umas semanas mas — diz-se por cá — este é um inverno que faz ainda tempo de verão.

Manuel António é do Porto e Paula Dacosta é de Guimarães. Casaram e foram viver para Gaia. Tiveram um filho e a casa ficou pequena. Mudaram-se para Vizela e lá permaneceram durante 12 anos onde foram amealhando dinheiro para comprar uma ‘casita’. “Levamos o sonho um bocadinho mais para cima”, diz Manuel. Quando viviam na cidade, sempre que podiam escapavam para o meio da natureza, “dava para recarregar energias”. Durante 10 anos procuraram um sítio para casar um sonho com outro sonho: o isolamento e o amor pelo lugar escolhido. Vieram passar férias com o filho e decidiram perguntar se havia alguma casa que estivesse à venda. Encontraram.

Esta mudança trouxe-lhe a autonomia de gerir o próprio tempo, “à vontade da tua existência sem perder tempo com futilidades”. E o ritmo de vida é bem diferente aqui. Como não tinham quaisquer raízes quando chegaram eram vistos como forasteiros mas a adaptação foi fácil. Até criaram a festa de São João, o que não era antes tradição por cá.

No fundo, é a paixão pela arte que explica tudo. “Tens de estar preparado para o ato de solidão que é a pintura” diz-me Manuel. As telas que pinta não são as paisagens de Castro que vemos à nossa volta mas a tinta desenha a terra íntima interior do artista demonstrando como a sua paixão pela arte é enorme. Enquanto caminhamos montanha acima, há que obedecer à vontade da Boneca, a cadela que lhe faz companhia todos os dias. “Eu vivo para pintar e cairia numa rotina muito repetitiva na cidade. O que eu gosto é de observar a luz e os pormenores”, explica. A paisagem que nos rodeia na sua caminhada de todos os dias é uma espécie de microcosmos que absorve para depois deixar na tela. Pinta à noite, dorme de manhã e caminha de tarde e diz: “A Mãe Natureza é a mãe de todos os mestres”, afirma. É no passeio e na entrega à meditação da natureza que encontra essa limpeza essencial para ter um acto criativo.

Mas porquê Castro Laboreiro? “Nós, pessoas, absorvemos muitas coisas negativas e temos de ter algo para as soltar. Chega a ser doloroso. Abdico do convívio para me entregar à causa que é a pintura”, afirma. Foi uma opção que passou por escolher uma linguagem muito própria e libertar-se de todas as influências.

Vai ficar cá para sempre? “É minha vontade, que no final dos tempos me funda com esta natureza”.

“Aqui tudo me pertence e nada me pertence”

A ideia, desde sempre, era instalarem-se no interior do país. Diana e Vítor vieram visitar Castro Laboreiro durante um fim de semana e quando chegaram ficaram deslumbrados pela natureza, sossego e paz. Num mês mudaram de vida.

Conheceram-se e viveram na cidade do Porto  mas a ruralidade não era desconhecida. O Vítor vem de uma aldeia de Alcobaça e Diana tinha família numa zona rural de Coimbra. Perceberam que havia oportunidades de estabelecer a oficina de pintura de azulejos de Vítor numa casa por aqui. Foi tudo “muito mais rápido do que se esperava”. A mudança “foi quase como começar do zero”, diz Vítor. Chegaram num mês de março e o tempo era adverso: “Aqui neva até abril. Tínhamos acabado de chegar e não tínhamos lenha”. Não é fácil lidar com o frio, Diana conta que nos primeiros tempos era complicado ter a consciência da quantidade de lenha que iam precisar. “Há também a questão da altitude, no início o corpo sofreu algumas questões interessantes como o sangramento do nariz… há essas variações, dores permanentes nos ouvidos, e que acabam por ser engraçadas”, exemplifica Diana.

Para Vítor, a mudança deveu-se quase a uma questão de “sanidade mental”. A fuga da cidade apareceu após uma procura incessante de trabalho sem sucesso. “Estávamos no pico da crise e havia muitas dificuldades”. Trabalhava numa academia de artes que acabou por fechar. “As tentações recorrentes da cidade aqui não existem. As rendas das casas são mais baratas. A questão da horta e os animais também ajuda, para além de ajudar a cabeça também ajuda o estômago”, diz o pintor.

Vivem no lugar de Portelinha onde são “muito bem amados e muito bem tratados”. Geograficamente este é um lugar de transição. Se nos dirigirmos para norte alcançamos um ponto em que quase não tem árvores, o planalto. Se formos para sul encontramos um vale com uma imensa floresta de carvalho. E esta paixão pelo sossego e ruralidade passa também pelo gosto pela natureza. “Esta paisagem, este ambiente e esta paz não se encontra em muitos lugares do nosso país. Esta maneira de viver é mesmo muito própria. Estás o dia todo a trabalhar, a pintar, e ao fim do dia levantas-te e vais dar um passeio pelas montanhas com esta paisagem magnífica! Vê-se tudo à volta”, resume Vítor. Já trabalhou em muito sítios diferentes, em muitos lugares diferentes e este é “sem dúvida um dos mais agradáveis e mais fantásticos onde estive até agora”.

É manhã e da janela vejo Vitor a tratar das galinhas. O dia está a começar. Já no seu ateliê, vemo-lo em volta dos azulejos.

“Há fila a partir do alto de monsanto. No Porto, há trânsito muito intenso na VCI em direção à Ponte do Freixo...” ouve-se a rádio, a voz do mundo que nos faz apreciar ainda mais todo este sossego. Hoje, o negócio de Vítor passa ainda pela revenda, pelas lojas e pelos clientes particulares nacionais e estrangeiros mas também há que fazer outras aproximações como as presenças em feiras de artesanato com produtos mais acessíveis e mais pequenos. “Sinceramente, não me vejo a fazer outra coisa. Sem a pintura não consigo passar, não há hipótese”.

Os pais eram ceramistas desde sempre e cresceu rodeado de azulejos, mas só no final da formação em pintura e desenho é que despertou o seu gosto e o interesse por esta arte. “Começaram a construir as estações de metro em Lisboa forradas a azulejo e percebi que o azulejo era muito versátil”. Na fachada do Hotel Castro Vilae vemos murais de azulejos feitos por Vítor. Fala dessa obra com muito orgulho. São quatro os murais que falam do ex-líbris de Castro Laboreiro: as Brandas e Inverneiras, o Cão de Castro, as Antas do Planalto e uma reconstituição do Castelo tal como ele era. “É muito dignificante e é um trabalho para ficar porque nem os próprio castrejos sabem bem como era o castelo”, afirma.

Quem vier cá pela primeira vez pode pensar que é o fim do mundo. “Já pode ter sido, mas agora já não”, afirma Vítor. “Se as pessoas pensarem que estamos muito tristes porque vivemos longe de um shopping e do cinema, não é bem assim. Basta ir a Monção ou a Melgaço. Temos internet para trabalho e lazer”, acrescenta. Se há aqui uma cultura própria e uma resistência natural a quem vem de fora, Vítor desmistifica: “Se as pessoas vêm por bem, que é uma expressão deles, somos como um deles”.

 

A paixão pela história local

Na altura que estavam a considerar mudar-se para o interior, Diana tinha acabado de terminar a licenciatura em ilustração e design gráfico. Andava à procura de trabalho mas era uma busca difícil. Estávamos em 2011. Quando chegaram teve um período com alguns trabalhos temporários na hotelaria local e mais tarde encontrou uma oportunidade na Junta de Freguesia através de um estágio emprego do IEFP. Ficou lá um ano que se prolongou por mais outro devido a um segundo estímulo do Centro de Emprego. Neste momento continua a trabalhar lá, a meio termo e com horário reduzido, porque acabaram-se os apoios. “Continuo a trabalhar e isso é importante, também porque tenho um contacto com a comunidade”, informa. Diana Carvalho tem desenvolvido uma investigação relacionado com o património arquitectónico de Castro Laboreiro e os seus fornos comunitários, uma carreira pessoal de investigação histórica, neste caso de história local. Tem como objectivo divulgar e publicar o seu trabalho de forma acessível com o objectivo de ajudar as pessoas a visitar Castro Laboreiro. Após 5 anos nesta região, Diana descobriu que há um trabalho muito extenso por fazer sobre como era a vida mais íntima e pessoal da comunidade e como isso estava interligado com o funcionamento dos equipamentos de bens de produção como são os Moinhos, os Fornos Comunitários e as Eiras, “tudo isso tem de ser feito”.

As dificuldades e perspectivas para o futuro

As maiores dificuldades passam pela falta de transportes. “O acesso a Castro Laboreiro só é feito a partir de carro, táxi ou por um autocarro que passa às 7h da manhã e 6h da tarde para levar e trazer estudantes que vão para as escolas de Melgaço. Faltam acessos, quando chegamos, isso chocou-nos imenso”, diz Diana. As transportadoras muitas vezes não vão até Castro de Laboreiro e deixam as entregas em Melgaço e diana conta quais sãoas grandes dificuldades: “A grande distância e também há falta de sensibilidade de algumas entidades para tornar as coisas um pouco mais acessíveis”. As dificuldades também passam por encontrar trabalho que satisfaça as formações profissionais. Para o futuro fica o sonho de ver mais dinâmica e ligação entre os membros da comunidade.

Aqui há cada vez mais lugares e aldeias completamente desertas. “O futuro deste sítio vai passar obrigatoriamente pelo turismo. Quando os portugueses e os estrangeiros descobrirem este lugar, isto vai reflorescer”, afirma Vítor. Mas como? “É preciso alguém com visão e dinheiro para investir. Tenho de ser optimista. Temos alguns bons exemplos espalhados pelo país com aldeias recuperadas. Porque não fazer isso aqui?”.

Vítor termina por dizer: “Não sei se a vida nos vai levar para outro lado. Com a idade que tenho já sei que a vida dá muitas voltas”.


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