Revista Rua

Observar. Talento

Facto social fotografado: a analogia de André Castanho Correia

Texto: Helena Mendes Pereira |

Émile Durkheim (1858-1917) é considerado um dos pais da sociologia moderna e é amplamente reconhecido como um dos melhores teóricos do conceito da coesão social. Para Durkheim, a ação humana em grupo tem as suas próprias leis e os factos sociais consistem em maneiras de agir, pensar e de sentir, exteriores ao indivíduo e que são dotados de um poder de coerção em virtude do qual esses factos se impõem a ele. “Eu sou eu e as minhas circunstâncias”, escreveu José Ortega y Gasset (1883-1955).

A história da habitação social ganha força e expressão no processo de reconstrução dos países afetados pela II Guerra Mundial, o designado Plano Marshall, e inclui a participação de nomes como o de Le Corbusier (1887-1965), que dirigiu a construção da Unidade de Habitação em Marselha (França), entre 1947 e 1952. As Unités d'Habitation, nas quais colaborou o português Nadir Afonso (1920-2013), fizeram escola pois, mais do que soluções de arquitetura, constituem-se como pilares de um Estado Social que garante aos seus cidadãos acesso igualitário a bens e serviços de natureza primária. As nossas cidades evoluíram para a centralização geográfica de aglomerados urbanos constituídos por habitação que corresponde a vários índices de poder económico. Urbanismo de segregação social e não de coesão social, dir-se-ia.

André Castanho Correia é arquiteto. É natural de Viana do Castelo e vive e trabalha em Braga. Contudo, à parte da sua atividade como arquiteto, explora a fotografia, observando o já antes visto e somando ao ato da fotografia, o desafio do método sociológico de Durkheim, cuja relevância se estende à necessidade contemporânea de pensar o coletivo democrática e socialmente. Para André, o desafio da fotografia surge como “instrumento de documentação e inquirição ao ambiente construído e à paisagem, partindo da sua experiência académica com Guido Guidi no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza (IUAV) e com Cidália Silva na Escola de Arquitetura da Universidade do Minho (EAUM)”. Manifesta especial interesse por registar paisagens (urbanas ou outras) em estados de transição e/ou de abandono. Em o outro espaço, projeto aqui em destaque, André Castanho Correia procura refletir sobre a configuração espacial e estado de conservação de diferentes áreas de habitação social, ora de tutela do Estado, ora autoconstruídas. Inclui três contextos locais (Enguardas, Santa Tecla e Picoto, em Braga), um nacional (Bairro 6 de Maio, Amadora) e um internacional (Robinhood Gardens, Londres).

Não obstante os quadros de miséria social que o fotógrafo regista, o resultado final revela uma sensibilidade e uma dimensão compositiva formal e cromática que poderiam ter como interface a pintura. Mais do que de arquitetura(s), a fotografia de André Castanho Correia é do campo das ciências sociais e humanas. A partir dela elencamos comportamentos, formas de agir e pensar. Essa é, em bom-tom da verdade, a força e o sentido da Arte: o conjunto de potencialidades que nos oferece de reflexão sobre o contemporâneo.

 


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