Revista Rua

Apreciar. Música

Fado ou flamenco? E se fossem os dois?

A 15º edição do festival Sons de Vez continua até ao final de março, na Casa das Artes de Arcos de Valdevez

Marta Alves

Texto: Marta Alves |

No passado sábado, foi a Vez de Fado Violado passar pelos Sons em Arcos de Valdevez. Intitulado como "primeiro festival do ano", o Sons de Vez continua a brindar o público com uma programação eclética que prima pela música popular portuguesa. 
O festival já conta com quinze edições e ainda tem mais concertos até o final de março.

Fotografia: Miguel Lobo

O projeto Fado Violado chegou a terras arcuenses e trouxe com ele o cruzamento de dois estilos musicais que o povo português está pouco ou nada habituado: fado e flamenco.

A força vocal de Ana Pinhal e o ritmo da guitarra de Francisco Almeida uniram-se em 2008 e, até o momento, viajaram pela música, onde o espanhol e o português têm uma ligação natural e muito acarinhada. Esta dupla fez os seus estudos em Sevilha durante três anos e foi aí que a paixão pelo flamenco se tornou uma realidade. "Lembro-me de um dia chegar a casa e ouvir o Francisco a tocar uma música que me era familiar... era a “Barco Negro” e pensei: Eu quero cantar isto! Eu estou a gostar muito disto!", revelou a vocalista.

Design gráfico é a formação académica dos dois portuenses, no entanto, a música corria nas veias e, desde cedo, fizeram parte de um grupo musical amador, os BoiteZuleika. “Cão muito mau” é um dos temas mais conhecidos da banda.

No auditório da Casa das Artes, Fado Violado apresentou o primeiro e único álbum A Jangada de Pedra (2015). É um disco que remete para o livro homónimo de José Saramago, em que há a criação de uma jangada ibérica. “E Tudo o Vento Levou”, “Senhora Da Luz” e a “Rosinha dos Limões” foram algumas das canções do reportório que foram interpretadas.

O jogo de mãos e pés e a guitarra espanhola, invés da portuguesa, marcaram uma posição permanente ao longo do concerto. Embora Ana Pinhal e Francisco Almeida sejam o coração do grupo, o palco também contou com outros músicos onde o baixo, cájon e coro se misturaram.

Apesar dos poucos espetadores, Ana Pinhal não deixou de agradecer ao público a presença de todos. No fim do espetáculo, o público quebrou o gelo, levantou-se e aplaudiu calorosamente o grupo.

Em entrevista, Ana Pinhal não deixa de dizer que A Jangada de Pedra foi bem-recebido pelas pessoas, no entanto admite que "foi mais difícil em Portugal do que em Espanha". "Há um certo receio que o fado vá desaparecer tal como ele é", diz-nos. Mas acredita que "isso não vai acontecer, bem pelo contrário", afirma a intérprete.

O facto de ser guitarra espanhola e não a tradicional portuguesa leva a vocalista a dizer que o nome Fado Violado se traduz por "violar as regras do fado com sonoridades do flamenco".

Apesar da sala estar pouco expressiva, a protagonista do palco diz que se sentiu bastante acarinhada pelos presentes. “Sentimo-nos muito, muito acarinhados... a luz ajudou a ver as pessoas e a deixar o ambiente mais próximo". As novidades passam por um novo disco, contudo ainda não há uma data concreta: "É um trabalho que demora muito tempo, construir músicas, poemas... provavelmente já não vamos conseguir gravar este ano, talvez para o ano". 

Sem antes ter assistido ao vivo a Fado Violado, o espetador Joaquim Barbosa diz que o concerto foi surpreendente. "Na verdade, fiquei surpreendido, foi espetacular. Esta mistura do nosso fado com o flamenco casa muito bem". Confessa, ainda, que tem pena da pouca afluência de pessoas, todavia "o concerto foi bom mesmo assim". 

Sónia e Salete também fizeram parte do público e, tal como o Joaquim, nunca tinha visto o grupo em concerto. Depois de uma breve pesquisa pela internet, as ouvintes não deixaram escapar a oportunidade de "ouvir fado de uma forma diferente, com outro ritmo". Além disso, reconhecem que "a alegria e aquela boa disposição do flamenco combina com a nostalgia do fado português".

[Fotografia: Jorge Silva]

A 15ª edição dos Sons de Vez continua até o fim de março com artistas nacionais como o Pedro Abrunhosa (25 de março). 


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