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Fernando Pimenta, das águas do Lima a herói nacional

Filipa Santos Sousa

Texto: Filipa Santos Sousa |

Nem sempre o percurso do campeão mundial se fez de canoa, de tal modo que a sua primeira incursão desportiva se deu no mundo da natação. Com 70 medalhas internacionais e três condecorações no currículo, o jovem assinou recentemente pelo SL Benfica, mas vai continuar ligado umbilicalmente ao rio que o viu ‘nascer’. Uma história de um ‘guerreiro’ de água doce, de empenho e superação.

Fernando Pimenta é um dos filhos mais célebres de Ponte de Lima e, por consequência, de todo o Minho. Com 28 anos, há muito que inscreveu o seu nome na história do desporto em Portugal, devido às várias conquistas em campeonatos europeus, mundiais e até nos Jogos Olímpicos, onde venceu uma medalha de prata (em Londres 2012). Detentor de um currículo de invejar, nem todos saberão que começou o seu percurso na natação. No entanto, a participação numas férias desportivas promovidas localmente deu-lhe a conhecer um admirável mundo novo: a canoagem. Desde então nunca mais parou e os resultados estão à vista. Ao todo, em provas internacionais, o canoísta tinha em 2017 somado 70 pódios, destacando-se a este nível os títulos de campeão mundial em K1 5000 e de vice-campeão em K1 1000. Mas os seus feitos não se limitam aos cursos de água doce.

“A assinatura do contrato com o SL Benfica foi o culminar de muito tempo de namoro e agora foi a altura ideal”, refere à RUA, Fernando Pimenta, aludindo à recente contratação pelo clube encarnado. Pouco depois, o atleta ficou a saber que iria ser agraciado com as insígnias de Grande-Oficial da Ordem do Mérito pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa: “Fui apanhado desprevenido. Mas é um motivo de satisfação, orgulho e alento para continuar a trabalhar. É bom saber que as mais altas entidades do país estão atentas aos meus resultados. Deixa-me com vontade de conquistar mais medalhas para Portugal”.

O atleta olímpico levou não só o nome da sua terra natal mais longe, mas também o da própria modalidade. Contudo, nenhuma história de sucesso se faz sem sacrifício e superação. “A família é a primeira a ser afetada e a nossa vida [a dos desportistas de alta competição] tem que ser regrada, ou seja é preciso haver equilíbrio ao nível da alimentação e descanso”, confessa, apontando que os doces, fast food e fritos não têm lugar na exigente dieta de um campeão. Mesmo assim, “dependendo da altura do ano, também sabe bem cometer uns ‘pequenos delitos’, desde que não sejam prejudiciais”, graceja. Convidado a falar um pouco mais sobre si, Fernando Pimenta revela que “gosta da natureza, de estar com os amigos e de aproveitar a vida”.

Uma das características que lhe são detetadas facilmente é a sua ambição. Não em jeito de avidez desmedida. Pelo contrário. é com bastante humildade que o reconhecido canoísta define os seus objetivos, dia após dia. Em relação a Tóquio 2020, por exemplo, prefere concentrar-se no presente, ao reconhecer que ainda falta o mais importante, ou seja, a qualificação. “O caminho é longo e tenho muito trabalho por fazer. Falta assegurar um lugar olímpico, no próximo Campeonato do Mundo. Mas, para já, o foco é única e exclusivamente as provas que estão por vir”, salienta.

Fazer uma coisa de cada vez parece ser uma das máximas seguidas por Fernando Pimenta. Terá Portugal perdido um grande fisioterapeuta? Até pode ter sido, mas a verdade é que ganhou um dos atletas com maior relevo e carisma de sempre na história da modalidade no país. “Num momento oportuno tentarei voltar e ter um curso superior. Porém, tudo aquilo que faço gosto de fazer muito bem. Por isso, prefiro apostar numa coisa apenas ao mesmo tempo”, declara. E depois? “Quero continuar ligado ao desporto”, assevera.

Este ‘guerreiro’ de água doce vai continuar a navegar rio acima, rio abaixo, em Ponte de Lima. Não obstante a sua contratação pelo SL Benfica, os hábitos mantêm-se, as cores do emblema é que mudam. Sendo um exemplo para muitos petizes, aqui fica um conselho, na primeira pessoa: “Trabalhem, planeiem para onde querem ir e tracem metas. Há que sonhar e estar focado. Nem sempre tudo corre bem e aí é preciso perceber onde se pode melhorar, procurando trabalhar com ambição e garra”.


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