Revista Rua

Apreciar. Cultura

Filho da Treta

O regresso da treta

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Fotografia: Ivo Rainha

Durante anos, José Pedro Gomes partilhou o palco com António Feio, protagonizando uma Conversa da Treta que ficou na memória de todos os portugueses. Agora, a icónica peça regressou, com os ajustes que o destino obrigou a traçar. António Machado junta-se ao personagem Zezé, dando vida ao Júnior, o Filho da Treta. Num espetáculo digno de homenagem a António Feio, falecido em 2010, José Pedro Gomes e António Machado reavivaram memórias no Pavilhão Multiusos de Guimarães, no início de maio.

O palco ainda era alvo de alguns ajustes de luzes quando nos sentamos com António Machado, enquanto José Pedro Gomes se ia preparando no camarim. Sempre bem-humorados, como se já estivessem em cena, vão falando da peça que, desde setembro de 2016, tem marcado o regresso do registo Conversa da Treta... e o regresso do próprio José Pedro Gomes aos palcos, depois dos problemas de saúde. Sentado na cadeira que, horas depois, iria ocupar, António Machado falou-nos do personagem que traz à história: Júnior. “Este Júnior é supostamente o filho do Toni. É uma personagem nova, que traz a onda dos telemóveis, das startups, do crowdfunding e todas essas nomenclaturas que servirão para arranjar ainda mais confusão na cabeça do Zezé. Mas, sempre com o seu humor ou falta dele, o Zezé vai-se adaptando a este novo mundo. Contudo, este Júnior fala sobre muita coisa que não percebe, que é o que acontece hoje em dia com as redes sociais: as pessoas têm uma opinião sobre tudo, mas não são opiniões fundamentadas. Obviamente que este Júnior coloca estas coisas em sítios que não fazem sentido nenhum”, conta, divertido, o ator. Com diversos temas a conduzir a peça, escrita por Filipe Homem Fonseca e Rui Cardoso Martins, mas constantemente ‘reinventada’ face à pertinência de certos eventos, como os 100 anos das aparições de Fátima, a visita do Papa a Portugal e a participação de Salvador Sobral no Festival da Eurovisão, António Machado conta-nos que há sempre espaço para o improviso. “Muitas vezes, sai-nos coisas e isso é o que faz a peça evoluir. A mim dá-me sempre vontade de rir, mas temos de nos controlar”.

Com influências de Toni visíveis na própria indumentária de Júnior, como o chapéu com detalhes semelhantes ao inconfundível colete da personagem de António Feio, este Filho da Treta “acaba por ser uma homenagem, mesmo não sendo esse o intuito”. O ator explica: “Nós falamos várias vezes do Toni, mas não há intuito nenhum de puxar a lágrima. Acaba por ser uma homenagem porque não há dia em que façamos a peça e não nos lembremos: ele estará orgulhoso de ver isto? Para mim, é um orgulho muito grande poder estar aqui”.

Já tendo partilhado o palco com José Pedro Gomes noutras ocasiões, António Machado diz-nos, com toda a convicção, que o sucesso da peça Filho da Treta tem sido uma surpresa. “Foi uma surpresa porque era um risco muito grande. Fazer uma peça que é uma continuação de uma Conversa da Treta, com a mesma genética, mas com outra pessoa, iria resultar? Se calhar, no início, o José Pedro estava sempre a lembrar-se do António Feio... os sítios a que vamos, ele por lá já tinha passado com ele. Poderia ter sido um bocadinho estranho. Mas o feedback tem sido muito bom! Mesmo em relação à minha performance... e ainda bem! O público tem aderido em massa, o José Pedro está maravilhoso, voltou em grande, e eu acho que entrei com uma forte carga emocional, com uma responsabilidade muito grande. Acho, seguramente, que as pessoas já tinham saudades deste registo”.

Com espetáculos até outubro, parando apenas durante julho e agosto, os dois ‘treteiros’ não têm parado, para grande satisfação do público que ainda ri, com entusiasmo, em todos os “suponhamos” e todos as confusões que assombram a cabeça de Zezé e Júnior.


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