Revista Rua

Observar. Talento

Florisa Novo Rodrigues e um fluxo de sensibilidade e sonho

Texto: Helena A. M. Pereira |

Natural de Viana do Castelo, mas com raízes em Guimarães, a jovem artista tem na Arquitetura a maior fonte de inspiração para as suas ilustrações.

 

[Cinema Odeón]

 

O que há em comum entre os rodopios de Fred Astaire (1899-1987), as estranhezas do lugar do amor e dois edifícios emblemáticos de Braga e Guimarães?

Orson Welles (1915-1985) escreveu que “O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho.” Poderia estar aí a ponte entre as referências citadas. Contudo, se lhe juntarmos a utopia de Oscar Niemeyer (1907-2012) quando nos diz que “De um traço nasce a arquitetura. E quando ele é bonito e cria surpresa, ela pode atingir, sendo bem conduzida, o nível superior de uma obra de arte.”, chegamos a uma possível síntese com Florisa Novo Rodrigues (n.1991).

A jovem artista nasceu em Viana do Castelo, tem raízes em Guimarães, onde vive, e foi também nesta cidade que completou a licenciatura em Arquitetura, pela Universidade do Minho. A Arquitetura é, de resto, a maior fonte de inspiração para os cenários que cria nas ilustrações em que combina a colagem (física e não digital) e o desenho de traço, simultaneamente, rigoroso e delicado. No edificado, o olhar da artista recai sobre a passagem do tempo e sobre as possibilidades de representação que, a partir daí, se abrem ao campo interpretativo.

Na última exposição da galeria shairart dst em que participou (patente entre 4 de março e 29 de abril de 2017) o seu foco foram os edifícios (antigos) dos cinemas Geraldo (Braga), Jordão (Guimarães), mas também o Odeón, Londres, Império, Capitólio e Europa (Lisboa) e o Batalha (Porto), numa inscrição perfeita que faz em algumas das grandes tendências da produção artística contemporânea. Ao edificado soma paisagens e memórias (reais ou imaginadas), provenientes do universo Pop, facilmente identificáveis.

Regressando ao Baixo-Minho, Geraldo e Jordão fazem parte de uma memória coletiva, por um lado, e, por outro, da indignação contemporânea por estes edifícios terem sido votados a novas funções ou, simplesmente (no caso do Geraldo), por estarem desfuncionalizados e com o seu futuro em discussão pública não-oficial. Florisa, arquiteta e cinéfila, não é indiferente e é através das suas ilustrações, e da sua sensibilidade, que promove a reflexão sobre a relação que os cidadãos mantêm com o património imóvel. 

Na série de trabalhos aqui escolhida, Florisa Novo Rodrigues inspira-se em artistas e intelectuais como Neil Krug, Pablo Thecuadro ou Bruno Munari. Expõe, coletivamente, desde 2014 e na exploração desta ligação – que tem a ilustração como veículo – entre a sua capacidade de olhar a Arquitetura e o universo da cultura de massas reside a originalidade do seu trabalho. 

 

[Teatro Jordão]


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