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Fotografar o silêncio

Catarina Rodrigues está na RUA

Nuno Sampaio

Texto: Nuno Sampaio |

As tuas fotografias parecem filmes: quase sentimos o frio, o calor, quase “ouvimos” pequenos sussurros. Onde é que procuras as tuas fotografias?

O cinema é a maior influência na forma como fotografo. Curiosamente, quando penso em gravar algo, apenas consigo pensar em imagens estáticas. Esta relação, nesta base, permitiu-me desenvolver a forma como retiro elementos “vivos” no espaço que me rodeia e como os insiro na minha prática fotográfica, sendo um meio estático. Desde que comecei a viajar sozinha para sítios não familiares, a atenção e fascinação pela natureza aumentou, o que me fez dar mais importância a momentos caracterizados pelo fervor de um dia solarengo e o silêncio de um sítio remoto. Procuro as minhas fotografias nos momentos mais vulneráveis de um dia banal, especialmente quando a luz não nos permite visualizar o rosto de alguém na totalidade, por exemplo. Quando não conseguimos ter esse acesso visual fácil, há espaço suficiente para que a nossa curiosidade e intriga cresça.

 

Encontrámos retratos espalhados pelos teus sítios, retratos que os completam, os lugares, as linhas, as perspetivas. Os teus retratos são a tua sombra, no sentido de procura de um espelho existencial?

Sim, sem dúvida. Fotografar pessoas é o meu tópico favorito em fotografia, nomeadamente quando tenho a oportunidade de as integrar numa paisagem, que lhes seja familiar ou não. A presença de personalidades tão diferentes torna um espaço físico ainda mais interessante, quase como se a individualidade de alguém complementasse a estética de um lugar. Os retratos presentes no meu trabalho não são só apenas uma extensão do espaço em volta, mas também uma extensão de mim, pois a maneira como vemos os outros é muitas vezes um reflexo da forma como nos vemos a nós próprios.

 

Existe uma sensação de vazio, uma calma acima do caos, um suster da respiração. Esse é o teu espaço ideal para fotografar?

Espontaneamente procuro ser um ser criativo num espaço sem “barulho de fundo” e juízo de valor, portanto, sim. O ato de criar torna-se impossível se estiver rodeada de caos, dado que interfere na forma como tento estabelecer uma ligação, emotiva ou não, com o que quero fotografar. Procuro inconscientemente lugares que nos façam sentir como se não houvesse mais nada para além daquilo. Procuro as minhas fotografias onde não há distrações, pois só assim é que me consigo ligar realmente a um dado tema, o que me faz sentir mais próxima do motivo de estar a fotografar.

 

Há algum lugar especial que procuras incessantemente para fotografar? Porquê?

Para mim, um dos grandes focos em fotografia é a forma como o ambiente geográfico afeta as nossas emoções e comportamentos. Gosto imenso de fotografar quando viajo para sítios rodeados de natureza, onde estamos longe do rebuliço das cidades e podemos fazer caminhadas longas. Estar em sítios como o lago Bohinj, na Eslovénia, e a ilha de Gotland, na Suécia, mostraram-me que é precisamente nestes sítios isolados onde gosto de fotografar pois a imensidão do que me rodeia traz-me tranquilidade, mas também curiosidade. Para além de todos os lugares que me fazem sentir mais próxima de mim mesma, procuro os sítios que me trazem uma sensação de desconforto. Quando estamos perante uma situação dessas, é porque algo requer uma ação da nossa parte e, muitas das vezes, nem sequer conseguimos converter em palavras o que está escondido no nosso inconsciente.

 


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