Revista Rua

Apreciar. Música

Galo Cant’às Duas

“Fazemos sempre questão que cada concerto seja um momento único”

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Hugo Cardoso e Gonçalo Alegre são os rostos da banda de Viseu, Galo Cant’às Duas. Com um álbum puro e expressivo, intitulado Os Anjos também cantamestes Galos preparam-se para atuar no Contemplarte, em Joane (Vila Nova de Famalicão), já este sábado, 21 de abril. A RUA esteve à conversa com os artistas, numa entrevista sobre o amadurecimento da sua música e o feedback positivo que o novo álbum tem recebido. 

Em primeiro lugar, gostaríamos de conhecer aquilo que vos une. Quem é Gonçalo Alegre e Hugo Cardoso e como é que a música vos une? 

O que nos une é uma vontade enorme de partilhar a nossa música por esse mundo fora. Acreditamos que com foco, humildade e profissionalismo conseguiremos voar com o Galo e com a música que compomos. Desde muito cedo que a música está presente nas nossas vidas, as bandas e o sistema de ensino direcionado para a música fez e continua a fazer parte do nosso processo como compositores e instrumentistas.

 

É impossível não perguntarmos: Qual é a origem do nome Galo Cant’às Duas?

Fazemos parte de uma Associação Cultural, e todos os anos é organizado um encontro de artes na aldeia da Moita, em Castro Daire. No parque de campismo do evento tem alguns galinheiros com uns galinhos muito bem-dispostos, que cantam a todas as horas do dia, sem descanso. Foi nesse encontro de artes que começámos a tocar em duo. Resolvemos então fazer essa homenagem aos nossos amigos Galos.

 

Ousadia e virtuosismo são adjetivos usados frequentemente para descrever o vosso trabalho e as vossas atuações ao vivo. Antes do lançamento do disco, já tinham recebido um feedback bastante positivo das vossas atuações ao vivo. Isso deu-vos ânimo para continuar a investir num projeto musical?

Claro que quando sentimos que as pessoas gostam e acham interessante o nosso trabalho, seja ele qual for, o processo torna-se mais fácil. A música do Galo sempre foi muito bem-recebida pelas pessoas que já ouviram ou viram os nossos concertos -  sentimo-nos uns felizardos e andamos de coração cheio com vontade de dar mais e mais.

Em termos de sonoridades, como descrevem a vossa música? Notam uma evolução desde os primeiros concertos até agora? Começaram por explorar a bateria, a percussão e o contrabaixo para evoluírem para sonoridades compostas com baixo elétrico e guitarra. Porquê esta necessidade? 

Sentimos que a música do Galo não se consegue encaixar apenas numa gaveta. Viajamos por variadas sonoridades – esse sempre foi o nosso objetivo. Os primeiros concertos eram ainda uma procura, tínhamos uma estrutura, mas muito do que se passava era improvisação. Essa improvisação ainda acontece, mas já é muito mais controlada até porque a estrutura está muito mais coesa e clara nas nossas cabeças, já sabemos para onde queremos ir com toda a direção. Essa evolução acontece de dia para dia e conseguimos ver isso. 

Essa exploração inicial tem a ver com aquilo que nós na altura procurávamos – pura improvisação, comunicação, sem qualquer tipo de estrutura. Com o passar do tempo fomos ganhando outras vontades, queríamos encontrar o equilíbrio dessa improvisação com uma estrutura. Consideramos um desafio bem interessante. Encontrar o equilíbrio no que quer que seja é sempre um trabalho diário. 

 

Como descrevem os vossos concertos iniciais e como estão a planear os próximos? Continuará o formato de jam que caracterizava os concertos iniciais?

Fizemos apenas um concerto de pura jam, que foi o primeiro, tudo o que se seguiu já tínhamos uma estrutura que era equilibrada com as nossas procuras sonoras. De concerto para concerto, com o nosso trabalho na sala de ensaios, o set foi ficando cada vez mais estrutural. As formas e cores foram ficando mais claras. Os concertos de agora já estão ligados ao disco, achamos que conseguimos encontrar o tal equilíbrio.

 

Continuam sem assumir um rótulo/género musical? Ou já conseguem incluir o vosso trabalho num determinado género?

Não assumimos um rótulo porque nem sequer temos essa necessidade. É uma viagem que fala por si.

 

Com o passar do tempo, parece que adaptaram a vossa música à vossa própria maturidade. O Gonçalo e o Hugo de hoje são mais maduros em termos musicais? A vossa própria linguagem musical está diferente? Mais crescida?

Está tudo ligado, o tempo vai passando, vamos ficando mais velhos, a maneira de olharmos para a vida em geral vai-se modificando – tudo conta para essa evolução, maturidade. Temos trabalhado muito, é normal que a nossa perspetiva se vá alterando sobre o nosso trabalho. 

 

Como definem o vosso processo criativo/de composição?

O processo de composição acaba por ser um pouco individual. Quando estudamos instrumento surgem ideias singulares, pedimos a opinião um do outro e se acharmos interessante vemos o que nos pode soar bem ou não. A partir daí tentamos encaixar os fatores que damos importância, como dinâmicas, tensão ou os silêncios.

Classificariam o álbum Os Anjos também cantam como maduro, expressivo e orgânico? O que significa este álbum para vocês?

São uns adjetivos interessantes, sim. Este disco é o nosso lado mais puro, decidimos arriscar em tudo. Os nossos temas em geral não têm o tempo normalmente usado para passar nas rádios, por exemplo. Foi toda uma libertação, uma espécie de Grito do Ipiranga. Fizemos aquilo que estávamos a sentir, sem pensar no que poderia acontecer depois.

 

Falando do tema “Marcha dos que voam”, qual é a mensagem que pretendem difundir com o tema?

Ao compormos o tema não estávamos à procura do que queríamos transparecer diretamente. A sonoridade surgiu, depois as pessoas sentem cada uma à sua maneira. Só depois do tema estar completo é que ouvimos e discutimos alguns nomes, dependendo de como estávamos a sentir a música. “Marcha dos que Voam” pareceu um nome que fazia sentido para aquelas sonoridades, tem um groove um pouco afro e um solo de guitarra que começa no tempo e que depois parte para onde for, comunicando com a bateria. 

 

O videoclipe desse tema é rodado com crianças. É uma forma de interpretarem a tal pureza do ser? Qual é a mensagem associada ao videoclipe?

As crianças interpretam os seres puros, sem qualquer carga às costas. Existe toda uma procura de um talismã, que as vai guiar para o além, levantando voo, conhecendo outras realidades e perspetivas. Nós é como se fossemos gurus, seres mais experientes e, ao mesmo tempo, mais pesados, animais de carga. Estabelecemos a marcha às crianças e mostramos-lhes variados caminhos para chegarem ao objetivo. Cabe a elas depois decidirem a melhor opção. 

 

Contaram com a ajuda de Makoto Yagyu e Fábio Jevelim no processo de produção do disco. Como foi este processo?

Fomos para o estúdio já bem focados no que queríamos, preparamo-nos bem. Tivemos cinco dias no Haus, tínhamos que gravar tipo em dois dias, porque o resto dos dias era para a masterização e mixagem. Este contrarrelógio acabou por criar alguma pressão em nós, mas com a ajuda do Fábio e do Makoto as coisas ficaram mais fáceis. Eles opinavam quando achavam que fazia sentido e foi ótimo ter existido essa partilha. Ficámos muito felizes com o resultado final.

 

Os Anjos também cantam, mas só em “Partícula”. Porquê?

Não, os Anjos cantam sempre. No tema “Partícula” o que aconteceu foi os Anjos apoderarem-se das nossas vozes e com isto torna-se mais fácil dar com a presença deles. Eles estão presentes em todos os temas, temos apenas de ganhar a capacidade de os ouvir.

 

O uso de loops sonoros nos temas do álbum funcionam como camadas de som complexas e multifacetadas? O que pretendem com estes loops?

Quando estávamos a compor queríamos chegar a um clímax, ou seja, começar a construir um tema e passar por variadas dinâmicas, através de tensões e respirações. Penso que o nosso disco não soa a duas pessoas, mas sim a uma formação de três, quatro pessoas – isto deve-se ao trabalho que fizemos com os loops, permitiu-nos ter um chão e ganhar liberdade para levarmos a música para outros lados.

 

Luís Sobrado disse que as vossas canções, embora não fossem futuristas nas texturas ou no método, conseguem ser inovadoras e imprevisíveis na sua forma e estrutura. Era este feedback que pretendiam?

Podemos dizer que é um ótimo feedback, visto que muitas vezes não procuramos o óbvio, mas sim conseguir surpreender de alguma maneira. Como já foi referido, procuramos sempre o que nós entendemos como equilíbrio e parece-nos um fator bem conseguido.

 

O que têm programado para os próximos concertos?

Na verdade, não será assim tão diferente do que tem sido até aqui. Fazemos sempre questão que cada concerto seja um momento único. O que vires hoje, amanhã já não será igual. Conseguimos arranjar sempre ferramentas para levar a música a diferentes formas. Damos valor a isso também como espetadores. 


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