Revista Rua

Saber. Refugiados

Gevgelija, a sinuosa passagem para a Europa

Fotografia por Sandra Ribeiro

“O meu sonho é chegar à Alemanha”. Shaza Ahmad sorri com os olhos. De um verde intenso, transmitem calma e uma doçura adolescente. Nasceu no Brasil, no seio de uma família com ascendência palestiniana mas foi na Síria que encontrou aquela que foi em tempos a sua casa. “Tenho 17 anos e fugi de Damasco, no início de Setembro, juntamente com a minha família [mãe, prima e irmão]. O meu pai está desaparecido. Não tínhamos casa, comida, água, luz, nada”.

Sandra Ribeiro e Ana Cancela

Texto: Sandra Ribeiro e Ana Cancela |

“O meu sonho é chegar à Alemanha”. Shaza Ahmad sorri com os olhos. De um verde intenso, transmitem calma e uma doçura adolescente. Nasceu no Brasil, no seio de uma família com ascendência palestiniana mas foi na Síria que encontrou aquela que foi em tempos a sua casa. “Tenho 17 anos e fugi de Damasco, no início de Setembro, juntamente com a minha família [mãe, prima e irmão]. O meu pai está desaparecido. Não tínhamos casa, comida, água, luz, nada”.

O país tornado num terrível campo de batalha, em pleno cenário de guerra assiste-se à deterioração absoluta das condições de vida. No quinto ano consecutivo de guerra na Síria, os números escalaram rapidamente. Os mais de quatro milhões de refugiados sírios encontram-se distribuídos por países como a Turquia, Egipto, Líbano, Iraque e Jordânia e a solução para o conflicto está longe de se avizinhar. Shaza continua “Fomos de autocarro até Esmirna, na Turquia, e aí embarcamos de madrugada num barco de borracha, éramos 42 pessoas, e estávamos todos molhados, com muito frio e medo nas três horas de viagem até Mitilene”.

 

Depois do perigo da travessia e dos 1000 dólares pagos por cada membro da família ao traficante, chegam a Lesbos, ilha na qual atracam mais de 60% dos refugiados e migrantes que atravessam o Mar Egeu, segundo dados oficiais do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). “Caminhamos mais de três horas até ao campo, de modo a obtermos os papéis que nos permitissem sair da ilha e, um dia depois, fomos de ferry até Atenas. Depois de autocarro até Idomeni. A primeira viagem custou €60 a cada um, a segunda €35. E agora chegamos aqui, à Macedónia”.

 

Os números oficiais apontam para uma média de 10 000 pessoas que, por dia, passam em trânsito pelo campo de Vinojug, na pacata cidade de Gevgelija, na fronteira entre a República da Macedónia e a Grécia. Um fluxo ininterrupto de pessoas ao qual uma observação mais atenta permite distinguir traços de múltiplas etnias e origens, tão íntima é a história que cada rosto ilustra. São sírios na sua maioria mas também afegãos e iraquianos e, em número bastante mais reduzido, sudaneses, palestinianos, eritreus, paquistaneses e de minorias étnicas provenientes do Médio Oriente.

O campo de Vinojug representa o ponto de entrada na Macedónia, mais uma etapa a caminho do destino final, invariavelmente a Alemanha e os países nórdicos. Chegam em grupos de cem pessoas vindos do campo de Idomeni, na Grécia. Entre um país e outro caminham pouco mais de 500 metros. Ao seu dispor encontram comida, água e os serviços mínimos garantidos, assim como assistência médica sendo que algumas Organizações não Governamentais (NuN Association, Legis, Ágape), Cruz Vermelha, UNICEF e ACNUR estão operacionais desde a abertura do campo em Setembro passado.

O campo é de transição porque ninguém permanece mais do que o tempo estritamente necessário para a obtenção do visto temporário e embarque num dos três meios de transporte disponíveis até à cidade de Tabanovce, já na fronteira com a Sérvia. As carruagens partem trancadas, completamente sobrelotadas, e os bilhetes de comboio têm o preço de €25 por pessoa, sendo o valor anteriormente praticado de apenas €5. Idiossincrasias de um país europeu periférico que se vê a braços com uma calamidade humana sem precedentes nas últimas décadas. Ou simplesmente a noção, profundamente alimentada pelo lucro imediato, de aproveitamento da miséria alheia.

 

Dados oficiais do ACNUR revelam que, em 2015, mais de 700 000 refugiados e migrantes chegaram à Europa usando a rota do Mediterrâneo, naquela que é tida como uma das mais perigosas mas simultaneamente, mais eficazes rotas de travessia. Mais de 3400 pessoas perderam a vida tentando chegar à Europa via Mar Egeu. “A travessia é feita a maior parte das vezes em barcos de borracha muito frágeis que partem da Turquia para uma das ilhas gregas. Cada colete salva-vidas custa €200 e o preço da viagem depende do traficante, podendo ir facilmente até aos €6000 por pessoa”, testemunha Nazih, arquitecto sírio de 34 anos, em fuga à uma semana desde Alepo.

 

Relato bem mais chocante é o de Ali, um engenheiro mecânico palestiniano, de 52 anos, refugiado ele mesmo na Síria e antigo residente no campo de Yarmouk, em Damasco, controlado pelo Daesh desde Abril passado e palco de intensos combates entre jihadistas, forças governamentais e grupos armados palestinianos. “A fome começou a matar. Desde Abril, 108 pessoas morreram dentro do campo. Tive de comer um gato para sobreviver. Vi pessoas a serem degoladas à minha frente e quando pensava que ia morrer, consegui escapar. Estou profundamente agradecido porque agora cheguei à Europa”. Uma promessa de vida anunciada, uma ténue esperança num futuro possível porque para trás o que fica é apenas morte.

 

 

 


  • José Costa

    Assassinos, criminosos, Americanos , Europeus, Sírios, Arábia Sauditas, Turcos. Mantém uma guerra para mudar um ditador por outro. Exploram os refugiados de todas as maneiras possíveis. Ninguém merece passar por tantos tormentos, Crianças se infância, sem futuro e sem esperança.

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