Revista Rua

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GrandFather’s House - Alegoria do rock

O projeto GrandFather’s House começou há cinco anos na casa da avó dos irmãos Tiago e Rita. Hoje, juntamente com João, já atuaram em festivais como Vodafone Paredes de Coura e o Sziste, na Hungria, um dos maiores festivais da Europa. São uma das bandas portuguesas mais promissoras e nós fomos saber como tudo começou e até onde querem chegar.

Nuno Sampaio

Texto: Nuno Sampaio |

O projeto começou com o Tiago em 2012 como One Man Band. Como é que tudo se foi construindo até chegarem aqui?

Tiago - Foi por necessidade de querer criar algo cada vez maior. Quando criei o projeto era para ser algo mais caseiro, no qual eu é que decidia tudo. Depois, achei que isto não tinha tanta piada sozinho. Falei com a Rita e, mais tarde, achámos que havia necessidade de uma bateria e falámos com o João. Neste disco, percebemos que havia necessidade de introduzir mais uns teclados e falámos com o Nuno. Nunca fechamos as portas e tentamos dar ao projeto o que achamos que ele precisa. De hoje para amanhã podemos precisar de uns sopros. Depende muito da necessidade.

 

O vosso som parece definir-se dentro do conceito de rock americano, onde podemos encontrar ligações a nomes como Cat Power, Alabama Shakes ou The Black Keys. Depois existe um lado mais sintético a puxar para um psicadelismo nacional por exemplo em “Sweet Love Making". Onde é que se encaixa a vossa música?

Rita - É sempre uma pergunta difícil, pelo menos para mim, porque quando faço música não estou a pensar em nenhum estilo ou em algo que o defina. Não tento colocar a música dentro de uma caixa ou colocar um rótulo. O que define a música é o que nós pensamos quando estamos a criar, a compor. O que me inspira e sempre me inspirou foram coisas que sinto no dia a dia, o quotidiano. Claro que a música que ouço tem sempre alguma influência.

Tiago - Consciente e inconsciente. Até mais na parte inconsciente. Às vezes vais buscar coisas engraçadas e nem reparas. O melhor de tudo isto é que cada um de nós ouve coisas muito diferentes. Quando chegamos à sala de ensaios, cada um tenta dar um bocado de si à música. O mais engraçado é juntar isso tudo e isso é que nos dá a nossa identidade.

 

Skeleton é um EP com contornos mais vincados no rock e blues, por vezes mais acústico. Slow Move é mais eletrónico, mais animal. Veem estas mudanças como progresso natural?

Rita - Sim. Sempre foi natural, moldamo-nos à evolução da formação da banda também. Com o Skeleton era só eu e o Tiago. Quando entrou o João surgiu o Slow Move. Surgem novos membros, novas influências e novas formas de pensar.

 

Já fizeram uma tour pela Europa. Existem diferenças a considerar quando tocam lá fora?

Tiago - Algumas. Primeiro o público.

João - As pessoas, lá fora, não são tão efusivas durante o concerto, mas, em contrapartida, no final do concerto, toda a gente vem ter contigo dar-te os parabéns. Aqui em Portugal as pessoas mostram-se mais energéticas durante o concerto, com moches e tudo mais. Lá fora sentimos que as pessoas estão mesmo atentas ao concerto e a todos os pormenores.

Tiago - É também interessante reparar que, conforme vais andando, os públicos são sempre diferentes. Em Portugal, no Norte, são mais espevitados, e no Centro e Sul já são um pouco mais tímidos.

Rita - Mas existe uma coisa pela qual tenho preferência: lá fora o pessoal adere muito mais. Compram mais discos, mais t-shirts, merchandising em geral. Compram também muitos vinis. Há aquela cultura de comprar o CD quando se gosta do concerto.

João - E os concertos são às 21h e as pessoas estão lá 15 minutos antes. Quando a banda chega, a sala está cheia.

Rita - Aqui temos sempre que esperar pelo público.

Tiago - Estávamos a tocar na Alemanha e uma das coisas que notámos foi que tentaram não criar nenhuma barreira entre os músicos e os espetadores. Aconteceu um episódio curioso nesse concerto em Berlim. No final do concerto, um espetador veio ter comigo e perguntou-me se eu era o rapaz da banda, ao qual eu disse que sim. Ele disse que na semana anterior ao nosso concerto tinha ido ver Foo Fighters e que tinha gostado mais do nosso concerto (risos).

 

Sentem que tocar lá fora, de uma certa forma, vos pode influenciar na composição de novas músicas?

João - Sim, claro. Sobretudo as viagens (risos). Passámos muito tempo juntos dentro da carrinha. São seis horas de viagens quase todos os dias, a ouvir música e a partilhar ideias.

 

O que trouxeram na bagagem? Qual a mensagem mais importante a reter? Alguma coisa que gostassem que mudasse cá?

Rita - A cultura de ir a concertos. E a questão dos horários. O público português chega sempre atrasado aos concertos.

 

Por cá, como tem sido a reação do público ao vosso trabalho?

Rita - O primeiro single que lançámosYou Got Nothing To Lose”, tem tido uma adesão muito boa. Até fomos apanhados um bocadinho de surpresa. Existe muita gente a partilhar a música e as opiniões têm sido muito positivas.

 

“You Got Nothing To Lose” é o primeiro single do vosso trabalho mais recente, Diving, que foi lançado em setembro. O que podemos esperar deste novo álbum? Vem aí alguma mudança?

Rita -
O álbum surgiu de uma residência artística no gnration, em Braga, que foi o principal impulsionador para que este álbum acontecesse. Foi uma experiência incrível, tivemos a oportunidade de gravar no estúdio da Mobydick Records, com o Budda Guedes. Tivemos a oportunidade de trabalhar com músicos convidados, como é o caso de Adolfo Luxúria Canibal (voz), Mário Afonso (saxofone) e Nuno Gonçalves (teclas). Foi bom passar cinco meses fechados na sala de ensaios a compor. Depois, sair daqui e partir para um sítio diferente, trabalhar com pessoas diferentes, é sempre muito bom.

Sim, há diferenças, há novidades. Temos um novo elemento ao vivo a partir de agora, o Nuno, que para além de músico convidado, esteve connosco durante todo o processo e compôs o álbum connosco.

Tiago - Há uma mudança muito evidente do primeiro disco para este e o que despontou essa mudança foi essencialmente estarmos tanto tempo fechados na sala de ensaio. A Rita trouxe um álbum de Radiohead, In Rainbows, eu de Portishead, Roads e o João um álbum de Air, Moon Safari. Depois passávamos metade do tempo a ouvir os discos e a ter ideias. Dissecávamos os discos e o resto do tempo era para tocar, para criar. Foi um processo completamente diferente de tudo aquilo que tínhamos feito até agora.

 

Nos últimos cinco anos houve um acréscimo de bandas portuguesas que, em pouco tempo, se tornaram já símbolos do panorama musical nacional e até internacional. Porque é que acham que isto está a acontecer?

João - Há mais condições, mais espaços.

Tiago - Mas eu acho que foram os próprios músicos que criaram esses espaços.

Rita - Acho que isto é um ciclo. Houve uma altura que também houve um boom, talvez nos anos 90, surgiram imensas bandas, mesmo aqui em Braga. Depois tenho noção que isso foi um bocado abaixo e agora tudo voltou, porque as bandas sentiram essa necessidade, de procura de meios e formas para atingirem os seus objetivos. As coisas tinham que acontecer. Os músicos adotaram aquela filosofia do do it yourself.

Tiago - A música, hoje, está na moda; a música ao vivo está na moda. Em 2000 apareceram os Dj’s, era uma novidade. Penso que agora as pessoas já se estão a fartar um bocado e estão a descobrir outros mundos na música, outra geração.

Rita – Para além disso somos um dos países da Europa com mais festivais.  

 

Onde é se veem daqui a dez anos?

Rita - Daqui a dez anos espero estar a tocar e a fazer música. Não importa onde.


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