Revista Rua

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Guardas imperiais que falaram. E que fizeram questionar.

Sara Lopes

Texto: Sara Lopes |

“O espetáculo fala por si só”. Foi assim que Rafael Primot, encenador de Os Guardas do Taj, explicou a peça, ainda antes de ela estrear. Em Braga, cinco dias depois, tudo terminou com uma ovação em pé.

Durante quatro dias, três noites e uma tarde, Reynaldo Gianecchini e Ricardo Tozzi levaram Braga até Agra. O Taj Mahal tinha acabado de ser construído e Humayun (Gianecchini) e Babur (Tozzi), enquanto guardas imperiais, estavam destacados para o turno de vigia noturno.  De Portugal para a Índia, para um tempo onde não se podia questionar as ordens do imperador Shah Jahan.

Babur chegou atrasado ao seu posto como sempre. Tinha sonhado com uma invenção que o iria permitir sobrevoar as estrelas: o “aeroplá”. O prático Humayun, que cumpria todas as regras, insistia para que o amigo estivesse quieto e calado. Afinal de contas, “guardas imperiais não falam”. É aqui que começa Os Guardas do Taj. De costas para o Taj Mahal, dois amigos, um sonhador e outro mais pragmático, falam de sonhos, do poder instalado e de uma das lendas que paira sobre a construção do monumento: a mutilação de 44 mil mãos.

Segundo reza a lenda, para que nunca mais fosse construído um edifício mais belo do que o Taj Mahal, o imperador mandou cortar as mãos de todos aqueles que o ajudaram a construir. E a quem calhou esta tarefa? Aos dois guardas noturnos. A partir daqui, tudo mudou. A linguagem da peça ficou mais forte, com a utilização de calão e palavrões, que estranhamente causavam risos na plateia, mesmo quando incluídos em cenas dramáticas, onde se questionava o que era certo ou errado.

“Estamos num momento bonito no Brasil, em que muita gente sai à rua e diz ‘basta’. Estes políticos todos não nos representam. Quem disse que nós queremos isto?”, questionou Gianecchini depois do primeiro ensaio geral realizado em Braga, comparando o atual clima político brasileiro com o dilema moral vivido por Humayun e Babur. “Principalmente se o rei se preocupa só com os seus próprios interesses”, contrapôs Tozzi.

Para os dois guardas, não restou opção. Cumpriram as ordens do imperador. “Ou a gente obedece ou a gente morre”, disse Humayun a Babur, em jeito de desculpa pelo que tiveram de fazer. Um cortava aos mãos, outro cauterizava os tocos. Momentos pesados e dramáticos, somente suavizados por uma música sussurada por Humayun e pelas invenções de Babur, que sobrevoavam as estrelas e levavam pessoas para a Turquia.

Para além da ordem estabelecida, houve conversas filosóficas sobre a beleza, sobre o ter de “fazer certos trabalhos para poder subir na vida” e sobre a influência dos pais na educação das crianças. “Na última cena, Humayun mostra a alma dele. Conta que entalhou um passarinho e o pai disse que era besteira e ele parou”, explicou Tozzi, afirmando que as crianças têm a sua essência e que os “não pode” dos pais condicionam o seu crescimento.

Uma hora e meia depois, entre risos e, para os mais sensíveis, lágrimas de 2863 espectadores que passaram pelo Theatro Circo, a jornada destes dois guardas terminou. Terminou em Braga, onde ambos os atores agradeceram pela hospitalidade, para passar por Famalicão e Póvoa de Varzim, estando em Lisboa até 17 de dezembro. 


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