Revista Rua

Apreciar. Música

Harmonies - Talento vezes três

Joana Gama, Luís Fernandes e Ricardo Jacinto trouxeram o projeto Harmonies no Theatro Circo. 

Redação

Texto: Redação |

Numa autêntica ode ao trabalho do compositor Erik Satie, o trio Joana Gama (piano), Luís Fernandes (eletrónica) e Ricardo Jacinto (violoncelo, eletrónica e cenografia) apresentaram Harmonies na sala principal do Theatro Circo, a 18 de fevereiro. Num espetáculo que trouxe uma interpretação original da obra do compositor francês, os três artistas explicaram à RUA o contexto do projeto e os planos para a continuação de um trabalho que junta três talentos. 

Fotografia: Theatro Circo © Paulo Nogueira

 

Como é que este trio se une?

Joana Gama – O Luís e eu já tínhamos trabalhado juntos num projeto chamado QUEST, de piano e eletrónica. No ano passado, recebi um convite do Teatro Maria Matos para fazer um trabalho à volta do compositor Erik Satie, que completaria 150 anos no ano passado, e pensei logo no Luís como cúmplice para este trabalho. Juntos chegamos à conclusão que o Ricardo seria a pessoa indicada para se juntar ao grupo, pela sua vertente como artista plástico e como músico.

 

Como explicam o projeto Harmonies?

Ricardo Jacinto – Isto foi um co-produção entre quatro teatros: Maria Matos, Theatro Circo, Convento de São Francisco e Rivoli. Este espetáculo foi a última apresentação dos quatro. O que apresentámos no Theatro Circo foi, no fundo, o mesmo espetáculo que já foi apresentado nos restantes. Eu participei na composição das peças e vou tocar também, mas de algum modo sou o responsável pela cenografia, embora isto tenha sido um processo muito partilhado. O que fizemos foi, tanto na música como nesta parte mais plástica, recolher partes da obra de Erik Satie, daí também o nome que escolhemos para o projeto. Harmonies vem dos estudos harmónicos que ele compôs e que não é uma peça muito tocada.

Joana Gama – Aquilo na verdade era um esboço e essa ideia de partir de um esboço do próprio Satie e desenvolvê-lo deu origem a esse projeto.

Ricardo Jacinto – Cada um de nós acabou por ser guiado pela Joana, que era a pessoa que estava mais por dentro da obra de Satie na sua totalidade. Acabámos por espigar uma série de partes da obra dele, bocadinhos de peças que achámos interessantes e, a partir daí, foi como montar essas novas peças, criando um novo edifício a partir do que chamamos de ruínas da obra de Satie. O edifício que reconstruímos parte até dos desenhos dele, da parte mais literária dos textos, do cenário de uma peça para a qual ele compôs a música – o cenário do Relâche, de Francis Picabia. A cenografia, a música, foi tudo desenhado e pensado em conjunto.

[Joana Gama]

Foi uma tentativa de aliar o piano com a eletrónica, criando uma confluência de sons que homenageasse Erik Satie?

Luís Fernandes – Sim, como a Joana disse, já havia um trabalho prévio entre mim e ela que assentava precisamente na ligação entre o piano e a eletrónica, sendo também que essa é uma ligação também já explorada há muitos anos por diversas pessoas. Acabou por ser muito natural. Acho que nos focamos mais em arranjar um ponto de partida concetual interessante, que foi este do Harmonies e das ruínas das obras dele. Quase que nem pensamos na importância que a eletrónica poderia ter no resultado final. O próprio Ricardo trabalha eletrónica neste projeto, através do violoncelo dele. Foi algo muito natural.

 

O Theatro Circo é uma sala que vos inspira de forma diferente, sendo vocês daqui da região?

Joana Gama – Sim, falamos disso, curiosamente. O Luís e eu somos de Braga. O Ricardo não, infelizmente…

Ricardo Jacinto – Infelizmente tenho este problema (risos)

Luís Fernandes – É o defeito dele (risos), mas demos-lhe a mão.

Joana Gama – O Ricardo é de Lisboa, é a primeira vez que veio cá e tenho a certeza que vai querer vir mais vezes. No meu caso e no caso do Luís, temos tocado aqui várias vezes e é sempre um prazer enorme, porque a sala é lindíssima e a equipa é muito simpática e muito prestável. O Luís também está ligado ao Semibreve, aqui…

Luís Fernandes – E, na verdade, o próprio QUEST foi criado após uma encomenda do Theatro Circo. São projetos que têm uma relação quase umbilical com o Theatro Circo. Se não houvesse Theatro Circo não havia QUEST nem havia Harmonies.

Ricardo Jacinto – E eu não conhecia Braga… (risos)

[Ricardo Jacinto]

 

Para vocês é importante trazer a obra de Erik Satie à luz do dia?

Joana Gama – Sim, é bonito. Eu no ano passado tive um projeto chamado Satie 150 que assinalou os 150 anos do nascimento de Erik Satie e o último concerto da minha tournée foi aqui, em dezembro. E aí mostrei a música de Satie na sua vertente original, as suas peças para piano originais, tal como ele as escreveu. E quem veio a esse concerto em dezembro e quem veio agora, vai poder ver essa obra de outra forma. E no fundo estes concertos também se complementam para mostrar o que se pode fazer a partir da obra original.

 

Há projetos para continuarem como Trio?

Joana Gama – Ainda não falamos em nada, mas como correu tudo bastante bem acho que é possível. Aliás, o Ricardo e eu já temos algo entre mãos. O Luís e eu vamos fazer uma coisa os dois também, em abril. Portanto, como trio, surgirá outro projeto certamente.

Luís Fernandes – Sim, e em relação ao projeto em concreto, iremos ter uma série de concertos agora no estrangeiro e esperamos depois regressar a Portugal para uma nova série de espetáculos.

Joana Gama – Nós em dezembro, quando estreamos o projeto no Teatro Maria Matos, lançámos o disco pela editora Espuma, um disco que está à venda, e através do disco podemos também chegar a um público mais alargado e dessa forma também potenciar o projeto.

[Luís Fernandes]


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