Revista Rua

Etc. Especial | Theatro Circo

Histórias pelo teatro adentro

Luís Costa, o mais antigo funcionário do Theatro Circo, partilha quase 50 anos dos 101 da emblemática sala de espetáculos de Braga. 

Luís Leite

Texto: Luís Leite |

Luís Costa, o mais antigo funcionário do Theatro Circo, partilha quase 50 anos dos 101 da emblemática sala de espetáculos de Braga. 

Este ano faz 101”.

“Não há nenhum funcionário do Theatro Circo mais antigo do que eu”, diz Luís Costa com orgulho. Há uma afeição singular nas palavras quando fala do Theatro Circo. A história da casa de espetáculos corre-lhe nas veias e, aos 95 anos, ainda tem uma lucidez espantosa para nos contar diversas histórias. Ingressou no Theatro Circo no dia 30 de Agosto de 1946, aos 25 anos. Contratava os filmes, marcava as sessões e ainda dava uma mão na bilheteira. Nos anos 80 do século passado, participou com o vereador da Cultura na época, Luís Mateus, nas negociações da venda de parte do capital da sociedade à Câmara de Braga.

Hoje vive em casa, de onde raramente sai. Quando chegamos, estava em frente ao computador e fazia uma atualização no Facebook onde escreve sobre a história de Braga e da Póvoa de Varzim, cidade onde passou a infância e juventude. Custa-lhe a andar devido a um acidente numa fábrica onde trabalhou. “Em 1970, uma máquina desfez-me o calcanhar. Ainda fartei-me de andar de automóvel, corri o Minho todo, mas agora causa-me muito mau estar”. Natural de Coimbra, fixou-se na Póvoa de Varzim aos 5 anos, onde mais tarde tirou o Curso Comercial na Escola Rocha Peixoto. “Eu vim para Braga por acaso. O meu era professor de história e estava a seguir a magistratura.  Quando eu tinha cinco anos, ele morreu. Fui viver com a minha avó e a minha tia, na Póvoa de Varzim. Estive lá 20 e tal anos até ir para a tropa”. No período da 2ª Guerra Mundial prestou serviço militar como sargento miliciano no R. I. 6 do Porto, e depois como expedicionário em Cabo Verde. “Após o término da guerra regressei em novembro de 1945. Fiquei um mês a descansar e tinha ideia de ir para África”. Entretanto, no ano de 1933 o Theatro Circo e o Cinema São Geraldo mudam de gerência, que é entregue a José Luís da Costa do Teatro Garrett da Póvoa de Varzim, tio de Luís Costa. Em 1946, o seu tio informa-o que precisa dele em Braga para trabalhar na área dos espetáculos. 

Quando Luís chega ao Theatro Circo vem com a lição estudada: “Principiei no cinema, a trabalhar em teatro aos 14 anos. Já projetava filmes no Garret, na Póvoa. Era chefe de cabine. Hoje isso era impossível mas naquela altura foi fácil. Conheci bem o Theatro, conheci as origens. O Moura Coutinho, o arquiteto, gostava muito de conversar e eu também, de maneira que fiquei a conhecer a história muito bem”. Era ele quem marcava os filmes e às vezes também contratava. “Nessa altura passei a conhecer toda aquela gente do teatro e do cinema”. Beatriz Costa, Palmira Bastos ou Adelina Branches foram algumas das muitas artistas que esgotavam a sala. “Conheci-os bem e às vezes até tinha de os acompanhar. E do cinema, conhecia todos os distribuidores, que eram muitos naquela altura. Agora parece que é só um ou dois”.

Luís conta-nos muitas histórias divertidas que se passaram no Theatro. Quando Arthur Rubinstein, um do melhores pianistas virtuosos do século XX se apresentou no Theatro Circo estava na plateia o chefe da polícia. “Ele perguntou-me quem era o artista. Eu disse-lhe que era Russo. O homem começa a chamar os polícias. ‘Vai já um para junto do palco e outro para a saída para tomar conta dele’. E eu disse-lhe: ‘ele tem andando pelo Porto e é em Braga que vai acontecer alguma coisa?’ Mas ele só dizia, é russo, é russo… Há muitas histórias. Faz parte da vida”. Antes do 25 de abril, todos os filmes eram vistos pela censura. Se o filme era censurado à ultima hora, algumas partes eram cortadas e todos os cartazes eram vistos pelo comissão de censura. “Até as gravuras que usávamos nos programas. Houve uma vez que que o Santos da Cunha mandou prender o programa porque achava que ofendia as pessoas”.

Foram 50 anos a assistir cinema. “Vi tantos filmes, tantos filmes. O Casa Blanca é um  dos melhores filmes que vi. Eu gosto de ver na televisão filmes que já vi. Gosto de uma coboiada de vez em quando. Estive perto de 50 anos naquela casa. Para mim, o Theatro Circo foi uma casa que tenho saudades do tempo que lá passei. Muito embora fosse um tempo bastante escravo”.

 

A história do Theatro, segundo Luís Costa

Em 1950, em Braga, tinha ardido o primeira salão de espetáculos na rua do século, a rua D. Afonso Henriques. “Em frente às Frigideiras da Sé há um edifício que tem em cima uma estatuetas. Havia lá um teatro de madeira que ardeu. A cidade ficou sem casa de espetáculos. Um grupo de capitalistas decidiu fazer outro teatro e ocuparam o lugar onde está hoje o banco de Portugal, onde criaram ali o Teatro de São Geraldo. Era um teatro pequeno, muito tísico e muito bonito”, conta Luís Costa.

Chegamos a 1906 e já então tinha aparecido o cinema, que tinha sido estreado em Braga em novembro de 1896. A luz elétrica tinha chegado a Braga em 1893 e três anos depois a casa de espetáculos apresentou o cinema pela primeira vez. “Era uma máquina pequenina que era rodada à mão e assim eram apresentados vários quadros relacionados com a vida daquela altura, como a saída de uma fábrica de tecidos. Chamavam-lhes quadros animados”.

A cidade bracarense tinha-se expandido e aquela casa não chegava. Para a criação do Theatro Circo foi constituída provisoriamente uma Sociedade Anónima, cuja iniciativa ficou a dever-se a três ilustres bracarenses de então: o Dr. Artur José Soares, advogado, Cândido Martins, industrial de nacionalidade espanhola e José António Veloso, director do então Banco do Minho. Ao lado dos fundadores, cinquenta accionistas assinam a escritura a 16 de Dezembro de 1907, aprovada e registada no dia seguinte, e com estatutos criados a 27 do mesmo mês para realizar capital por acções. “Decidem fazer uma sociedade anónima, por ações, com valor de 50 mil reis, ouro. Era muito dinheiro. Eram 1000 ações. Tinham portanto já o lugar e o capital de 750 ações e deixaram mais 250 para o que viesse”.

O antigo Teatro de S. João sofrera um grave incêndio na noite de 11 para 12 de Abril de 1908, ficando irrecuperável. Havia duas casas de espetáculos para construir no norte. Abriu-se um concurso para a construção do novo Teatro de São João, no Porto. A história foi contada a Luís Costa pelo próprio Moura Coutinho que lhe confidenciou que combinou com o arquiteto Marques da Silva fazer um projeto cada um e que quem ganhasse o concurso no Porto deixava de concorrer a Braga. Com a construção de um novo teatro em Braga, o velho Teatro de S. Geraldo tinha o seu destino traçado porque a sociedade de Braga não conseguia sustentar dois teatros em simultâneo, competindo entre si. Chegou-se à conclusão que o Theatro Circo estava a ser pequeno e que podiam aumentar o número de lugares. Mas era preciso haver capital. “Ainda havia 250 ações para por cá fora. Concedem a exploração ao empresário do Teatro Sá da Bandeira do Porto, que faz uma sociedade com o Moura Coutinho”.

Entretanto, a sociedade do Theatro Circo toma conta da exploração. “Foi o colapso. O Theatro Circo era administrado por um diretor que era médico, outro que era advogado, mas eles tinham a vida deles e às vezes, na hora dos espetáculo não havia filme, ou porque não tinham contrato ou porque não havia mercado e aquilo entrou no mal”. Em 1933, o Theatro Circo e o “Salão Recreativo” (onde hoje se encontra o desactivado “Cinema São Geraldo”) passaram a ser explorados por José Luís da Costa, empresário do “Teatro Garrett”, da Póvoa de Varzim. “O meu tio era um homem que era farmacêutico, mas nunca se dedicou a farmácia. Dedicava-se ao espetáculo e estava muito ligado ao jogo, que até 1927 era livre”. Não havia o vício do cinema e a primeira coisa que José da Costa tinha que fazer era entusiasmar a juventude. “Naquele tempo não tinham outro entretenimento. Então criou um bilhete especial para entrada dos alunos dos liceus e das escolas de Braga. Era o chamado o bónus”. Nas matinés o preço custava metade de um bilhete da cadeira. O bilhete custava 6 escudos e eles pagavam 3 escudos. “Metade da lotação era para isso, nas matinés de domingo aquilo enchia. Criou-se aquele hábito nas crianças, no rapazes e nas raparigas. Elas por suas  vezes meteram o vício nos pais. Resultado, a matiné era quase tudo juventude e à noite eram os pais”. 

Apareceu o cinema, foi combatido pela televisão, pela radio e o cinema cai. De tal maneira que havia dias em que, dia como filmes como “a festa na aldeia” enchiam a sala, nessa altura, nem esses filmes nem esses davam dinheiro. Mas as novidades passam, as pessoas num instante cansavam-se. Após o 25 de Abril de 1974, a censura desaparece e aparecem os filmes pornográficos, "foi uma loucura". "O neto do Moura Coutinho resolve fazer uma sala de espetáculos dentro do Theatro Circo. Fez ali um estúdio e chegou a estar lá um filme 30 dias", conta Luís Costa. No entanto, a abertura de novas salas de cinema na cidade e a ascensão da televisão em Portugal provocam o declínio económico do Theatro Circo.

 

O Salão Recreativo Bracarense

"O Salão Recreativo, que nome é que havia de se dar, como havia o antigo teatro São Geraldo que tinha sido extinguido quando apareceu o banco de Portugal. Vamos chamar São Geraldo. Assim surgiu o cinema de São Geraldo. E como é que surgiu? Arranjou-se um processo de juntar um grupo de capitalistas que arranjassem dinheiro. Sei que um dos grandes acionistas era um cônego da Sé que tinha muito dinheiro, tinha metade das ações. As ações não deitavam dinheiro para fora, era tudo gasto para dentro. Os do THC venderam as ações ao Moura Coutinho ou ao meu tio. Os do São Geraldo venderam à igreja. Nos primeiros anos cada um trabalhava para o seu lado, depois houve um acordo entre os dois. Um filme de êxito que era projetado no Theatro ia também ser projetado no São Geraldo. Andava um rapaz com os filmes de um lado para o outro". 


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