Revista Rua

Saber. Entrevista

Hugo Lima

Fotógrafo oficial do Vodafone Paredes de Coura

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

“Já avancei das grades para o público, já fiz crowdsurfing de câmara na mão. Só me falta saltar do palco para o público”

 

Em primeiro lugar, é importante esclarecer o nosso leitor: pit é o nome que se dá ao fosso que separa o palco do público que assiste a um concerto. E é exatamente nesse pit que Hugo Lima passa várias horas, numa correria entre os disparos certeiros para apanhar um movimento da banda ou do público e os enquadramentos mais perfeitos do ambiente junto ao rio. Hugo Lima é fotógrafo oficial do Vodafone Paredes de Coura desde 2005 e na sua lente já couberam muitas histórias. Menos aquela do mítico concerto de Arcade Fire, em 2005... Hoje, dono de um talento como há poucos, fotografa, dá aulas e esgota viagens fotográficas até Marraquexe ou Índia. Mas em agosto, o rumo é sempre Paredes de Coura.

[© Rita Carmo]

 

Quando é que decidiu ser fotógrafo profissional?

Em 2004. A par de atividades que desenvolvia na área do espetáculo e com a necessidade de registo fidedigno para com o que via, pois na maior parte das situações a luz condicionava e o automático da câmara levava-me a usar o flash que destruía a condição de luz ambiente, começo a minha pesquisa e a interessar-me cada vez mais pela fotografia. Já tinha começado com o Photoshop em 1998, tinha 15 anos. A edição digital era novidade e comecei a fazer trabalhos para lojas de fotografia. Segui depois pelo curso de ensino profissional de artes gráficas, que serviu para me direcionar para aquilo que realmente queria - a fotografia.

 

Foi difícil entrar no mundo da fotografia?

Na altura em que comecei não existiam tantas pessoas a fotografar - ou a tão bem fotografar. Comecei pouco antes do boom que se sentiu nos anos seguintes. Acredito que haja uma estrelinha da sorte que me acompanha nas três vertentes da minha atividade profissional - fotografia, cursos e viagens fotográficas – mas, acima de tudo, trabalho e persistência é algo em que sempre acreditei. Sempre soube que um dia mais tarde esse trabalho e persistência me traria a recompensa. Trabalhei imenso nos primeiros dez anos da minha atividade, quase sempre sete dias por semana, dedicado a várias entidades e projetos. Como quem corre por gosto não cansa, dei sempre tudo por tudo e dediquei-me imenso. Sempre por amor ao que fazia. Os contactos e trabalhos que hoje surgem, surgem em grande parte graças ao que nessa altura “plantei”. Nunca senti - nem atualmente sinto - concorrência, nunca me senti ameaçado nem, creio, tirei trabalho a alguém. Sinto que criei o meu próprio posto de trabalho.

 

É, desde 2005, fotógrafo oficial do festival Vodafone Paredes de Coura. Era mais difícil fotografar um festival há 12 anos?

Não, era bem mais fácil. As exigências eram menores. Tinha, por exemplo, muito mais tempo disponível para fotografar. Dormia quatro horas, mas fotografava durante quase 20. Agora, durmo duas horas, fotografo talvez umas dez horas e o restante tempo estou em contrarrelógio no computador para entregar trabalho, seja após terminar a noite ou ainda durante um concerto, que ainda não terminou, mas já estão a ser lançadas imagens. Organizo-me de forma a que, assim que surgem dez minutos livres, tenha o jantar a aguardar por mim, pois dez minutos que perca em alguma fila são essenciais! Cheguei a fazer o festival sem computador portátil, sem Facebook. Os seguidores do festival só uma semana depois é que iam ao site ver a reportagem em galeria que lá tínhamos. E onde os principais meios não tinham exigência de reportagem imediata, pois não tinham site online. Para a imprensa, uma pequena seleção de imagens dos principais acontecimentos bastava.

Hoje, já conheço os “cantos” à casa e as situações tipo: a hora certa para aquela luz que entra em determinada clareira na zona do campismo. Apesar de ter menos tempo para fazer o que mais gosto, consigo fazer mais em menos tempo.

 

Antes de participar no festival como fotógrafo, já tinha estado em Paredes de Coura como festivaleiro? Essa visão do ambiente do festival muda quando tem a responsabilidade de o fotografar?

Antes de 2005, fiz parte do público durante algumas edições. Muda imenso! Vivo o festival de forma diferente e atualmente tenho uma relação com os espetáculos bem diferente da que tinha na altura. Estou no festival por um motivo diferente que o do público. Não entro no rio desde 2004, mas devo passar muito mais tempo nas margens, a observá-lo. O ambiente é único! Passei por 14 festivais em 2004 e, do ponto de vista fotográfico, nenhum me proporcionou a diversidade de situações e beleza natural que este me proporciona.

 

Alguma(s) história(s) em Paredes de Coura que o tenha(m) marcado?

Recordo o êxtase no final do concerto de Ornatos Violeta, onde, num momento fugaz, estava em pleno centro do palco a fazer uma fotografia de final de espetáculo, que foi depois amplamente utilizada pela banda. Ao mesmo tempo, estava a fazer parte do encerramento juntamente com a equipa técnica e a sentir a energia do público e da banda - e a vibrar com isso!

Thievery Corporation proporcionaram um concerto com imensos convidados e pude fotografar todo o concerto (regra geral apenas posso fotografar as três primeiras músicas, salvo autorização especial para o fotógrafo oficial).

Já tive concertos onde fiz de fotógrafo e segurança ao mesmo tempo, pois tinha pessoas a fazer crowdsurfing a uma frequência tal que, a cada dez segundos, havia alguém a cair no fosso. Se com uma mão fazia a fotografia e com a outra me protegia, no instante a seguir colocava a câmara de lado e recebia em braços quem em cima me caía (ou garantidamente se estatelava no chão).

Um momento que me marcou - e ao meu trabalho - foi a imagem que fiz em 2014 a partir de uma grua que me elevou a um ponto mais alto que o palco, proporcionando-me assim uma forte imagem que foi muito utilizada.

Enquanto participante pré-2005, tenho várias histórias, como o dilúvio em 2004 e descer, num carrinho de compras, a rampa até ao rio… mas foge ao âmbito profissional! (risos)

 

Alguma vez se sentiu “indesejado” em algum concerto?

Por vezes somos indesejados, mas previamente o sabemos via condições impostas pelos artistas. Recordo-me de uma situação, creio que em 2007, com Crystal Castles. Naquele momento, era o único fotógrafo a fazer a cobertura do concerto. O espetáculo estava a ser bom do ponto de vista visual, havia muito movimento e muita expressão. A artista, em determinada altura, parecia estar a interagir comigo, estava fixada em mim. Posava, escorregava e caía por várias vezes. Eu continuava a fazer o registo. Até que, num instante, ela pegou numa garrafa de vidro e atirou-a na minha direção, caindo a poucos centímetros...

 

Algum concerto que não conseguiu fotografar e tenha ficado arrependido?

Arcade Fire, em 2005! Era uma banda que ia abrir o palco e eu estava ocupado com algo que julgava ser mais importante. Por não poder estar nos dois lugares ao mesmo tempo, tive que fazer a opção. Arrependi-me nesse mesmo dia... e sem conhecer ainda a dimensão que a banda viria a ganhar, ainda nesse mesmo ano.

 

Já fotografou imensas bandas. O que mais gozo lhe dá?

Em particular, tenha a banda a dimensão que tiver, dá-me gozo quando existe expressão, movimento, luz interessante. Ou até mesmo chuva. Se houver interatividade e momentos únicos com o fotógrafo, melhor.

 

Quando está a fotografar um concerto consegue concentrar-se na música?

Estou atento a tudo: luz, expressão, movimento e inclusive a música, mas mais num ponto de vista rítmico, para prever situações. Assim, desloco-me e situo-me no local certo ainda antes da deslocação em palco ocorrer.

 

Alguma vez aconteceu estar a trabalhar e preferir estar a “curtir o som”? Sente que trabalhar em festivais pode ser uma “sorte”, mas ao mesmo tempo uma “chatice”?

Já aconteceu estar no pit e estar a curtir. Em concertos em que o público está em êxtase e em mosh, eu salto para o meio para captar toda essa expressão e energia! Já avancei das grades para o público, já fiz crowdsurfing de câmara na mão. Só me falta saltar do palco para o público (risos). A única chatice é que o meu trabalho não acaba quando o festival termina. Para um Vodafone Paredes de Coura tenho sempre que reservar as duas semanas seguintes (o triplo da duração do festival) para poder lançar todo o trabalho selecionado e editado. Essa é a parte mais aborrecida e complicada de se fazer, pois, para além do desgaste físico acumulado no festival, o ritmo de trabalho é outro, mais lento, sem adrenalina e sem grande prazer. A recompensa surge no final de tudo, com os resultados.

 

Também é fotógrafo oficial do NOS Primavera Sound, desde a 1ª edição. Existem diferenças logísticas em termos de trabalho entre este e o Paredes de Coura? Qual prefere?

São festivais diferentes. O NOS Primavera Sound dura menos tempo e acontece na minha cidade. Vou dormir e almoço em casa. Embora nem dez minutos possa desperdiçar pois tenho sempre trabalho para selecionar e editar para que, para além das exigências de entrega, não acumule trabalho para além de uma semana após o festival. Também é um festival que começo a fotografar pelas 16h30, o que facilita. O Paredes de Coura tem um menor número de palcos e espetáculos, mas sei que tenho sempre que reservar três semanas de agosto. Gosto do que faço mas implica sacrifícios, como por exemplo, nunca estar presente no aniversário da minha companheira e em família.

 

Hoje em dia, e devido a uma facilidade imediata, instantânea, de obter uma imagem, surge uma quantidade astronómica de fotógrafos. Por onde acha que passa o futuro da fotografia? Acha que tem que passar obrigatoriamente pelas novas tecnologias?

Creio que dependerá das necessidades e do género de fotografia. Atualmente no jornalismo vejo ser privilegiada a rapidez em vez da qualidade, algo que eu procuro controlar no meu trabalho, pois sou perfecionista e recuso-me a mostrar trabalho onde não tenha dado o meu melhor - e isso exige tempo! Na área do fotojornalismo, ao longo dos anos observei grandes mudanças na logística e método de trabalho. As novas tecnologias facilitam. No meu caso: a minha câmara tem Wi-Fi. Isso permite-me terminar de fotografar a terceira música de um concerto e, ainda a quarta música não terminou, e já enviei o trabalho para o tablet ou para o telemóvel, selecionei, editei e coloquei na Dropbox para que a imprensa possa usar ainda antes do concerto terminar. As novas tecnologias trouxeram novas possibilidades e postos de trabalho mais específicos. Por isso, acredito que estejam para ficar e delas tirarmos partido.


  • Tatão Queiroz Portela

    Vocação aliada à competência dá sucesso. Isto é Hugo Lima.

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