Revista Rua

Apreciar. Cultura

INAC: Do riso ao risco, em busca de um circo genuinamente português

Instituto Nacional de Artes do Circo

Andreia Filipa Ferreira

Texto: Andreia Filipa Ferreira |

Fotografias: Nuno Sampaio

A chuva caía lá fora enquanto os primeiros aquecimentos da manhã preenchiam o interior do espaço amplo que é hoje a casa do Instituto Nacional de Artes do Circo (INAC), instalado desde setembro do ano passado num dos pavilhões do Lago Discount, em Vila Nova de Famalicão. Apesar do friozinho matinal e da resistência do corpo a adaptar-se à necessidade de movimento, os cerca de 30 alunos que compõem o Instituto Nacional de Artes do Circo, num curso profissional de circo com variadas especificidades, lá vão preparando os aparelhos de ginástica, iniciando os alongamentos e preparando os músculos para o que aí vem. Ao som de melodias de flamengo, que marcam o ritmo das diversas aulas que se espalham pelo espaço, o INAC ganha vida, entre cambalhotas, saltos em trampolins, acrobacias de solo e aéreas, treinos de equilíbrio e treinos noutros aparelhos de circo.

Quem nos recebe é Bruno Machado, responsável pela direção geral e artística do INAC e experiente na roda cyr/alemã. Bruno, com o seu sorriso afável, cativa-nos a conhecer uma realidade que, para ele, merece maior destaque no nosso país. Entre formações em Portugal, Itália ou Inglaterra, destacando-se a passagem pelo Chapitô ou pelo National Centre for Circus Arts, Bruno é hoje um dos impulsionadores do circo contemporâneo, contribuindo para a formação de jovens artistas de circo contemporâneo de alto nível técnico e artístico.  “O INAC é uma estrutura no Norte de Portugal que se dedica exclusivamente à pesquisa do novo circo e do circo contemporâneo. É um espaço único na Península Ibérica a nível de boas condições de escola. Cá, temos todas as especialidades de circo e tentamos que o aluno, de alguma forma, se descubra como artista. Não só como acrobata de circo, mas como artista também”, afirma Bruno, numa pausa após uma das muitas aulas que leciona, já que a exigência do curso requer treinos diários e intensos.

Nos anos 80 e 90, os movimentos de rutura levaram o circo europeu a novas estéticas, dando origem a uma enorme renovação que faz com que hoje as artes do circo sejam consideradas uma área de criação artística emergente. Vindos das artes de rua, do teatro, da dança e da mímica, os mensageiros deste novo circo deixam a proeza, como fim único, em pausa, trazendo a dramaturgia e a cenografia para o centro da ação. É como se a figura típica do apresentador de circo fosse substituída pela figura do encenador ou coreógrafo, num espetáculo onde há risco, como não poderia faltar, mas há muito mais que isso. Há paixão, há riso, há poesia.

Com uma área de treino com aparelhos técnicos de acrobacia, aéreos, equilíbrio e malabarismo, uma blackbox equipada com ponto de aéreos, som, luz e linóleo, e um open space para laboratório e pesquisa, o INAC dispõe de instalações modernas e pertinentes para a eficácia dos treinos. “As características do espaço, com nove metros de altura, permitem a prática de todas as disciplinas de circo. Até temos trapézio voador!”, destaca Bruno. Quanto aos objetivos principais desta estrutura, a criação de um circo nacional genuíno, à semelhança dos consagrados circos franceses com uma linguagem própria, está na base dos anseios. “O intuito é criar um circo autêntico português. Notámos que em Portugal já começa a haver um roteiro de circo, as pessoas já não pensam em circo meramente como circo tradicional e até os teatros já incluem o circo contemporâneo nas programações e, portanto, queremos impulsioná-lo”, explica o responsável, acrescentando: “Quando falamos de circo às pessoas, imediatamente estreitam a noção para circo tradicional ou Cirque du Soleil. Não! Não existem só estas duas coisas, existe muito mais. Na verdade, tanto o Cirque du Soleil como o circo tradicional trabalham números, ou seja, encaixam-se numa esfera de entretenimento. É importante que as pessoas percebam que existe outro circo, existe um circo com pensamento, com reflexão”. Tentando então formar artistas de circo de modo a contribuir para a criação de um novo perfil profissional em Portugal, promovendo ainda a integração profissional dos alunos em estruturas formais competentes, o INAC assenta a sua missão em abordagens pluridisciplinares que assegurem o surgimento de novas estéticas artísticas. Do malabarismo ao clown, passando pelo equilibrismo, aéreos e acrobacia, as disciplinas presentes no plano pedagógico do INAC estendem-se ainda ao teatro e à dança contemporânea, numa relação intrínseca entre as várias artes.

Com 18 professores dedicados ao ensino de várias especialidades, este instituto garante aulas regulares, incluindo ainda aulas para crianças e para qualquer interessado em experimentar a arte circense ao final do dia. “Em maio próximo, faremos novamente provas de acesso, de aptidão. São dois dias de provas, em que os candidatos fazem uma audição, que inclui um teste acrobático, de preparação física, de teatro, de dança e da própria especialidade que querem desenvolver e trabalhar como artistas”, esclarece Bruno, deixando o desafio aos potenciais alunos do INAC.

Relativamente a balanços, Bruno é sucinto nas palavras: “bastante positivo!”. “Contamos neste momento com o apoio do município de Famalicão, o que é ótimo. Temos vindo a desenvolver vários projetos sociais, como por exemplo o projeto Um por Todos, que trabalha com a comunidade local, inclusive com jovens portadores de deficiência, e temos apostado na criação artística através da Companhia Umpor1, que é a plataforma artística do INAC. Neste natal, fizemos aquilo a que chamamos Circo Potável, que é um projeto novo, que visa colocar em prática aquilo que nós aprendemos, apresentando ao público. Porque, no final de contas, nós trabalhamos para o público. O resultado foi super positivo e, por isso, estamos a desenvolver mais projetos para 2018”, revela Bruno, anunciando surpresas.

Enquanto aguardamos por essas surpresas, podemos já destacar, em março, o regresso do Circo Potável ao espaço do INAC, em Ribeirão. No mês de junho, a agenda é preenchida pela apresentação dos solos dos alunos do 2º ano do curso profissional do INAC na Casa das Artes de Famalicão, numa semana exclusivamente dedicada ao circo contemporâneo nesse espaço cultural e ainda pelo espetáculo coletivo que percorrerá Famalicão, Braga e Guimarães no âmbito do Vaudeville Rendez-Vous, um festival internacional que visa o desenvolvimento e pensamento do circo contemporâneo.


4 vídeos 911 followers