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Ilhas Cíes: O paraíso aqui ao lado

Filipa Santos Sousa

Texto: Filipa Santos Sousa |

Se um dia alguém escreveu um poema sobre a magnânima paisagem de Vigo, na Galiza, por certo, encontrou nas Cíes a sua maior fonte de inspiração. Não há hotéis, nem azáfama citadina. Não há poluição, nem caixotes do lixo. Em vez de pessoas, as gaivotas de pata-amarela assumem o papel de moradores. Com o sentir da natureza ao ritmo de cada passo, estas ilhas são como um Éden selvagem. Um paraíso aqui ao lado.

As Cíes são a principal atração do Parque Nacional Ilhas Atlânticas, um espaço protegido pelas autoridades de “nuestros hermanos” e que se distingue pela sua beleza natural. Para quem não conhece, o arquipélago é composto por três ilhas: O Faro, Monte Agudo e San Martiño. Fruto da passagem ancestral dos romanos por estes lados e dos vários mitos associados, são conhecidas como as “ilhas dos deuses”. Há ainda quem lhes chame as “Ilhas Afortunadas”. Num cenário tão idílico, os aventurados do sítio são mesmo os inúmeros seres-vivos residentes.

Entre matagais, montes, faróis e dunas, as Cíes dão casa a uma incrível variedade de espécies, desde peixes, moluscos e aves-marinhas. As já mencionadas gaivotas de pata-amarela ocupam o trono das ilhas, ou não fosse esta a maior colónia de todo o mundo. Mas não estão sozinhas. Corvos-marinhos, gaivotas prateadas e até os raros e protegidos airos (aves singulares que parecem pinguins) sobrevoam estas paragens. As falésias de geografia inacessível ao Homem abrigam estas e outras aves. Lagartos, ouriços, coelhos e tartarugas podem também ser vistos.

O Lago dos Nenos é um dos locais de paragem obrigatória. Esta pequena reserva de água doce, onde os banhos são proibidos ao visitante humano, alberga uma quantidade assinalável de espécies protegidas. Uma passagem de cimento construída sobre este reservatório de água faz a ligação entre as ilhas de Monte Agudo (no lado norte) e a de O Faro (a sul). De facto, em noites de maré cheia, o lago desaparece e, por conseguinte, não é possível fazer a travessia a pé de uma ilha para a outra. Este é um dos muitos aspetos curiosos das Cíes, melhor mesmo só o pôr do sol. Parece que os diferentes tons de rosa e laranja foram pintados no firmamento, para que nos recordemos que somos apenas mais uns de tantos seres que partilham este mundo.

Apesar de os animais serem os únicos habitantes das Cíes, nem sempre foi assim. O arquipélago e os seus encantos atraíram aventureiros durante muitos séculos. Sabe-se que as ilhas foram povoadas desde a Idade do Bronze até ao século XX. No entanto, sobram apenas rastos das famílias que passaram por aqui. Hoje em dia, é possível chegar a este paraíso, mas, mesmo assim, com algumas restrições [veremos adiante], ou não fossem estas as “ilhas dos deuses”.

COMO CHEGAR

Ao enveredarem em viagem para as Ilhas Cíes, perceberão rapidamente o quanto este paraíso está mesmo aqui ao lado. Saindo de carro de Braga, demorará pouco mais que uma hora e meia a alcançar Vigo (pode optar pela A3 ou A28). Poderá também ir de autocarro. Chegando à cidade galega, e para alcançar as afamadas ilhas, terá que deslocar-se num dos vários ferries que partem de Vigo, mas há que deixar o carro em terra. A viagem de barco dura cerca de 45 minutos e os bilhetes de ida e volta para adultos rondam os 18 euros. Um conselho, dada a elevada procura turística: é melhor comprar os bilhetes com alguma antecedência (pode fazê-lo através das transportadoras Mar de Ons ou Piratas de Nabia), assim assegura o seu lugar e evita congestionamentos. Acrescente-se que as ligações marítimas para as Ilhas Cíes podem ainda ser feitas com partida em Baiona e Cangas.

O QUE VISITAR

Há várias atividades para os visitantes, como mergulho aquático, kayak e, claro, as típicas, mas inevitáveis caminhadas. Haverá melhor que caminhar pelo paraíso? Existem cinco trilhos oficiais e devidamente sinalizados, com duração de duas a três horas. A caminhada mais exigente e, simultaneamente, mais arrebatadora é a do Monte do Farol (na ilha de O Faro, do lado sul). Com mais de 3,5 quilómetros de extensão, este percurso desemboca no mais emblemático miradouro das Cíes. Outro percurso inevitável é o do Alto do Príncipe (na ilha de Monte Agudo, lado norte); a subida é difícil, contudo oferece uma perspetiva totalmente diferente, fruto da geografia e vegetação divergentes. Para além disso, e como não poderia deixar de ser, as ilhas têm várias praias de areais brancos e águas cristalinas prontas a serem desfrutadas. A este nível, destacam-se a Praia de Rodas (que foi já considerada pelo The Guardian como a mais bonita do mundo), bem como a Praia de Figueiras (ou Alemães) indicada para os fãs de nudismo.

ONDE DORMIR

A única forma de sentir as Ilhas Cíes na sua máxima plenitude e essência é dormir lá. No entanto, como não há qualquer estabelecimento hoteleiro, apenas poderá fazê-lo se pernoitar no parque de campismo. Sim, isto porque, entre outras medidas de proteção, existe uma lotação máxima diária permitida de 2200 visitantes e 800 pernoitas. Por isso, é importante que reserve o seu lugar no campismo com a maior brevidade possível. Não arrisque uma viagem de ida e volta, quando a sua ideia é ficar. Com a praia apenas a 50 metros, restaurantes, cafés e até um pequeno mercado, verá que não se vai arrepender de acampar. As Ilhas Cíes são desabitadas, mas oferecem as condições mais que necessárias para a prática de um campismo confortável e extasiante (devido ao mosaico quase sobrenatural de beleza extrema envolvente). Um paraíso selvagem, mesmo aqui ao lado.


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